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Vida Extra

Vamos falar de trabalho: Tempo é mesmo dinheiro?

Quanto vale uma hora do seu trabalho? Na Europa, a resposta depende das coordenadas geográficas. Mas nem sempre trabalhar mais é sinónimo de mais dinheiro

CLÁUDIA MONARCA ALMEIDA (TEXTO) LILIANA GONÇALVES (INFOGRAFIA)

Tempo é dinheiro. Cada hora no seu posto de trabalho pode ser convertida em euros. São notas e moedas que se acumulam no mealheiro imaginário que é o Produto Interno Bruto (PIB) e que representam a riqueza que um país consegue criar. No entanto, mais tempo nem sempre significa mais dinheiro. Às vezes, menos pode ser mais. Os seus 60 minutos não valem o mesmo em todo o lado, e o país onde se encontra é determinante na riqueza que está a produzir a cada hora.

Dinheiro também é geografia. Na Europa, as realidades laborais são muito distintas. Se em alguns países a população trabalha em média quase 40 horas semanais, noutros trabalha quase metade. Se em alguns países se produz mais de €80/hora, em muitos outros não se produz nem um quarto disso.

No entanto, não são os países que mais trabalham os que mais produzem. Produtividade e horas trabalhadas nem sempre rimam e, estatisticamente, parecem ser conceitos até bastante afastados. Uma hora de trabalho no Luxemburgo — destino histórico de muitos emigrantes portugueses — vale mais do que em qualquer outro país da Europa. No grão-ducado, em cada hora de trabalho produz-se em média €84,2. Segue-se Irlanda (€81,2/hora trabalhada), Dinamarca (€71,2), Suécia (€58), Holanda (€56,5), Alemanha (€54,6), França (€54), Finlândia (€53,9), Áustria (€52) e Reino Unido (€43,5). Estes dez países produzem individualmente mais riqueza numa hora do que a média da União Europeia.

Em contrapartida, oito deles são também os que menos trabalham por semana. A Alemanha, onde se trabalha em média 26,1 horas/semana, lidera a lista. O pódio fica completo com Dinamarca (27,1) e Holanda (27,6). O país mais produtivo — Luxemburgo — surge no quarto lugar (29,2). O top 10 completa-se com França (29,3), Suécia (30,9), Áustria (31), Finlândia (31,4), Bulgária (31,6) e Eslovénia (31,8).

No extremo oposto da produtividade, a Bulgária é o país que menos produz, com uma média de €8,9 por hora. Além disso, é uma exceção, pois é o único país que também está entre os que menos trabalham. No fim da tabela da produtividade constam ainda Roménia (€12,1/hora trabalhada), Polónia (€14,1), Hungria (€15,8), Letónia (€16,9), Croácia (€16,5), Lituânia (€16,9), Estónia (€19,8), República Checa (€20,1) e Eslováquia (€20,9).

Inversamente, e com a exceção da Bulgária, os países que menos produzem estão entre os 14 que mais horas trabalham. A Polónia, terceiro entre os menos produtivos, é o país onde mais se trabalha (39 horas/semana). Em segundo lugar surge Grécia (38,8), seguindo-se Malta (37,9), Letónia (36), Estónia (35,7), Lituânia (35,5), Croácia (35), Roménia (34,5), Chipre (34,4), República Checa (34,4), Hungria (33,5), Irlanda (33,4), Itália (33,1) e Eslováquia (33).

Portugal, com uma média de 35,8, é o quinto país da União Europeia que mais horas trabalha em cada semana. É também o 12º país onde a hora trabalhada produz menos riqueza (€21,8/hora).

Se a geografia influencia a relação do tempo com o dinheiro, são as características da localização geográfica que ditam as variações. “A questão fundamental é que a produtividade depende dos sectores onde os trabalhadores desenvolvem a sua atividade, isto porque aquilo que produzem pode ter mais ou menos valor monetário”, explica Paulo Marques, professor universitário do Departamento de Economia Política do ISCTE-IUL. “Por exemplo, um trabalhador da Autoeuropa produz bens que têm um elevado valor monetário, pelo que é normal que o que produz por hora seja muito superior, por exemplo, a um trabalhador agrícola”, acrescenta.

Os diferentes sectores têm grandes diferenças de produtividade. No caso português, os trabalhadores da agricultura, silvicultura e pesca são os que têm menor produtividade aparente. De acordo com o Pordata, cada trabalhador produz anualmente cerca de €13.278,14. Já alguém que trabalhe na produção e distribuição de eletricidade — o sector mais produtivo — produz em média €554.506,96 por ano. Assim, os sectores predominantes num país influenciam em grande escala a média da produtividade nacional. Mas não são o único fator.

A tecnologia também é determinante. “É normal que os países mais avançados tecnologicamente sejam simultaneamente aqueles que conseguem ter uma produtividade maior, mesmo que trabalhem menos horas”, afirma Paulo Marques. Para o professor universitário, “a estratégia mais adequada para aumentar a produtividade” passa por uma “modernização e valorização do tecido produtivo”, especialmente nos “sectores em que o valor acrescentando seja maior”. “Essa modernização exige um crescimento do investimento público e privado.”

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