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Estes dois reformados venderam tudo para correr o mundo. Agora estão em Portugal

Debbie e Michael Campbell fizeram aquilo que para muitas pessoas da sua idade seria impensável. Agora contam tudo ao Vida Extra

Debbie e Michael Campbell no Airbnb que alugaram no Estoril

Debbie e Michael Campbell no Airbnb que alugaram no Estoril

Nuno Botelho

Sempre gostaram de viajar, mas esta é a primeira vez que o fazem durante tanto tempo. Há seis anos decidiram que ainda tinham mais uma grande aventura para viver. Confessaram que não esperavam que a aventura fosse esta, e chegaram a pensar em apenas pegar no barco que tinham e velejar em direção ao horizonte, mas acabaram por decidir que esse não seria o melhor caminho. Hoje, não se arrependem da decisão que tomaram.

Debbie e Michael Campbell são casados há 40 anos, ela tem 63 e ele 73 anos de vida e muitas histórias para contar — especialmente dos últimos seis anos, em que viajaram por quase 300 cidades, ficaram instalados em outros tantos apartamentos da plataforma Airbnb e já passarm por 85 países. São conhecidos nas redes sociais e através do seu blog pelo nome Senior Nomads. Criaram o blog assim que começaram esta jornada, porque queriam manter um registo das viagens.

Começou por ser uma coisa apenas para a família e amigos, mas rapidamente ganhou uma dimensão da qual não estavam à espera. Já escreveram um livro, “Your Keys, Our Home”, e há cerca de três anos, a neta do casal, Hayley, ajudou-os a criar também uma conta no Instagram.

“Temos tido um feedback excelente. As pessoas acham a história interessante e acho que já inspirámos muitos nómadas por aí. Recebemos muitas mensagens de pessoas que dizem que agora estão a viajar porque se sentiram motivadas pela nossa história. Isso é muito gratificante”, contou Debbie ao Vida Extra, claramente agradecida pelo facto de entusiasmar pessoas em todo o mundo.

Já viveram em Londres, mas a maior parte das suas vidas foi passada em Seattle, onde Debbie era designer gráfica e Michael trabalhava na área de eventos desportivos. Decidiram deixar tudo para trás e viajar pelo mundo. A ideia era ficar apenas seis meses, depois o gosto por conhecer cada vez mais fez com que a experiência crescesse. Alargaram a meta da aventura para nove meses, voltaram a Seattle para o casamento do filho e, depois disso, compraram bilhetes apenas de ida. Foi nessa altura que decidiram que as suas vidam se resumiam unicamente a viajar.

Alugaram a casa de ambos durante algum tempo e, em 2015, decidiram vendê-la, juntamente com os carros e o barco. Confessaram ao Vida Extra que não foi assim tão díficil desfazerem-se de tudo o que tinham, seja para caridade ou através de vendas de garagem. “Afinal de contas, são apenas coisas!”. Mas guardaram fotografias e objetos especiais que não conseguiram deitar fora por terem valor sentimental, e admitem que sentem falta de algumas coisas às vezes.

“Tenho saudades de alguns utensílios da minha cozinha, porque eu adoro cozinhar. Já cozinhei em 290 cozinhas pelo mundo fora. É um recorde! Também tenho saudades do nosso barco, mais do que da nossa casa. Temos memórias incríveis naquele barco. E tenho saudades do meu Volkswagen amarelo descapotável”, revelou Debbie, entre risos.

A ideia de fazerem uma grande viagem foi introduzida pela filha do casal, Mary, em dezembro de 2012, quando havia chegado de uma viagem e lhes falou do conceito da plataforma Airbnb — viver nas casas de outras pessoas. Três meses depois, o casal deu por si a embarcar nesta aventura. Têm noção que, para a maioria das pessoas, isto seria apenas uma ideia que nunca viria a ser posta em prática, por receio de deixarem tudo para trás, por falta de dinheiro, por não terem a força de vontade necessária para deixarem os seus empregos, entre inúmeras outras razões que poderiam fazer com que a ideia nunca passasse de isso mesmo — uma utopia.

Mas Michael e Debbie abraçaram o espírito juvenil que tinham dentro deles e deixaram todas as incertezas para trás. Pensaram “porque não? Qual é a pior coisa que pode acontecer? Se não gostarmos, voltamos. Não nos pareceu assim tão arriscado, mas sabemos que 99% das pessoas não o fariam e considerariam uma uma decisão sem sentido”.

