Perfil

Vida Extra

Eduardo Barroso. “São sempre os outros. A ideia de morte não nos passa pela cabeça”

É o mais mediático cirurgião na área dos transplantes. O seu percurso acompanha a história do Serviço Nacional de Saúde do qual se acabou de reformar. Conversa de vida, à entrada dos 70 anos

Tiago Miranda

Tiago Miranda

Fotojornalista

Eduardo Barroso na casa em Lisboa onde vive com a mulher e até há pouco tempo com um dos dois filhos, Eduardo e Francisco

Tiago Miranda

Habituámo-nos a vê-lo na televisão como comentador desportivo, a defender o seu clube, o Sporting, paixão visceral, que o fez muitas vezes perder as estribeiras. É emotivo e polémico, que se exalta e diz o que tem a dizer sem papas na língua. Acabou de se reformar do Serviço Nacional de Saúde — depois de 45 anos intensamente dedicados à cirurgia e à direção dos serviços de Cirurgia Geral e Unidade de Transplantação e do Centro Hepato-Bilio-Pancreático e Transplantação do Hospital Curry Cabral, onde se tornou uma referência mundial nesta área. Os anos da Medicina, celebrados no livro “Sobreviver”, que acabou de lançar pela Matéria-Prima, são recordados em balanço e servem como fio condutor de uma conversa que durou uma tarde inteira em sua casa. Eduardo Barroso mostrou-se vulnerável. O momento é de passagem. Esta entrevista é atravessada por essa comoção.

Em julho do ano passado sofreu um enfarte do miocárdio e no final do livro revela o porquê da escolha do título “Sobreviver”. É assim que se vê agora, um sobrevivente?

Por acaso o título já estava escolhido antes do enfarte. Só trato de doentes graves, fazer sobreviver foi a minha missão durante 45 anos. Mas deixe-me perguntar-lhe: leu o livro?

Li.

E o que achou?

Gostei sobretudo das histórias com doentes. São relatos muito humanos.

Não me achou vaidoso, pois não? Olhe que não tem um único autoelogio! Pode ter uma componente um pouco narcisista, no sentido em que é muito claro que me deu muito prazer fazer todo este percurso, assumo. O livro foi um pretexto para celebrar os 45 anos do Serviço Nacional de Saúde e fechar um ciclo do meu trabalho no SNS e tinha de ter várias vertentes, não podia escrever só sobre as histórias humanas.

A quem se destina a leitura?

Sobretudo a jovens estudantes de medicina que querem ser médicos. Considero muito importante a relação entre médicos e doentes e essa é uma das mensagens do testemunho que quis passar.

Acabou de se reformar.

Mas vou prosseguir com uma atividade pós-reforma continuando a fazer o tratamento das doenças malignas do fígado, das biliares e do pâncreas na Fundação Champalimaud. Já colaborava em part-time e fui desafiado a passar a full-time na área onde ainda posso ser uma mais-valia.

Ainda opera?

Claro. Mas os transplantes acabaram para sempre. Não farei mais.

Por opção?

Por uma razão simples. Noventa e nove vírgula nove por cento dos dadores de órgãos morrem em hospitais públicos e por isso defendi sempre que a transplantação de órgãos só deve ser feita no público. A nossa opinião pública teria muita dificuldade em aceitar que andássemos a colher fígados, pulmões e corações nos hospitais públicos para depois os utilizar no privado. Mesmo que o fizéssemos sem custos para os doentes e fosse o Estado a pagar ao privado.

Para ler o artigo na íntegra, clique AQUI.