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Ajudar estudantes no estrangeiro. Como um intercâmbio (e um canal de YouTube) acabou numa empresa de sucesso

A Enjoy Intercâmbio tem sangue brasileiro e sucesso na Irlanda — e um pouco por todo o mundo

Mícheál Howard

Uma cidade desconhecida é um animal poderoso. É um animal poderoso capaz de provocar medo e felicidade, de oferecer a sensação de se estar perdido e a adrenalina de conhecer, a incerteza de não saber chegar ao destino mas, ao mesmo tempo, o fascínio pelo novo e pelo diferente. É chegar sozinho a um sítio onde nunca se esteve e ter a liberdade e a responsabilidade de poder vaguear sem saber muito bem o que está depois da esquina em que acaba a rua. Rua essa percorrida numa atenção dispersa, entregue às novas pessoas e edifícios que também a percorrem. Uma cidade desconhecida é um animal poderoso, que dá de bandeja ao visitante uma adrenalina boa, pacífica, rica.

É por essa adrenalina que os jovens arriscam e viajam; chegados ao destino, conhecem e perguntam para ficar a conhecer melhor e mais ainda. Os milhares de alunos que fazem Erasmus todos os anos são disso a prova viva, assim como todos os estudantes de outros continentes que sonham estudar na Europa e o fazem através de programas de intercâmbio internacional. E, em alguns casos felizes, a experiência ultrapassa-os, a adrenalina conquista-os, e a cidade até ali desconhecida torna-se a sua nova casa.

Rory Hennessey

Foi isso que aconteceu com Anne Peneluppi e Cauê Oliveira. Brasileiros, quiseram ir para a Irlanda estudar e aperfeiçoar o nível de Inglês e, ao mesmo tempo, trabalhar com o visto de estudante que lhes foi concedido. Chegaram a Dublin em 2013 e assim fizeram: começaram a reaprender a língua num instituto enquanto acumulavam vários trabalhos temporários. Um dia foram passear até Galway, uma pequena cidade a 200km da capital irlandesa. Apaixonaram-se e trocaram de morada de imediato.

Ao Vida Extra, Cauê explica que, no Brasil, era músico: “fazia eventos, tocava em barzinhos, restaurantes, casamentos, alugava equipamentos de som, era DJ.” Na Irlanda, apesar da paixão pela cidade que os acolheu, sentiu falta da “parte criativa e artística” que já se lhe tinha entranhado na rotina da sua vida.

A solução foi virar-se para a Internet. “Decidi comprar uma câmara e criar um canal do YouTube para compartilhar o estilo de vida que a gente tinha em Galway, que na época era um destino muito pouco popular para os brasileiros; praticamente não se viam brasileiros na cidade. Acabou sendo bom porque ganhou muita visibilidade, e um canal de que eu não esperava nada - era só para curtir mesmo - acabou tendo milhares de acessos, acho que cerca de 10 mil inscritos num ano.” Os elogios que fazia a Galway - uma cidade com bons salários e boa qualidade de vida, oportunidades de emprego e escolas de línguas - levou a que a popularidade do canal entre os seus compatriotas crescesse ao ponto de muitos jovens começarem a entrar em contacto com ele por e-mail e Facebook a pedir informações e ajuda. Responder a todos os pedidos tornou-se difícil.

Cauê tomou a iniciativa de ir a uma escola local; falou com o director, provou-lhe que centenas de alunos brasileiros estavam interessados em estudar na cidade, e um acordo entre as duas partes foi feito - até porque Cauê já tinha conseguido a nacionalidade portuguesa. Assim nasceu a Enjoy Intercâmbio. Rapidamente a empresa começou uma revolução que se estendeu ao mercado de Dublin, fruto do trabalho de divulgação. A Enjoy estendeu-se também a outras cidades do interior da Irlanda, e o número de alunos não parou de crescer. Em Galway, foi necessária a construção de três prédios para alojar os cerca de 400 alunos que chegaram vindos do Brasil, desejosos de estudar e viver na Europa.

O trabalho da Enjoy não se cinge a trazer alunos: a empresa ajuda-os nas questões burocráticas, encontra-lhes casa, mostra-lhes a cidade. Um apoio que Cauê não teve quando chegou a esta cidade desconhecida: “Senti muita falta [de ajuda] quando o meu nível de inglês era muito básico, principalmente na parte de documentação.”

Outras agências de viagens seguiram o exemplo da Enjoy e começaram a prestar o mesmo tipo de serviço, o que acabou por dinamizar ainda mais o mercado. Hoje, a Enjoy Intercâmbio já cresceu para lá da Irlanda e tem programas de intercâmbio “em praticamente todos os países de língua inglesa; Inglaterra, Escócia, País de Gales e estamos a abrir em Espanha e França; temos parcerias com escolas no Canadá, temos parcerias com escolas na África do Sul, e estamos a começar nos Estados Unidos.”

Em apenas três anos, a Enjoy já ajudou mais de 2 mil alunos a estudar no estrangeiro. Tem 42 mil subscritores no YouTube e os vídeos contam com mais de 2 milhões de visualizações. Em 2018, foi eleita uma das 35 melhores agências do mundo pela Quality English, uma associação educacional e qualificadora internacional. O seu sucesso foi tão grande que, entretanto, já outros seguiram as pisadas de Cauê e da esposa, Anne. Em 2017, Vítor Ferrari fundou a Unity Intercâmbio, também em Galway, e já ajudou mais de 100 jovens a ir estudar para a Irlanda. Além disso, desenvolveu este ano “um projecto sem fins-lucrativos que visa ajudar toda a comunidade brasileira em Galway.”

Para eles, e para todos os jovens que ajudaram, a cidade desconhecida - aquele animal poderoso com tanto para dar - é agora a casa onde decidiram construir o futuro.

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