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Vida Extra

O estado da fé

Portugal é atualmente o país da Europa que mais se identifica com a religião católica. Mas, entre os jovens, cresce a secularização. À primeira vista, o futuro não parece lá muito católico

luís pedro cabral

Um estudo conduzido muito recentemente em 15 países da Europa Ocidental veio demonstrar o que já se sabia: apesar de uma tendência de secularização, que se revela de forma notória nas gerações mais jovens, a grande maioria dos cidadãos europeus permanece irredutivelmente católica. Nos países em que esta sondagem se centrou, é em Portugal que a fé cristã permanece com os seus pilares mais sólidos, sendo na Holanda que esta evidencia maiores sinais de enfraquecimento. É, aliás, o único dos 15 países no qual os valores se situam abaixo dos 50 por cento. Aos europeus foram colocadas duas questões numa só: Se professam alguma religião e, em caso afirmativo, qual a religião que professam.

Em Portugal, Estado laico, os números são avassaladores. Da população inquirida, 83 por cento afirmam-se católicos. A declaração de fé portuguesa só encontra termo de comparação em três países: Áustria, Itália e Irlanda, onde 80 por cento dos inquiridos identificaram como sua a religião cristã. Algo surpreendentemente, ou não, a Finlândia lidera o conjunto de países abaixo dessa fasquia estatística, com 77 por cento, tendo a Suíça no calcanhar, com 75 por cento, seguida de perto pela Inglaterra, com 73 por cento. A linha divisória dos 70 por cento é setentrional, no sentido boreal da expressão. Na Alemanha, que nesta conjuntura se revela igualmente como fiel da balança europeia, a identidade cristã manifestou-se em 71 por cento da população inquirida. Um pouco mais afastada dos trilhos da fé cristã está a Espanha, com 66 por cento, quase em pé de igualdade com a Dinamarca, com 65 por cento, e a França, com 64 por cento. Acima do meridiano ‘50’ surgem três países: a Bélgica, com 55 por cento dos inquiridos a confessarem-se católicos, a Suécia, com 52 por cento, e a vizinha Noruega, com 51 por cento. No rés do chão estatístico da fé cristã encontra-se, como referido, a Holanda, com 41 por cento.

Deste estudo resulta também o seguinte: na arrebatadora maioria destes 15 países, o número de cristãos não-praticantes supera em muito os praticantes, sendo que foram considerados não-praticantes aqueles que frequentam a igreja não mais do que duas a três vezes durante um ano, e considerados praticantes aqueles que frequentam um local de culto com regularidade semanal ou mais do que uma vez por mês. Na Europa, resiste apenas uma exceção apostólica, católica, romana: a Itália, talvez por razões óbvias, é o único país em que o número de católicos praticantes é maior do que os não-praticantes.

Na média dos 15 países, 64 por cento dos cristãos praticantes acreditam em Deus, como a Bíblia descreve, 32 por cento acreditam na existência de uma força superior, enquanto uma camada residual (2%) diz não acreditar em qualquer poder superior. Entre os cristãos não-praticantes, os resultados são muito diferentes. Apenas 24 por cento destes acreditam em Deus, como é descrito na Bíblia, 51 por cento acreditam numa entidade superior e 16 por cento não creem em nenhuma das duas.

Não é o caso de Alexandra Nunes de Almeida, que é natural de Matosinhos, mas reside em Lisboa há mais de três décadas. Sendo de uma família conservadora do norte, foi sempre educada no rigor da fé cristã. Aos seis anos, a catequese. Aos oito, a Primeira Comunhão, aos 12, a Comunhão Solene. E, há coisa de três anos, com 58 de idade, fez o Crisma, o mais solene e mais “consciente” dos atos de confirmação de fé. Fê-lo precisamente por isso. “Foi uma questão de consciência. O Crisma é a afirmação ‘adulta’ da consagração à fé cristã. É uma escolha pessoal, que fazemos sem que nos seja imposta”, afirma. Alexandra frequenta a Capela de Nossa Senhora de Monserrate, nas Amoreiras. Assiste à missa todos os domingos, às vezes também durante a semana. “Durante a semana há naturalmente menos pessoas e posso ficar mais comigo mesma”. Por ser praticante, tem consciência de que hoje em dia pertence a uma minoria entre os católicos europeus, salvo a Itália. Porém, “uma coisa é a fé e outra é frequentar a igreja. Uma pessoa não é menos crente por isso. Cada um tem a sua fé e a sua forma de a entender e praticar”. Acredita que a fé está em cada uma das pessoas e que é o caminho da vida que as aproxima (ou reaproxima) à igreja.

Talvez seja por isso — pondera — que a grande maioria dos jovens europeus, incluindo as suas filhas, não tenha grande assiduidade na igreja. No seu caso familiar, pode ser uma questão de tempo, de disponibilidade, até mesmo de geografia, mas não de fé, pois as suas filhas foram educadas na mesma educação da dela.

Haverá uma crise geracional na fé cristã em particular? Encontramos respostas frescas num estudo, sob a égide do Centro Bento XVI para a Religião e Sociedade, realizado em parceria entre a Universidade de St. Mary (Londres) e o Institut Catholique de Paris, duas das instituições universitárias católicas mais relevantes na Europa, cujos resultados foram tornados públicos no primeiro semestre deste ano. Numa abrangência de 23 países europeus, incluindo Portugal, uma das conclusões mais preocupantes, vista com o ponto de vista católico, é a evidente laicização das gerações mais jovens, sendo que estas representam os indivíduos entre os 16 e os 29 anos.

De acordo com este estudo — ‘Os Jovens Adultos na Europa e a Religião’ —, 42 por cento dos jovens portugueses, dentro daquela faixa etária, não se identificam com qualquer religião. Nada que se compare ao caso da República Checa, em que 91 por cento dos jovens dizem não ter qualquer tipo de afiliação religiosa. Números que se mantêm elevados por toda a Europa, com destaque para a Estónia, com 80 por cento, a Suécia, com 75 por cento, o Reino Unido, com 70 por cento, ou a França, com 64 por cento.

Em Portugal, os jovens que professam a fé cristã ainda continuam em maioria (58%), sendo que, destes, uma boa fatia confessa não assistir regularmente à missa e nem sequer rezar. Apenas 27 por cento dos jovens católicos portugueses assistem semanalmente à missa. Ainda assim, estes números continuam no topo da Europa, se comparados, por exemplo, com os jovens católicos belgas (2%), os húngaros (3%), austríacos (5%), alemães (6%) ou os franceses (7%). A maior percentagem de jovens que frequentam a missa todas as semanas encontra-se na Polónia, que lidera de longe com 47 por cento.

Mesmo com o espectro da secularização no horizonte, qualquer católico que se preze lhe dirá que as sondagens valem o que valem. E que o futuro, claro está, a Deus pertence.

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