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Vida Extra

Conheça as assistentes domésticas que estão a tomar as nossas casas

Acordar e ter uma assistente para responder às nossas perguntas ou conseguir dar ordens aos objetos lá de casa já não é coisa de ficção científica. Chegámos ao futuro

Bom dia Google, liga a máquina do café.” Tomo o pequeno-almoço daqui a 10 minutos. “Alexa, lembra-me de comprar pão.” Acabou-se ontem à noite. “Cortana, como está o tempo?” Será que preciso do chapéu de chuva? “Siri, toca música rock.” Estou a precisar da energia extra. “Mycroft, como está o trânsito até ao meu trabalho?” Não me posso atrasar.

Imagine acordar e ter uma assistente invisível que responde a todas as suas perguntas e obedece a tudo o que lhe disser. Parece um cenário futurista e distante, mas já não é. O futuro já chegou e está a entrar nas nossas casas a uma velocidade tão vertiginosa que, às vezes, o presente já quase parece o passado. Colunas que falam connosco — ainda que, neste momento, não falem português — e objetos que obedecem à nossa voz já não existem só no imaginário da ficção científica e começam a ser a realidade de muitas famílias.

Nos Estados Unidos da América, país nativo destas assistentes, existiam, em fevereiro de 2018, pelo menos 18,7 milhões de casas conectadas com uma coluna inteligente. Segundo a comScore (empresa de análise de dados focada na internet e media), este número equivalia a 20 por cento das casas norte-americanas com wi-fi (internet sem fios) e representava um aumento acentuado (12%) em menos de um ano, desde que a primeira estimativa foi realizada em junho de 2017.

No entanto, tudo aponta para que esta tecnologia tenha crescido ainda mais rapidamente nos últimos meses. A Amazon diz que o “número de clientes a interagir diariamente com a Alexa” [a assistente pessoal que desenvolve] duplicou em 2018. No início do ano, o site de tecnologia CNet avançou que foram vendidos pelo menos 100 milhões de dispositivos com este sistema incorporado durante a última época festiva. E esta tendência não se cingiu aos EUA. A Alexa esteve também no sapatinho de muitas famílias na Europa, onde, no dia depois do Natal, o excesso de conexões simultâneas levou a falhas do sistema.

As assistentes virtuais inteligentes são a nova tendência no mundo da tecnologia. Desenvolvidas para ajudar os utilizadores a completar tarefas online, são serviços baseados na cloud — esse lugar mítico onde está a informação e que para nós não tem concretização física. Se até agora já residiam nos nossos telemóveis (pelo menos naqueles que têm acesso à internet), agora estão a saltar dos nossos bolsos. São uma voz omnipresente espalhada por toda a casa, que habita nos mais variados aparelhos digitais, e que pode ser controlada pela nossa voz a partir de uma coluna ou de um pequeno ecrã.

Sempre à escuta, basta pronunciar a palavra mágica — que neste caso é o nome da assistente, seja Alexa, Google, Siri ou outra — e estará ativa. A partir daí basta dizer o que precisa e ela estará pronta para ajudar nas mais variadas tarefas, desde as básicas, como reproduzir música, receber chamadas e enviar mensagens, a desafios mais complexos (como responder verbalmente a qualquer pergunta que faria a um motor de busca). Está a cozinhar e precisa de controlar o tempo que o jantar está no forno? Peça-lhe para definir um alarme. Acabaram-se os ovos? Mande adicionar à lista de compras e peça-lhe que o aviso chegue antes da próxima ida ao supermercado, no fim de semana. A sua panela estragou-se e precisa de uma nova? Diga-lhe para fazer uma encomenda. Se tiver mais do que uma coluna inteligente instalada em casa, pode até usá-las como interlocutor para avisar que o jantar está na mesa.

A sua assistente pode ‘aprender’ novas capacidades se instalar aplicações desenvolvidas por terceiros. Tradutores, jogos, localizadores do telemóvel, aplicações que cantam e contam histórias de embalar a crianças, ou treinadores que o guiam por uma rotina de exercício físico são alguns exemplos.

