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Campeonato Nacional de Bodysurf começa este sábado. Falámos com o tricampeão, diagnosticado com esclerose múltipla

Miguel ‘Migas’ Rocha foi diagnosticado com esclerose múltipla em 2016. Os médicos disseram-lhe que não podia voltar ao mar, mas isso não o impediu de se sagrar campeão nacional de bodysurf. Leia a reportagem “Há mar e mar. Há diagnóstico e voltar.”

'Migas' antes de entrar na água

Cláudia Monarca Almeida

20 de agosto de 2016. O pontão está cheio. Dezenas de pessoas ocupam as rochas. Umas de pé, outras sentadas, mas todas lutam contra a contraluz do final da tarde e têm os olhos fixos no mar, onde quatro homens disputam a derradeira prova do campeonato. Aqui decide-se o campeão nacional. No meio da multidão há um grupo que se destaca pelos cânticos ensaiados e tochas de fumo vermelho que empunham. Parecem uma claque de futebol, mas num desporto diferente. São os ‘Vagueirudos’ e estão na praia do Labrego, em Vagos, no distrito de Aveiro, para apoiar Miguel Rocha na conquista daquele que viria a ser o primeiro de três títulos nacionais de bodysurf, o desporto das carreirinhas que os seus praticantes dizem ser a “forma mais pura de surfar”.

Quando se recorda dessa prova, ‘Migas’ – como é conhecido pelos amigos – fala primeiro das pessoas antes de mencionar o “mar puxado” ou o cansaço de entrar novamente na água, depois de já ter disputado a fase de grupos, os oitavos, os quartos e as meias finais. A emoção rouba-lhe as palavras e até admite que ver tanta gente na praia criou nele uma “pressão” que lhe deu dores de barriga. “Mas depois de entrar na água esqueci e senti aquela força incrível”, recorda.

É isso que torna esse título especial, porque sempre que ia para as etapas nunca ia sozinho. Apesar de ser um desporto individual, acaba por não ser individual, porque havia ali um conjunto de pessoas que tornavam tudo ‘mais fácil’ e eu dizia muitas vezes que o título era para eles.”

A história desta etapa começou muito antes do dia em que o pontão encheu. Foram semanas de treinos diários e preocupações com a alimentação. Miguel sentia-se um “atleta de topo”. Afinal, estava a jogar em casa e queria ganhar. “Foi um ano que começou um bocado mal e acho que esse dia foi um ‘troféu’ para mostrar que conseguia, a mim mais do que aos outros.”

2016 foi uma montanha russa. Depois de se sagrar vice-campeão em 2015, estava entusiasmado e decidiu dedicar o inverno a preparar-se para tentar ser campeão. Surfou sempre que pode, mas na Vagueira é raro o mar deixar entrar surfistas entre dezembro e fevereiro. Fez treinos em piscina e no ginásio para estar em forma, mas, em janeiro, sentiu-se mal e foi para o hospital.

Depois de “montes de exames”, foi-lhe diagnosticado esclerose múltipla, uma doença crónica, inflamatória e degenerativa que afeta o sistema nervoso central e não tem cura. Estava prestes a completar 33 anos de idade. Os sintomas variam de doente para doente, mas Miguel poderia vir a ter dores, fadiga, perda da força muscular, alterações de humor, visão turva, perda de memória e problemas de concentração.

Os médicos disseram-me que eu não podia voltar à água, porque poderia acontecer-me alguma coisa e era perigoso. Acho que essa proibição ainda me deu mais vontade de voltar.”

Mas o regresso não foi imediato e até acertar a medicação teve várias recaídas. “Dois ou três meses” mais tarde, Miguel juntou-se aos colegas do campeonato, a quem chama a “pequena família”, numa viagem ao Tonel, em Sagres. “Fui mais pelo convívio. Não estava à espera de surfar”, conta. “Mas um dia o pessoal estava todo a chamar: ‘se acontecer alguma coisa estamos ali perto e ajudamos-te’. Senti-me completamente à vontade e entrei. A partir daí senti-me como me sentia antes. Não tive limitação nenhuma — nem nunca as tive dentro de água — e não parei mais.”

À primeira conquista, seguiram-se duas participações no europeu, uma no mundial e mais dois títulos nacionais nas épocas seguintes. A vitória em 2018 foi particularmente especial. Novamente na Vagueira, Migas voltou a subir ao pódio, mas desta vez com o sobrinho, Tiago Mesquita, que o acompanhou desde os primeiros campeonatos e nesse dia tornou-se o primeiro campeão nacional júnior.

Quando soube que ele ganhou estava na final dentro de água. O meu pai começou-me a dar sinal que ele tinha ganho e eu saí da água a correr para ir ter com ele. Já nem queria saber se ganhava, se perdia. Foi lindo!”, diz, com os olhos húmidos e a emoção a notar-se na voz.

Fala de detrás do balcão da loja de surf que abriu em 2018, na longa avenida que liga o parque de campismo à praia da Vagueira. Atrás dele, na prateleira do wax (cera usada nas pranchas), está uma fotografia tirada dentro de água com o sobrinho. À entrada, há uma tela — já desatualizada — colada ao vidro da montra, onde se lê “Miguel Rocha, Bicampeão Nacional”. Mas Miguel não é dado a grandes protagonismos e mexe nervosamente nos fios da camisola quando fala nos objetivos para a próxima época. “Este ano estou a começar em dezembro, por isso espero ter um bom resultado”, afirma, e explica que este ano o mar não tem estado tão bravo.

Miguel atrás do balcão da loja de surf

Miguel atrás do balcão da loja de surf

Cláudia Monarca Almeida

Migas é um dos oito mil casos de esclerose múltipla em Portugal e dos 2.5 milhões em todo o mundo. É também um atleta que corre, joga basquete, faz snowboard, surf, bodyboard e bodysurf. “O Miguel Rocha é sem dúvida um exemplo de resiliência e de espírito de superação, pois não baixou os braços perante o diagnóstico”, afirma João Marques, porta-voz da Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla (SPEM).

Miguel já deu cara à capa de um dos boletins trimestrais e a uma campanha da SPEM. Diz que quando estava no hospital, em janeiro de 2016, leu histórias de pessoas que tinham diagnósticos semelhantes ao dele, que o ajudaram. Por isso, decidiu fazer o mesmo. “Há pessoas que recebem o diagnóstico e não sabem o que hão de fazer. É bom a pessoa dar o conselho e dizer ‘tem calma, isto não é o fim’.”

Nota: o Campeonato Nacional de Bodysurf arranca este sábado, em Peniche. Veja o calendário completo AQUI.

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