Perfil

Vida Extra

Um jovem com 55 anos

A Porsche lançou a 8ª geração do lendário modelo 911. Fomos a Valência ver como era

Em 1963, quando o Porsche 911 foi lançado, o presidente norte-americano chamava-se John Kennedy. Ganhara as eleições prometendo que o espaço sideral ia ser a nova fronteira. Meses antes evitara a III Guerra Mundial durante a Crise dos Mísseis de Cuba. Em Berlim, à vista do famoso muro, empolgou a multidão, dizendo “eu também sou berlinense”. Cairia varado pelas balas em Dallas nesse mesmo ano, também marcado pelo desaparecimento do Papa João XXIII, obreiro do Vaticano II e da abertura da Igreja aos novos tempos. Também se haviam calado duas outras vozes: a da cantora Edith Piaf e a do escritor Aldous Huxley, que nos ensinara que o novo mundo podia ser tão admirável como inquietante. Inquietação essa que o filme de Hitchcock “Os Pássaros”, então estreado, de alguma forma expressava. Entretanto, no longínquo Vietname de que ainda pouco se falava, a guerra já matava 2500 pessoas por semana.

Passaram-se mais de 55 anos e o mundo mudou. Um outro presidente do EUA, não só não critica a construção de muros entre povos, como quer ele próprio construí-los. Nas cidades europeias o medo da guerra atómica desvaneceu-se, mas há quem tema atentados terroristas aleatórios levados a cabo por iluminados. E o Porsche 911? Também mudou mas sem renegar os seus valores. Aliás, basta pôr os dois carros lado a lado, o de 1963 e o agora lançado, para não haver dúvidas de que se trata da mesma família e não de uma mera coincidência de nomes.

Sucederam-se oito gerações ao longo das quais o fabricante alemão foi procurando acompanhar e nalguns casos antecipar a evolução tecnológica mas sem nunca desvirtuar a ideia inicial: um carro rápido, divertido de guiar mas ao mesmo tempo seguro e duradouro.

Meio século depois, o mesmo ar de família

Meio século depois, o mesmo ar de família

CB

Um carro lendário

É um modelo que entrou na lenda e que associamos de forma quase automática à marca. Imaginamos as beldades dos filmes de James Bond sentadas ao volante. Aliás, um entusiasta norte-americano, entrevistado num vídeo mostrado aos jornalistas por ocasião da apresentação europeia da 8ª geração, recordava a sua primeira impressão: ao seu lado, no trânsito, um carro com um ronco fabuloso, guiado por uma mulher lindíssima que “me levou a querer logo comprar um”.

Em Portugal tivemos o não menos lendário Américo Nunes, o Senhor dos Porsches que nos deixou em 2015 e que ao longo de 33 anos de carreira, sempre fiel à marca, amealhou nove títulos de campeão nacional. Carros semelhantes aos de série disputaram e venceram incontáveis corridas como o Rali de Monte Carlo de 1968 com dobradinha de Vic Elford/David Stone e Pauli Toivonen/M. Tiukkanen (este Pauli era o pai de Henri Toivonen, tragicamente desaparecido em 1986).

Um carro para as curvas, literalmente falando

Um carro para as curvas, literalmente falando

CB

Posto à prova em Valência

De tudo isto se falou na cidade espanhola de Valência onde, por estes dias, decorreu a apresentação europeia da 8ª geração do Porsche 911. Tal como o seu antepassado, o novo carro tem motor traseiro e porta bagagens dianteiro e as linhas gerais são claramente reconhecíveis. A diferença é que o carro de 1963 era todo em aço e o novo recorre bastante ao alumínio, aligeirando 12 kg relativamente à 7ª geração. O antepassado tinha um grande e estreito (pelos padrões actuais) volante de madeira, debitava 130 cavalos e ia dos zero aos 100 km/h em cerca de nove segundos.

Sinal dos tempos o novo Porsche 911 faz o mesmo em 3,5 segundos, ou não tivesse 450 cavalos (mais 30 que a versão anterior). Mas as preocupações ambientais impuseram a introdução de um filtro de partículas (sim, não são só os motores diesel a tê-los). Desempenho e segurança não são incompatíveis e, por isso, há sistemas de detecção de peões, bem como suspensão adaptável e, a última novidade tecnológica, o “wet mode”, ou seja uma optimização da aceleração, suspensão e travagem para pisos molhados e escorregadios.

Posso garantir ao estimado leitor que o dito “wet mode” faz, de facto, a diferença, como pude comprovar numa pista anexa ao circuito Ricardo Tormo nos arredores de Valência (o nome homenageia o bicampeão mundial de motociclismo que, tendo sobrevivido a um terrível acidente em 1984, viria a morrer em 1992 de doença prolongada). Descrevendo uma sucessão de curvas estreitas e fechadas, à imagem de uma pista de karting, a sensação foi que, uma vez seleccionada aquela função, o carro parecia curvar sobre carris. Igualmente num trajecto por estradinhas de montanha extremamente estreitas e sinuosas (ao ponto de não permitirem cruzamentos de viaturas nalguns pontos) foi possível verificar que esta manada de quase meio milhar de cavalos, não só não se tresmalha, como se move de forma suave e precisa desde que o cocheiro saiba minimamente o que está a fazer.

A opção por um motor V6 a gasolina de três litros e dupla sobrealimentação consagra a opção do fabricante em pôr termo às motorizações diesel, as quais, tendo chegado a equipar modelos como o Panamera ou o Macan, tiveram bastante expressão nas vendas, nomeadamente em Portugal. O preço do novo Porsche 911 vai dos € 151 mil (Carrera S Coupé) aos 185 (Targa GTS).

Posto de condução, com o comando da caixa automática e o ecrã de navegação em evidência

Posto de condução, com o comando da caixa automática e o ecrã de navegação em evidência

CB

Siga Vida Extra no Facebook e no Instagram.

A carregar...