Pode ainda emparelhar outros dispositivos smart (ou seja, aqueles que podem ligar-se à internet) e automatizar a sua casa. Imagine poder dizer à televisão para mudar de canal, ao candeeiro para se desligar, aos estores para se abrirem, à porta da rua para se trancar, à lareira para se acender, ao ar de condicionado para arrefecer a casa para uma certa temperatura ou aos irrigadores do jardim para regarem. Tudo isto é possível se estes aparelhos estiverem conectados com a sua assistente. Precisa apenas de proferir a ordem junto da coluna inteligente e o sistema concretiza o seu pedido. Pode ainda usar os modos automáticos e programar os seus dispositivos para se ligarem e desligarem sozinhos às horas que definir. E se está já a pensar que os aparelhos que tem lá em casa não têm a tecnologia necessária para poderem ser ligados a estes sistemas não se preocupe. É possível, através de tomadas elétricas inteligentes — que controlam a passagem de energia — tornar ‘inteligentes’ os seus aparelhos antigos e passar a controlar quando é que eles funcionam. As colunas abrem assim a porta às ‘casas inteligentes’.

Alexa (da Amazon)

Neste momento já existem várias assistentes no mercado. A Alexa — que é desenvolvida pela Amazon — é a mais popular (com uma quota de mercado de 62% em 2017, segundo a Statistica) e a mais compatível (podendo ser emparelhada com mais 20 mil dispositivos tanto da própria marca como de outras). Em termos de colunas inteligentes, a Alexa ganha forma na Amazon Echo (colunas cilíndricas pretas que custam 99,99 dólares, ou 87 euros), Amazon Echo Dot (a versão mini — €26), Amazon Echo Plus (a versão maior — €130), Amazon Echo Show (que essencialmente é uma coluna que também tem um ecrã — €200) e Amazon Echo Spot (versão mini do Echo Show — €113). A Echo e a Echo Plus são as únicas colunas inteligentes que são vendidas diretamente pela marca para Portugal. Existe ainda uma série de dispositivos desenvolvidos por terceiros que incorporam a Alexa, como o Garmin Speak (€199), que é um GPS e uma assistente para ter no carro.

Google Assistant (da Google)

O maior concorrente é o Google Assistant (25% do mercado). Tal como a marca líder, o Google fornece três tamanhos de colunas: a Google Home (€149), Google Home Mini (€59) e Google Home Max (€399). Existe também a Google Home Hub, que inclui um ecrã e, na Europa, está apenas disponível para o Reino Unido por €121.

Cortana (da Microsoft)

A Microsoft também entrou na corrida com a sua assistente, a Cortana, mas não criou uma coluna própria. Em vez disso, desenvolveu em parceria a Karman/Kardon Invoke Cortana (€42), uma coluna com a tecnologia da Karman/Kordan que aposta claramente na qualidade de som. Como é mais recente no mercado, tem ainda alguns problemas de compatibilidade com outras marcas, poucas aplicações e menos protocolos com plataformas de música (que são necessárias para ir buscar a música que a coluna reproduz).

Siri (da Apple)

Apple

Destacando-se também pela qualidade do som, o HomePod (€305) da Apple é a concretização corpórea da Siri no universo das colunas inteligentes. Apesar de se estar a aproximar das funcionalidades oferecidas pelas competidoras, é apenas compatível com dispositivos que suportem o AirPlay or AirPlay 2 (sistema de transmissão de ficheiros entre dispositivos da Apple), o que reduz o leque de aparelhos que podem ser emparelhados.

Mycroft (a "assistente independente")

Mycroft

Por fim, existe também a Mycroft, que se apresenta como o “assistente de voz open source”, ou seja, a única assistente que tem disponível publicamente o código por trás da sua tecnologia. Prometendo “manter a privacidade e independência da informação” dos utilizadores, a empresa — que partilha o nome com a assistente que desenvolve — promove-se como uma alternativa às grandes marcas e permite que qualquer um possa contribuir para desenvolver novas funções e aperfeiçoar as já existentes. A primeira coluna inteligente, Mycroft Mark 1 (€156), chegou ao mercado em 2017 e foi desenvolvida através de financiamento colaborativo (crowdfunding). O segundo modelo, o ‘sorridente’ Mark 2 que está na página 93, tem lançamento marcado para a primeira metade deste ano e deverá custar €174.

