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Qual é o problema de saber o fim de um filme? A era do ‘spoiler’, e dos ‘trolls’, acabará

Qual é o problema de saber o fim de um filme? E, sim, Hamlet não sobrevive

Jeshoots Com / Unsplash

Spoiler alert: no fim morremos todos. Ponto assente. Tenho esperança de que não, ao mesmo tempo. Quando chegar a altura de cada um. Mas esta é a questão. Sabemos como é que esta história — a nossa — vai inevitavelmente terminar. Mortinhos da silva. Mas a maioria vive os seus capítulos diários como se não fizesse a mínima ideia que a sua passagem por cá é finita. Fingimos ignorar a nossa mortalidade. E um dia iremos ser surpreendidos: “O quê? Eu também morro? A sério? Está no script?” e é o The End. Certo? Isto não é verdadeiramente um spoiler. Agora, se alguém se atreve a dar uma pista do que vai acontecer num filme recém-estreado ou numa série da Netflix isso — drama, drama, drama — é catastrófico. É que fica completamente arruinada a possibilidade de se usufruir a obra. É uma das infantilidades do século esta delicadeza do consumidor de conteúdos streaming que exige que o seu olhar tenha de ser absolutamente virgem e intocado. Uma fragilidade assim exposta publicamente que é um petisco para as alcateias de trolls que abundam nas redes sociais e exploram qualquer fraqueza humana só porque sim e porque a maldade lhes dá um poder e uma suposta gratificação imediata de que se alimentam. Falo disto, dos spoilers, porque cada vez mais me deparo com estas verdadeiras tragédias contemporâneas.

Um crítico do “Washington Post” questionava-se sobre qual é afinal a prescrição dos spoilers. A algum momento tem de se presumir que já se pode falar livremente de determinada obra de ficção sem receio de melindrar uma alma mais distraída e de estar a revelar o plot. O relato vinha a propósito de ter sido “atacado” por um leitor em fúria por ter escrito num texto que Hamlet morria. Disse-lhe o leitor que devia ter escrito que o artigo continha spoilers. E perguntava-se o crítico se 400 anos não bastavam ou se tinha de escrever como se a peça (um filme, no caso) de Shakespeare fosse um episódio de “Game of Thrones” só para não alienar leitores. Isto é absurdo: a ideia de que não se pode discutir determinado objeto de ficção sob o argumento de que se estará a dar spoilers impede no fundo de o analisar sob o pretexto de alguém hipoteticamente poder ficar melindrado por descobrir pistas sobre a narrativa. Se não se pode analisar a história, o desempenho, o contexto porque podem ter spoilers, então só se pode anunciar que está disponível para consumo e que é “fantástico” (ou não) e dar estrelas ou dar uma percentagem de relevância.

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