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“Se perguntar o que é o amor, a ciência não saberá responder.” Entrevista a Carlos Fiolhais

Dá aulas há 40 anos. Escreveu 60 livros e 170 artigos científicos. O seu domínio é o do discurso, da física teórica, da história da física. E o da comunicação, porque um mundo sem cultura científica é um mundo condenado à ignorância. Conversa com um homem que pensa, e que, por isso, não foge à emoção

Rui Duarte Silva

Vem a correr, pensa a correr. Vive a correr. Explica em dez segundos como Foulcault demonstrou que o pêndulo indica a rotação da Terra. Encaixa a alusão a Umberto Eco contando que tem uma contrassenha para entrar na Biblioteca Joanina, de que foi diretor durante sete anos — “os melhores da minha vida”. Leva-nos pelos corredores do Departamento de Física da Universidade de Coimbra, que conhece como a palma da mão, servindo de anfitrião no espaço onde leciona há 40 anos, falando da exposição sobre Richard Feynmann, Prémio Nobel em 1965, um físico que se apaixonou três vezes, aprendeu a pintar e a tocar o bongo. Um pouco como o próprio Carlos Fiolhais, o físico teó­rico que sempre escreveu livros — tem mais de 60 publicados —, que há três décadas dirige a coleção Ciência Aberta da Gradiva e há uma criou o Rómulo — Centro Ciência Viva, uma bolha de cultura científica para todos dentro da Academia. Que até pintou na adolescência, enquanto descobria os segredos que só os livros lhe poderiam ensinar.

Nessa manhã de temporal, uma turma do 4º ano de uma escola de Cantanhede estava a concluir uma semana passada neste centro, cuja biblioteca de 40 mil volumes, todos ligados à ciência, é um dos seus maiores orgulhos. Ele próprio trazia livros seus, pois todos os dias doa alguns volumes. “Vou trazendo-os aos poucos, porque é aqui que vão ficar”, comentou. Dar é coisa muito dele, dar o que recebeu, nunca dizer que não. Nascido em Lisboa, em 1956, adotou Coimbra. Ali se formou e dali partiu para um doutoramento em Frankfurt, na Universidade Goethe. Já ganhou vários prémios — o último dos quais o Ciência Viva, em 2017. Investigou a Física da Matéria Condensada e a História da Ciência. Tem 170 artigos científicos publicados, e um deles, com 13 mil citações, tornou-o no autor mais citado em Portugal.

A conversa decorreu no seu exíguo gabinete, e teve a ordem que um físico costuma dar às coisas. A mesma que o faz, constantemente, confrontar a imaginação com a realidade, traduzi-la em leis universais, clamar por uma racionalidade que está a faltar ao mundo. E a mesma que, por vezes, o faz verter algumas lágrimas, porque antes dele houve outros, os seus pais, que o geraram; e todo o edifício do que somos vai ter sempre àquele lugar.

Há bocado disse sobre Richard Feynmann: “Imagine um físico a escrever cartas à mulher morta.” Como se a irracionalidade não fosse aceitável num físico. Porquê?

Todos temos qualquer coisa de irracional. Mas os físicos, os cientistas em geral, são treinados para reduzir a margem de irracionalidade. E se alguma certeza temos é que não se pode comunicar com os mortos. Há uma explicação para a sua pergunta: Feynmann estava num estado emocional perturbado, tinha uma depressão. Casara-se com uma mulher doente e o amor acabou logo, estava traumatizado. Então tentou abstrair-se do mundo físico e escrever o que não conseguiu dizer à mulher em vida. Não é que isto seja estranho, mas não é comum um cientista expor-se dessa maneira.

Que perca a cabeça?

Ele guardou a carta, fechada, numa gaveta. A filha encontrou-a e publicou-a postumamente, junto a toda a correspondência. Também ficou surpreendida.

Um físico terá sempre os pés na terra, é isso?

Ninguém tira os pés da terra, a nossa imaginação é que o faz. E a imaginação é uma ferramenta poderosa dos cientistas, ainda que sempre com alguns limites, porque a nossa vida é a vida no planeta. Os nossos genes resultaram de um processo de evolução neste planeta —somos daqui. Um físico faz quadros teóricos do mundo, imagina como é a natureza, muitas vezes sem a ver. A questão é se a natureza está de acordo com a nossa imaginação, ou melhor, se conseguimos ter a imaginação da natureza. E só os grandes génios o conseguem, como Einstein. Este ano celebramos o centenário da observação, em São Tomé e Príncipe, do eclipse que provou a validade da sua Teoria da Relatividade Geral. Esta tinha previsto, anos antes, que os raios de luz se curvavam ao passar perto do sol, o que era difícil de observar. Foi preciso esperar pelo fim da I Guerra para que uma expedição britânica — não alemã — comprovasse a teoria. Mas ele sabia que estava certo com base num critério que as pessoas não atribuem aos cientistas: a beleza. A teoria era bela e por isso estava certa.

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