Um futuro que chega rápido e com muitos desafios

Comparativamente, um estudo de abril de 2018 desenvolvido pela agência de marketing digital Stone Temple, defende que a Google Assistant ainda é a que “responde a mais perguntas e tem a maior percentagem de respostas completas e corretas”, seguida da Cortana. No entanto, e ainda que todas se tenham aproximado da Google, a Alexa foi a assistente que mais evoluiu entre 2017 e 2018.

No entanto, o estudo — que tem menos de um ano — pode já estar desatualizado com todas as atualizações que as assistentes tiveram no último ano. Por causa da velocidade “absolutamente alucinante” a que esta tecnologia está a evoluir, as novidades de hoje sobre esta realidade futurística estão rapidamente a tornar-se as notícias desatualizadas de ontem. O futuro ainda mal chegou e já está a ser ultrapassado.

“Desde 2014, esta área toda está a crescer loucamente, no sentido de eu leio artigos agora, mas se calhar daqui a um mês o que era o estado da arte já não é o estado da arte”, afirma Luísa Coheur. Para a professora auxiliar do Instituto Superior Técnico e investigadora na área do processamento de língua natural (que estuda os problemas da compreensão automática da linguagem humana por computadores), os sistemas como a Siri, a Cortana e a Alexa são os mais desenvolvidas. “Obviamente que são as grandes companhias que neste momento estão a dar as cartas todas.”

Quanto ao futuro, acredita que estes sistemas poderão vir a ser tão banais como os telemóveis e computadores. “Acho que é possível que daqui a uns bons anos todos nós tenhamos o nosso assistente virtual.” Em tudo o que forem “tarefas específicas”, onde a “informação está organizada”, será possível desenvolver sistemas especializados. Estes poderão ser guias de museu, ajudantes de estudo ou até assistentes que, não substituindo os médicos, nos ajudam com informações e cálculos, como quantos gramas de um medicamento devem dar a um paciente.

No entanto, Luísa acredita que, pelo menos nos "próximos tempos", estas assistentes vão continuar a falhar como companheiros. "A nossa linguagem, a maneira como comunicamos, é muito complexa", defende. Por isso, afirma que estes sistemas não têm ainda a capacidade de compreender certos aspetos da linguagem como o humor e o sarcasmo e, por isso, falham a manter uma conversa coerente sem mostrarem que não são pessoas.

O rápido desenvolvimento destes sistemas pode vir a ultrapassar estas limitações, mas surge a par de novos desafios para a nossa segurança, privacidade e proteção dos nossos dados pessoais. Os primeiros problemas com estas colunas foram reportados no ano passado.

Em Maio, uma utilizadora de Portland (EUA) descobriu que a sua coluna Echo gravou uma conversa privada com o marido e enviou o ficheiro para um contacto da sua lista telefónica sem a sua permissão. A mulher percebeu o que tinha acontecido quando recebeu uma mensagem do contacto a avisá-la para desligar a coluna. A Amazon confirmou o caso e classificou-o como uma "ocorrência extremamente rara". Segundo a empresa, a Alexa terá interpretado a conversa de fundo como uma série de comandos.

Em Dezembro, a revista alemã C't avançou que a Amazon enviou 1700 gravações de um estranho um utilizador na Alemanha que tinha pedido acesso aos seus próprios ficheiros. O homem alemão terá notificado a empresa, mas não terá obtido resposta. A Amazon assumiu o erro depois de o caso chegar à comunicação social e disse tratar-se de "um caso lamentável de erro humano e um incidente isolado".

"Vamos ver coisas horríveis nos próximos anos", afirma Luísa Coheur. "Para o bem ou para o mal, termos acesso a estes dados e saber encontrar padrões vai pôr a descoberto muitas coisas -- algumas boas, algumas más, algumas vão ser intrusivas, algumas vão ser simplesmente úteis à sociedade." E acrescenta: "Com o crescimento da IA [Inteligência Artificial], vai ser preciso começar a legislar coisas que até agora nem valia a pena pensar porque não estávamos lá. Agora começamos a estar".