Debbie e Michael Campbell no Airbnb que alugaram no Estoril

Debbie e Michael Campbell no Airbnb que alugaram no Estoril

Nuno Botelho

Apesar de considerarem uma escolha díficil, o país que dizem mais terem gostado de visitar foi a Croácia — pela beleza do país e a relação custo/qualidade de vida. Mas dizem que Portugal também está no top cinco. Raramente retornam ao mesmo país, embora já seja a terceira vez que se encontram em Portugal. Estiveram em Lisboa em 2013 e no Porto em 2015. Desta vez, fizeram uma passagem por Albufeira e, neste momento, encontram-se hospedados no Estoril, mas afirmam que o que mais os encantou em Portugal foi mesmo a capital. Admitem que, por vezes, a vida que escolheram pode tornar-se bastante cansativa, mas tentam esquecer as coisas menos boas que lhes aconteceram durante estes seis anos.

“Apanhámos muitas vezes comboios errados e roubaram a carteira do Michael, uma vez. Mas, no geral, tudo correu bem. Nunca perdemos um avião, tentamos sempre fazer as coisas com calma. E nunca ficámos doentes nem precisámos de ir ao médico nestes seis anos”, comentou Debbie com o Vida Extra, dizendo que, habitualmente, o casal fica entre duas a três semanas em cada país, para que possam aproveitar a viagem com calma e terem tempo de ver tudo aquilo que planearam. Michael acrescentou “Tudo o que aprendi ao longo da minha carreira em eventos, eu ponho em prática para planear as nossas viagens. E dividimos tarefas entre nós, para que tudo corra o melhor possível”.

Costumam voar com destino a Seattle uma vez por ano, na altura da Ação de Graças e Natal, para visitarem a família e amigos. Embora também comemorem a Páscoa, normalmente a família visita-os no país onde estiverem nessa altura do ano, para estarem todos juntos.

O que ver em cada lugar

Quando visitam um país gostam de fazer um pouco de tudo e aproveitar tudo aquilo que esse local tem para oferecer. Desde visitar museus e monumentos, a passear pelas ruas da cidade e ir à praia, não perdem a oportunidade de ficar a conhecer o melhor possível cada metrópole. Mas aquilo que não perdem opotunidade de fazer, em praticamente todos os países, é ir assistir a jogos — desde ténis a rugby, passando por badminton e críquete, mas maioritariamente futebol, devido à carreira de Michael na área e ao gosto que ambos partilham por eventos desportivos. Garantiram que não iam perder a última jornada do campeonato português de futebol e contaram que numa das suas vindas a Portugal já tinham assistido a um jogo do Benfica, do qual gostaram bastante.

Debbie e Michael acordaram, antes de darem a primeira entrevista, há cerca de quatro anos, que revelariam exatamente quanto despendem por dia em alojamento, para poderem elucidar as pessoas que querem tomar o mesmo rumo que eles. No entanto, decidiram, também, que não iriam revelar quanto dinheiro gastam em alimentação e transportes, com o objetivo de não desencorajarem aqueles que desejam fazer viagens grandes como o casal. “Há tantas razões para não fazer o que nós fazemos e há tantas pessoas a querer fazê-lo, que nós não queremos dar mais uma razão que leve alguém a desistir de viajar”, explicou Michael.

Gastam cerca de 80 euros por dia em alojamento, mas garantem que se pode fazer exatamente o mesmo que eles fazem por muito menos, por exemplo, se optarmos por ficar em hostels em vez de casas alugadas, e se escolhermos voos em companhias low cost ou autocarros e comboios em vez de aviões. Ainda assim, gostam de ficar alojados em Airbnb's porque têm oportunidade de conhecer os donos das casas, que lhes dão muitas dicas, e com os quais costumam criar amizade.

Além disso, afirmam também que o que gastam em alimentação não é muito, uma vez que optam por fazer a maioria das refeições em casa. “Temos amigos que fazem o mesmo que nós, mas ficam em hotéis , comem em restaurantes e alugam carros. Nós nunca poderíamos fazer isso. Temos um orçamento apertado, e é graças às habilidades que o Michael tem enquanto gestor que nós conseguimos fazer isto há tanto tempo”, comentou Debbie Campbell e Michael acrescentou que é possível ficar mais ou menos tempo a viajar pelo mundo se soubermos gerir o dinheiro e dermos primazia a ficar mais tempo em cada país, pois assegura que esse é um fator fundamental para poupar.

“O que nós fazemos mantém-nos jovens. Somos curiosos e somos aprendizes da vida. A nossa mente é aguçada porque estamos sempre a planear e a aprender. Andamos cerca de cinco ou seis quilómetros por dia, comemos bem, ou seja, temos uma boa vida!”, comentou Debbie. Despediram-se com um “obrigado” em português, com a melhor pronúncia que conseguiram e foram apanhar o comboio para aproveitarem mais um dia normal nas suas vidas de viajantes.

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