12h18 08 mai 19
Dar uma volta de moto a percorrer toda a costa portuguesa parece ser daquelas boas ideias que se fazem num saltinho e sem grandes gastos. É ir e já está. Mas talvez não seja bem assim. Há que ter vários fatores em conta, além da moto que se tem e do tempo de que se dispõe. Acaba por ser caro, se não prescindir de certos luxos, como dormir numa cama. E se decidir ir num dos meses de verão, o melhor é mesmo planificar e esquecer o estilo “Easy Rider”. É que se arrisca a não encontrar hotel ou parque de campismo que o receba, nem restaurante ‘dos bons’ que não se ria na sua cara por não ter feito reserva de véspera.
Tendo já resolvido a parte má, que venha a parte boa. Por isso esqueça o Google Maps e compre um mapa de papel. Rume até Moledo e aponte a moto para sul. A estrada irá minhocando perto do mar até Vila Real de Santo António, lá no sueste algarvio, no fim deste retângulo que conquistámos aos mouros e mantivemos independente dos espanhóis.
Eis o enigma. Todos os anos surgem praias secretas nas revistas. Como é possível que haja tanta praia secreta numa linha de costa que não parece assim tão grande? Eis o que a moto lhe dá. A liberdade de perceber o que é verdade. A costa portuguesa está efetivamente repleta de praias, prainhas, baías, covas e falésias que têm vindo aos poucos a ser descobertas.
Cada zona do país tem as suas características e o seu bairrismo de praia. Assim, Moledo é melhor que todas. Figueira, idem, Galápos melhor, Brejos obviamente, Odeceixe é que é, Amado bate tudo. Cacela Velha, oh, por favor.
É uma fantástica viagem para se fazer só ou com uma companhia noutra moto. Há que ter em conta que é preciso gostar muito de praia para se chegar ao fim. E ser uma alma curiosa. Ao fim de duas semanas é possível que tenha feito uns três mil quilómetros, se quiser de facto descobrir quais são as praias secretas de Portugal — se for esse o objetivo da viagem.
De Moledo ao ponto mais setentrional tudo muda. A temperatura da água, a paisagem e a flora. Mas entre o caos urbanístico de zonas mais turísticas, há praias espetaculares que sobreviveram à cobiça e por vezes acabam esmagadas ao serem descobertas por jornais estrangeiros quando as anunciam como “a praia mais bela da Europa” e de deserto passam a ser destino de caravanas e autocarros dos hotéis.
E depois há a relação dos portugueses com a praia. Somos uns cariocas que não vão ao ginásio. É uma relação muito intensa, pessoal, possessiva. A praia é minha. O lugar é meu. A tribo da areia é uma segunda família. Se o Fisco fizesse esta volta de moto ficava parvo com a quantidade de portugueses que têm casa de praia por essa costa fora. Eu fiquei...
Mapas
A melhor forma de gerir o dia de estrada e praia que tem pela frente é um misto analógico-digital. O mapa em papel é essencial para se ter uma ideia do todo e da viagem no geral, mas o smartphone permite ter acesso ao Google Maps, que mostra os mapas satélites que ‘chibam’ as praias e os caminhos e relatam toda a informação top secret. Também se consegue marcar dormidas antes de sair com recurso aos sites de booking. Claro que os mais afoitos podem dormir na natureza. As motos tem hoje entradas para carregar os smartphones. Ou ir para um parque de campismo, se houver lugar e tiver carta de campista.
Praias
E depois há as descobertas. Cada um ficará, ao fim de meia centena de praias, com duas ou três revelações, duas ou três praias que dirá serem as mais espetaculares de Portugal. Eis a minha experiência. Isso irá depender do dia, do tempo, do momento, do estado de espírito e do inesperado. Estaciona-se a moto, anda- -se mais um quilómetro a pé entre vacas, sobe-se uma duna a custo e a suar no fato pesado de motoqueiro com as botas reforçadas a enterrar na areia escaldante e, de repente, à nossa frente, o tal “fator uau!” que andamos na vida a procurar. Abre-se um rasgo no horizonte de areia branca e um marzão azul de onda efervescente num troar constante! Foi ali. Não vou dizer onde. Podia ter sido noutro local. Acho. Outra praia: Longueira (ou Brejo Largo), a norte de Almograve