Perfil

Vida Extra

#10YearsChallenge: O desafio dos 10 anos é uma brincadeira nas redes sociais ou um treino de reconhecimento facial?

A questão foi lançada na revista Wired após o sucesso do desafio que coloca lado a lado fotografias com 10 anos de diferença

Reprodução Facebook

Nos últimos dias, dificilmente alguém com conta nas redes sociais, sobretudo Facebook e Instagram, pôde evitar conhecer o #10YearsChallenge, o desafio que se espalhou sobretudo por duas razões: é simples e é divertido. Simples porque basta publicar uma fotografia dividida ao meio, no tradicional estilo “antes e depois” (2009-2019, ainda que alguns utilizadores tenham recuado a 2008); e divertido porque permite perceber as diferenças que uma década fazem no rosto das pessoas. Kate O'Neill, especialista em novas tecnologias e formas de lidar com elas, troca este último adjetivo por outro: suspeito.

A autora começou por escrever um tweet que chamou a atenção dos internautas: “Eu há 10 anos: provavelmente teria entrado na brincadeira e publicado fotos minhas no Facebook e Instagram. Eu agora: penso em como todos esses dados podem ser usados para treinar algoritmos de reconhecimento facial a identificar o envelhecimento e a sua progressão.” As reações foram imediatas, boas e más, e levaram O'Neill a escrever um artigo na Wired a propósito do tema, garantindo que, mais do que argumentos contra ou a favor, o que está a criar não é uma teoria da conspiração. “O objetivo é só consciencializar as pessoas para a importância dos dados humanos e de como podem ser usados.”

Críticas

Desde que rebentou o escândalo da Cambridge Analytica que os utilizadores deixaram de ter ilusões quanto ao valor dos seus dados. Mas será que passaram a comportar-se de forma diferente? Esse é o principal ponto de Kate O'Neill, que reforça a ideia de que, se não estamos a pagar por um produto, como são as redes sociais, é porque nós somos o produto. Por isso, “vale a pena considerar a profundidade e a amplitude dos dados pessoais que partilhamos sem reservas.”

Os críticos da hipótese levantada argumentam, principalmente, que as fotografias do antes e depois já estavam online. Em 2009 muitas destas pessoas já tinham Facebook e as imagens que agora usaram foram tiradas de qualquer ponto da internet. Não é mentira que ninguém fez nada novo e essa é a parte simples do desafio. Porém, para O'Neill a questão é mais complexa porque é diferente um algoritmo ter de identificar milhares de fotografias de perfil ou ter o trabalho pronto a ser usado. Além disso, lembra, muitas das imagens que os utilizadores publicam nos perfis de Facebook não são do dono da conta, envolvem mais pessoas ou têm datas diferentes da data de publicação. Aqui, com um desafio amplamente partilhado e com fotografias especificamente tiradas ao rosto de cada um, é possível perceber o que muda e a que níveis.

Facebook nega

A rede social onde o desafio se espalhou internacionalmente diz não ter nada a ver com ele. “Isto é um meme gerado por utilizadores que se tornou viral”, disse um porta-voz. “O Facebook não começou esta tendência, e o meme usa fotos que já existem no Facebook. O Facebook não ganha nada com esse meme (além de se lembrar das questionáveis ​​tendências da moda em 2009). Lembramos que os usuários do Facebook podem optar por ligar e desligar o reconhecimento facial a qualquer momento.” Para Kate O'Neill, as garantias não chegam, dados os exemplos como o acima citado Cambridge Analytica.

Reconhecimento facial: normal, bom ou perigoso?

O cenário não é necessariamente apocalíptico mesmo que o desafio dos 10 anos venha a ser utilizado para melhorar algoritmos de reconhecimento facial. Kate O'Neill garante que há bons motivos e boas formas de utilizar este tipo de tecnologia, como prova o caso da polícia de Nova Deli, na Índia, que conseguiu descobrir, em apenas quatro dias, o rasto a perto de três mil crianças desaparecidas, algumas há anos. O segredo esteve no reconhecimento facial.

Há outras formas de usar a tecnologia, nem boas nem más, como a capacidade de direcionar a publicidade a um público-alvo específico. Um anúncio na rua será certamente mais eficaz se for capaz de reconhecer a idade de quem o vê, adaptando o conceito ou a oferta de acordo com esse dado. Pode parecer assustador para o utilizador comum, mas as marcas estão cada vez mais atentas aos gostos, preferências e interesses dos clientes, e esse parece ser um caminho sem retorno possível.

Por último, o lado mau ou perigoso, que não é diferente de muitas outras tecnologias. O'Neill dá o exemplo dos seguros de saúde e assistência médica, que poderiam passar a ser vendidos de acordo com a aparência das pessoas e a forma como envelhecem. Alguém que pareça envelhecer rapidamente, alerta, deixa de ser atrativo, podendo pagar mais ou, simplesmente, não ter cobertura. A autora lembra ainda o caso da Amazon, que em 2016 introduziu a tecnologia e começou a vendê-la à polícia norte-americana. Se, como acima se vê, ela pode ser usada da melhor forma, também pode servir para perseguir pessoas que não tenham cometido crimes, mas que sejam personas non gratas, desde organizadores de manifestações a contestatários de regimes menos confortáveis com a ideia de contestação.

Kate O'Neill conclui com duas frases para lembrar: “Devemos exigir que as empresas tratem os nossos dados com o devido respeito. Mas também precisamos de tratar os nossos próprios dados com respeito.”

Anita Jankovic

Siga Vida Extra no Facebook e no Instagram.

A carregar...