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10 cartas de amor inspiradoras — e que fizeram história

Embora os tempos agora não estejam para cartas, nunca é tarde para recordar as melhores. Especialmente com o São Valentim tão perto

O Dia dos Namorados está mesmo a bater à porta e se para muitos é um dia com pouco significado, para outros é mais uma oportunidade para dar asas ao romantismo. Bem sabemos que o tempo das cartas de amor, escritas à mão e enviadas pelo correio, já lá vai, mas talvez por isso não seja fácil encontrar um presente tão romântico quanto este. A jornalista Clara Ferreira Alves escreveu recentemente um artigo sobre elas, que pode ser lido AQUI. E começa de forma irresistível, ao lembrar que José Saramago terá dito que nunca uma lágrima molhará um e-mail.

Abaixo deixamos alguns exemplos de cartas que fizeram história, escritas por figuras também elas históricas. Inspire-se:

1. Hemingway para Dietrich

Romancista norte-americano, vencedor de um prémio Nobel da Literatura (em 1954), demonstrou um lado vulnerável nas cartas escritas à atriz alemã Marlene Dietrich, que conheceu a bordo de um cruzeiro entre Paris e Nova Iorque.

O romancista escreveu a Dietrich cerca de 30 cartas entre 1949 e 1959. Numa delas é possível ler-se: “Eu não sei descrever a forma como sempre que pus os meus braços à tua volta senti que estava em casa”. Ao contrário do que possa parecer, os dois não tiveram nenhuma relação amorosa, ainda que a afetividade mútua fosse clara.

2. Napoleão para Joséphine

Nas cartas escritas à mulher, Joséphine, Napoleão Bonaparte, o líder militar, revela uma vulnerabilidade que não se refletiu na abordagem escolhida para expandir o império francês.

“Desde que te deixei, tenho estado constantemente deprimido. A minha felicidade é estar perto de ti. Incessantemente revivo nas minhas memórias as tuas carícias, as tuas lágrimas, a tua carinhosa gentileza”, escreveu Napoleão Bonaparte, enquanto comandava as tropas francesas perto de Itália. Esta carta é de julho de 1796 e continua assim: “Os encantos da incomparável Joséphine acendem continuamente uma chama ardente e brilhante no meu coração. Quando, livre de toda a gentileza, de todo o cuidado de assédio, poderei passar todo o meu tempo contigo, tendo apenas de te amar, e pensar apenas na felicidade de o dizer, e de te o provar?”.

3. Kahlo para Rivera

As mulheres também escrevem cartas de amor. Durante 27 anos de relacionamento, a pintora Frida Kahlo e o marido Diego Rivera trocaram diversas palavras escritas e apaixonadas. Numa das cartas publicada no livro “O Diário de Frida Kahlo: Um Autorretrato Íntimo”, a pintora descreve a profunda intimidade que partilhava com Rivera. “Nada se compara com as tuas mãos, com os teus olhos verde-ouro. O meu corpo está repleto de ti. Tu és o espelho da noite”, descreveu Frida.

Frida Kahlo, As Suas Fotografias no Centro Português de Fotografia

Frida Kahlo, As Suas Fotografias no Centro Português de Fotografia

Divulgação

4. O'Keeffe para Stieglitz

Cerca de cinco mil cartas de amor trocadas ao longo de 30 anos. Foi assim que a pintora Georgia O’Keeffe celebrou a história de amor que manteve com Alfred Stieglitz. As cartas mostram um lado sedutor da artista.

Querido, o meu corpo simplesmente está louco por te desejar. Se não me visitares amanhã não sei como poderei esperar por ti. Pergunto-me se o teu corpo deseja o meu, da forma como o meu te deseja (...)”, escreveu a pintora.

5. Beethoven para... o “amor imortal”

A identidade do “Amor Imortal” de Beethoven, para quem o compositor e pianista escreveu várias cartas em 1812, permanece desconhecida. No entanto, os textos revelam um grande proximidade.

(...) Continua a amar-me. Não julgues o coração do teu mais fiel amado. Sempre teu. Sempre minha. Sempre nosso”, pediu Beethoven.

