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Sinterklaas. O Pai Natal holandês chega mais cedo (mas está ligado a uma tradição racista)

Tem barbas brancas, veste vermelho e distribui presentes, mas não é o Pai Natal. Na Holanda, o São Nicolau chega mais cedo e chama-se Sinterklaas. Conheça-o aqui

Remko de Waal

Novembro é um mês de entusiasmo para as crianças da Holanda. Todos os anos, a meio do mês, o Sinterklaas chega ao país vindo de Espanha. Num barco carregado de presentes e acompanhado pelos ajudantes Piets, desembarca a cavalo e percorre as cidades em desfiles coloridos onde cumprimenta as famílias e distribui doces e bolachas tradicionais.

Remko de Waal

As festividades duram várias semanas. O Sinterklaas e os Piets visitam escolas, centros comerciais, hospitais e clubes desportivos para conhecerem as crianças. É também comum ver por esta altura algumas pessoas mascaradas de Piets que percorrem as ruas durante os fins de semana para oferecer doces às crianças e turistas.

A celebração culmina na noite de 5 de dezembro, véspera do dia de São Nicolau. As famílias reúnem-se para trocar presentes e poemas temáticos. Nas famílias com crianças, um dos adultos mascara-se de Sinterklaas para entregar os presentes e encher os sapatinhos deixados nas chaminés pelas crianças.

As semelhanças ao Pai Natal não são mera coincidência

Não são só os presentes, as barbas brancas e as roupas vermelhas que fazem lembrar o Pai Natal. Tal como a figura natalícia, o Sinterklaas traz consigo o "grande livro" que lhe diz quem são as crianças bem comportadas que merecem presentes e as que se portaram mal durante o ano.

As semelhanças advém da origem das duas lendas. Tal como o Pai Natal, também o Sinterklaas foi inspirado pela figura de São Nicolau. O bispo que viveu em Mira - atual Turquia - durante o século IV ficou famoso por ser especialmente generoso para com os pobres. As histórias da sua bondade ficaram famosas em toda a Europa durante a Idade Média, passando a ser-lhe atribuídos vários milagres que o tornaram alvo de culto enquanto patrono das crianças.

Na Holanda, a tradição do Sinterklaas é celebrada há mais de 700 anos e é acompanhada por várias campanhas comerciais desde 1940. Noutros países do centro da Europa existem comemorações semelhantes nomeadamente na Bélgica e Luxemburgo.

Piet: uma figura polémica

Tradicionalmente conhecidos como Zwarte Piet ('Pedro Preto'), os ajudantes do Sinterklaas são figuras polémicas. Vestidos com roupas coloridas que lembram os bobos das cortes medievais, os Piets costumavam usar perucas encaracoladas e pintar a cara de preto e os lábios de vermelho garrido.

Estas figuras têm acompanhado o Sinterklaas desde 1850, reproduzindo o livro para crianças do professor Jan Schenkman publicado nesta altura. No entanto, a opinião pública holandesa tem estado dividida sobre este tema.

Por um lado, surgiram várias vozes que acusaram a tradição de racista. Por outro lado, quem defende a manutenção desta tradição afirma que os Piets são amigos do Sinterklaas e não uma caricatura da escravatura. Um outro argumento é que a cara dos Piets está negra devido à cinza das chaminés que descem para entregar os presentes.

Em 2014, um tribunal de Amesterdão ordenou que o município reconsiderasse a inclusão dos Zwarte Piet nas comemorações, mas a decisão foi anulada por uma instância superior. Foram os próprios organizadores que optaram por retirar progressivamente estas figuras do desfile. Desde 2016 que os Zwart Piets foram substituídos por Schoorsteen Piet ('Pedro Chaminé'), que têm apenas as caras manchadas de preto como se tivessem sujas pela cinza das chaminés. No entanto, noutras cidades, os Zwarte Piet continuam a ser parte integrante desta tradição.

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