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“Ovos da Páscoa” digitais: começou tudo num pixel cinzento

Os Easter Eggs, os pontos secretos dos videojogos, foram criados há 40 anos — por uma questão de justiça

Bee Felten-Leidel / Unsplash

Não costumam surgir no ecrã com a forma de um ovo, mas qualquer gamer minimamente entusiasta já os viu. Os Easter Eggs são truques subtis engendrados por criadores e programadores de videojogos, e têm como objetivo supremo passar uma mensagem secreta a quem está do outro lado. Trabalhos minuciosos e discretos em forma de texto, imagens, códigos ou funcionalidades secretas, e que seduzem o jogador a continuar à procura do ovo seguinte, de uma pista derradeira naquele mesmo jogo ou na sua sequela, da peça que falta para que tudo encaixe na perfeição e a mensagem dos criadores do jogo seja entendida. A prática alastrou-se a todos os meios, desde a televisão à banda desenhada. E tudo isto começou com um nome.

Warren Robinett achava que merecia mais. Era programador na Atari, uma tumultuosa empresa formada em 1971 que se especializou em consolas e jogos arcade. Em 1978, vivia o melhor período: tinha acabado de lançar a consola Atari 2600, o seu maior sucesso até então, que num espaço de três anos haveria de vender cerca de 30 milhões de unidades. Um sucesso sem nomes. A empresa temia que os concorrentes lhes fossem roubar os seus talentosos trabalhadores — responsáveis pela qualidade e inovação das ideias — e por isso recusava-se a dar créditos aos programadores que faziam os jogos. Ora, lá está, Warren Robinett achava que merecia mais: não concordava com a política da empresa, e defendia que ele e os seus colegas deveriam receber os créditos do seu trabalho.

Em 1979, criou o jogo Adventure para a Atari 2600, o primeiro jogo de ação e fantasia para uma consola. Teve grande sucesso. Acontece que, na produção de jogo, Robinett quis reclamar o que era seu por direito. Discretamente, inseriu no jogo a mensagem “Created by Warren Robinett”. Como é que a Atari não reparou e o obrigou a corrigir a ideia? Porque a mensagem só surgia no ecrã quando o jogador movesse o seu boneco para um pixel específico — um ponto cinzento — numa altura também especifica do jogo. Um trabalho de minúcia com a intenção de obter a justiça possível.

Tinha nascido o primeiro Easter Egg do universo gaming. Quando Robinett saiu da empresa, não disse a ninguém do “erro”. Eventualmente, um fã do jogo expôs o ponto cinzento à empresa. Era muito caro corrigi-lo e retirá-lo do jogo. Por isso, os responsáveis aproveitaram a ideia e popularizaram-na, multiplicando a técnica em jogos futuros e incentivando os jogadores a procurarem o ovo digital seguinte. E o seguinte, e o seguinte... Quanto a Warren Robinett, ninguém lhe tirou o crédito de, há quarenta anos, ter inventado os Easter Eggs.

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