6. Bush para Bush

Em 1942 ainda decorria a Segunda Guerra Mundial, mas o clima de tensão não impediu George H. Bush, hoje conhecido por Bush pai e recentemente falecido, antigo presidente americano, de escrever uma das cartas de amor mais românticas de todos os tempos à namorada Barbara Pierce, com quem depois casou (passou por isso a Barbara Bush).

Esta devia ser uma carta fácil de escrever — as palavras deviam sair facilmente e devia ser simples dizer-te o quão desesperadamente feliz fiquei quando abri a carta que anunciava o nosso noivado, mas não consigo dizer tudo o que quero numa carta. Eu amo-te, minha preciosa, com todo o meu coração, e saber que tu me amas significa a minha vida”, é possível ler na carta de George para Bárbara. “Quantas vezes pensei na incomensurável alegria que teremos um dia. No quão sortudos serão os nossos filhos por ter uma mãe como tu”. Um deles viria a ser também Presidente dos Estados Unidos da América. De Bush para Bush.

Jason Reed / Lusa

7. Ronald para Nancy

Outro antigo político norte-americano que surpreendeu ao revelar um lado mais romântico foi Ronald Reagan. Em 1972, antes de celebrar 20 anos de casamento, Ronald escreveu o seguinte à mulher, Nancy:

O mais importante é não querer passar os próximos 20 anos longe de ti, ou os próximos 40, ou quantos mais existirem. Habituei-me a ser feliz e amo-te mesmo muito”.

8. Wilde para Douglas

As cartas também não são um exclusivo do amor entre um homem e uma mulher. Em junho de 1891, o poeta e dramaturgo Oscar Wilde conheceu Lord Alfred “Bosie” Douglas, um poeta, de 21 anos, por quem se apaixonou. No entanto, a relação foi muitas vezes ridicularizada, dada a época em que se apaixonaram. Essa marca é visível nas palavras que trocavam.

Todos estão furiosos comigo por ter voltado para ti, mas eles não nos entendem. Sinto que apenas contigo consigo fazer qualquer coisa. Faz-me refazer a minha vida arruinada, e então a nossa amizade e amor terão um significado diferente para o mundo. Gostaria que quando nos tivéssemos conhecido não nós tivéssemos separado. Há agora um tão grande abismo de espaço e terra entre nós. Mas nós amamo-nos”, explica Oscar numa das cartas.

9. Garrett para Montufar Barreiros

Numa lista que fala de amor não podia faltar um cheiro a Portugal, país de poetas. O final da primeira metade do século XIX marca o encontro do poeta português Almeida Garret com Rosa Montufar Infante, Viscondessa da Luz e esposa do oficial do exército Joaquim António Vélez Barreiros. Numa das cartas enviadas pelo escritor à sua amada, lê-se:

Recebi a tua adorada [carta] de 28. Estás menos mal comigo: ainda bem! Oxalá que amanhã ou depois não me venham outros, por que tenho reminiscência de que outras cartas muito feias te escrevi neste intervalo, quando me tomava a ânsia e o terror de te perder, de te ver demorar muito a nossa separação.”

As cartas só foram reveladas em 1954, exatamente 100 anos após a morte do dramaturgo. Um silêncio de 100 anos que se explica pelo moralismo vigente e que foi definitivamente revelado por Sérgio Nazar David, estudioso da obra garrettiana, que publicou um livro na Quasi (editora entretanto extinta), em 2008. Chama-se “Cartas de Amor à Viscondessa da Luz” e mostra que o amor, ainda que proibido, foi, literalmente, correspondido.

Estátua de Almeida Garrett na Avenida da Liberdade em Lisboa

Estátua de Almeida Garrett na Avenida da Liberdade em Lisboa

Luís Barra

10. Alcoforado para Chamilly

“As Cartas Portuguesas” de Mariana Alcoforado, uma freira nascida em Beja, dirigiam-se a Noel Bouton de Chamilly, conde de Saint-Léger, oficial francês que lutou em solo português. O casal apaixonou-se, mas quando o romance foi descoberto, Bouton saiu de Portugal e deixou a promessa de que voltaria por Mariana, algo que nunca aconteceu. Na ausência do oficial francês, a freira escreveu cinco cartas de amor que foram publicadas em 1669, em França.

Como é possível que a lembrança de momentos tão belos se tenha tornado tão cruel? E que, contra a sua natureza, sirva agora só para me torturar o coração?”, lamentou Mariana Alcoforado na primeira carta.

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