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Já conhece a “MathGurl”? Entrevista à jovem youtuber portuguesa que faz da matemática uma brincadeira muito séria

A divertida matemática de Inês multiplica seguidores com contas à moda do YouTube

D.R.

Nascida na cidade-berço há 20 anos, Inês Guimarães atracou no Porto para frequentar a licenciatura de Matemática, mas foram os divertidos vídeos, com desconcertantes desafios de lógica e divulgação científica, que a levaram à conquista do YouTube, até encontrar o público brasileiro. A aventura começou em 2015 e, desde então, o canal “MathGurl” soma mais de 67 mil subscritores e 1,5 milhões de visualizações.

A história de sucesso desta jovem podia dar num livro. E, no final da equação, resultou mesmo, com a publicação de “Desafios Matemáticos que te vão Enlouquecer” (2018). Os números alcançados falam por si, mas, em entrevista ao Vida Extra, a autointitulada “gaja com a inteligência de um abacate que fala de matemática” recorre às palavras para desvendar a fórmula descontraída para um sucesso inesperado. Quase tanto como o “paradoxo da melancia” que trocou por miúdos.

Está pronto para a lição? Só é preciso bom-humor, porque, contas feitas, aprender é tão fácil como acreditar no Pai Natal... e Inês prova que é possível.

D.R.

Quem é esta "gaja com a inteligência de um abacate que fala de matemática"? Quem é a Inês, por detrás da "MathGurl"?

Tenho um perfil muito mais recatado em comparação com os vídeos, em que sou mais extrovertida do que na realidade. Não consigo manter aquela energia durante o dia todo [risos], mas ainda assim não se trata de uma personagem. Apenas realço o meu lado mais divertido. No dia-a-dia, passo a maior parte do tempo a estudar sozinha ou a ter aulas.

Estamos perante uma aluna marrona?

Sou um bocadinho. No ensino secundário não era tanto, porque achava muito fácil, mas, agora, na faculdade, tenho de me esforçar mesmo para conseguir chegar a algum lado. O curso é bastante exigente, trabalhoso e gosto de ter tudo sob controlo.

Com que idade é que surgiu a paixão pela matemática? O que fez nascer este gosto?

Comecei a dedicar-me mais a partir do sétimo ano [do terceiro ciclo], quando tive um professor mais exigente. O papel dele era fabricar excelentes alunos e dizia-nos sempre que tínhamos de trabalhar muito. Foi aí que comecei a estudar mais e, quanto mais estudava, mais gostava da disciplina. A partir do ano seguinte, comecei a treinar para as Olímpiadas de Matemática, onde os problemas são bastante diferentes daqueles que constam nos manuais. Não são tão óbvios e técnicos, é preciso ter criatividade para resolvê-los. Foi aí que me apercebi que gostava imenso dessa vertente dos desafios.

D.R.

O que levou à criação do canal no YouTube?

Estava no início do 12.º ano. Sempre gostei muito de divulgação científica e pensei que podia ser uma boa ideia transmitir a minha visão da matemática às pessoas, fazendo-as entender que pode ser algo divertido, que não tem de ser enfadonho. Por outro lado, eu própria estava numa fase em que estava desiludida com a matemática teórica, mas gostava tanto que simplesmente não conseguia abandonar. Então decidi fazer matemática de uma forma diferente, para toda a gente, para me sentir útil de alguma forma.

Porque é que as pessoas ainda se assustam tanto com a matemática? O que falha no ensino da disciplina?

Em primeiro lugar, convém dizer que é uma área muito abstrata e que lida com conceitos difíceis de visualizar, que só existem na nossa cabeça e não são palpáveis. Isso pode causar alguma estranheza e se, em determinado momento, perdermos o fio à meada ficamos à deriva. É conhecimento construído sobre mais conhecimento e é preciso ter boas bases. A sociedade perpetua a ideia de que a matemática é horrível e uma dor de cabeça. Acho que seria benéfico explorar o lado mais criativo da disciplina nas escolas, porque toda a gente gosta de se sentir espicaçada. Toda a gente gosta de pensar e de um bom puzzle.

A sociedade olha para os matemáticos como "nerds"?

A reação das pessoas quando digo que estou a tirar o curso de Matemática são sempre as mesmas: "hey, matemáaaaatica, Jesus, que seca" ou "ui, tu nem me venhas falar de matemática". As pessoas acham normal e quase têm orgulho em dizer que não gostam. Ao mesmo tempo, acontece-me muitas vezes alguém vir dizer, com todo o orgulho, que o filho tirou 87% no último teste, como se eu quisesse saber... [risos]

D.R.

De que forma é que a matemática e o pensamento lógico acabam por moldar a personalidade?

A matemática, para mim, é brincar com ideias e o mais engraçado é produzir muito a partir de pouco. É como estar num papel de detetive. Muita gente tem medo de dizer "não sei" e começa a inventar hipóteses. Quando falo tento ter a certeza de que estou a dizer algo fundamentado. Isso faz também com que consiga perceber melhor quando os argumentos de alguém são legítimos ou identificar situações em que uma pessoa está a tentar aldrabar.

Foi esse papel de detetive que serviu, num dos vídeos, para provar a existência do Pai Natal...

A ideia surgiu durante a quadra natalícia. Achei piada fazer uma série de proposições que parecem ser lógicas, que estão todas corretas, mas há ali uma subtileza, um passo em falso, que faz chegar a uma conclusão errada. Decidi aproveitar essa falácia para demonstrar que supostamente o Pai Natal existe. Embora o argumento pareça correto, está errado e o desafio era precisamente que as pessoas percebessem que passo errado é que eu cometi.

E em que consiste o paradoxo da melancia?

Um paradoxo é quando chegamos a um resultado contraintuitivo. A nossa intuição diz-nos que vamos chegar a um resultado de uma certa ordem, mas acaba por se verificar algo que não seria expectável. Parti do exemplo de uma melancia que tem inicialmente um quilo e 99% do peso é água. Se a deixarmos desidratar, alguma água evapora e passa a ter apenas 98%. O desafio que lancei no vídeo era calcular o peso da melancia após a desidratação. As pessoas são levadas a estimar que seja 900 e tal gramas. No entanto, se fizermos as contas, verifica-se que a melancia acaba por pesar apena meio quilo, apesar da diferença percentual de água ser só de 1%.

Alguma vez imaginou que o canal podia atingir tanta visibilidade? Porque, atualmente, conta com mais de 67 mil subscritores e mais de 1,5 milhões de visualizações.

Nunca me passou pela cabeça, nem nunca foi o meu objetivo. Começou como uma brincadeira inocente e sempre o fiz apenas por gosto, mas felizmente cresceu imenso.

E muito do público é brasileiro. Como se explica esse fenómeno?

Logo de início, houve um professor do Brasil que divulgou o meu canal e parece que, desde então, brasileiro foi puxando brasileiro. Além disso, está mais enraizado o hábito de utilizar o YouTube para divulgação científica.

D.R.

O sucesso da internet transbordou para o papel, com a publicação do livro "Desafios Matemáticos que te vão Enlouquecer". Porquê a aposta também neste formato?

A proposta surgiu por parte da editora quando eu tinha 18 anos e quando o meu canal ainda tinha pouco alcance. O objetivo era que o livro espelhasse a minha parte extrovertida, indo de encontro aos conteúdos dos vídeos. Penso que está escrito num registo muito bem-humorado e apresenta uma série de problemas para resolver, mas que utilizam situações do quotidiano. Tentei criar uma narrativa cativante e divertida, para não ser apenas um conjunto de desafios. Mesmo quem não entender muito de matemática pode desfrutar do livro.

Última pergunta, a contar para avaliação e aquela que realmente importa: alguma vez houve copianço ou uma cábula levada para um teste de Matemática?

Tento sempre ser honesta intelectualmente. Não, não, em Matemática não... Noutras disciplinas, pode ter havido uma troca de ideias.

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