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O olhar de culpa dos cães não existe (e outros mitos desfeitos por Alexandra Horowitz)

A cientista norte-americana Alexandra Horowitz, autora do best-seller “Inside of a Dog”, deu uma entrevista ao Vida Extra sobre o comportamento do melhor amigo do homem. Em Paris, durante a comemoração dos 50 anos da Royal Canin, respondeu a todas as questões que não saem da cabeça de quem tem um cão em casa

A autora e cientista Alexandra Horowitz com os seus cães

Vegar Abelsnes

Alexandra Horowitz é uma das maiores especialistas em comportamento animal e esteve em Paris para a conferência “O Futuro da evolução da tecnologia para os animais de estimação”, que marca os 50 anos da Royal Canin. A investigadora, e autora de diversos livros sobre animais — onde se inclui o best-seller “Inside of a Dog” —, falou em exclusivo ao Vida Extra sobre as principais dúvidas de quem tem um cão em casa.

Por que é que tendemos a gostar mais dos cães do que de outros animais?

Em primeiro lugar acho que será porque eles respondem aos nossos estímulos, de diversas maneiras, e comportam-se de uma forma que nos atrai muito. Uma das coisas nas quais nos focamos, em termos de cognição canina, é no facto de os cães fazerem contacto visual connosco — como nós fazemos entre nós — e isso é algo que não acontece com outros animais. É possível conversar com um cão e ter a perceção de que ele nos está a perceber. Como se estivéssemos a partilhar algo. Mas há muitas outras, como por exemplo a possibilidade de lhe tocarmos. E isso também tem influência, até porque há endorfinas e oxitocinas que se libertam com estas ações, tanto do lado dos humanos como do lado dos próprios cães. E depois há a flexibilidade que têm para se adaptarem ao nosso dia a dia. Muito mais do que outros animais, como por exemplo os gatos, que têm um ritmo diferente.

Hoje já é possível sabermos como é ser um cão?

Nunca teremos a certeza de como é ser um cão, tal como não me é possível saber exatamente como é ser a tua pessoa. Mas já podemos fazer uma boa extrapolação do que é ser um cão. Se soubermos melhor como é que aprendem, como pensam e como percepcionam o mundo que os rodeia — através dos seus sentidos —, conseguiremos ter uma noção do que é ser um cão.

Mas eles não veem o mundo como nós... Ou veem?

Não. E isso é uma das coisas mais interessantes que fui descobrindo com a minha investigação. Ao termos os cães junto a nós achamos que eles estão a ter a mesma experiência, que estão a sentir as coisas da mesma forma. Mas não. Em grande parte porque antes de qualquer outra coisa, eles sentem a realidade através do cheiro. Nós somos criaturas que se guiam pelo olhar, enquanto os cães o fazem através do olfacto.

Então está a dizer-me que também haverá muitas vezes em que entendemos erradamente as ações dos cães? Por acharmos que estão a sentir da mesma forma que nós...

Sim, completamente.

Matthew Henry

Tem algum exemplo de como por vezes nos enganamos?

Um dos estudos que fiz, e talvez um dos que mais gostei de fazer, foi sobre aquele olhar de culpado dos cães. Todos sabemos como é: parece que sabem que fizeram asneira. Ficam cabisbaixos, com as orelhas para trás, a cauda caída... Parece mesmo que estão arrependidos de alguma coisa! E dá-nos um conforto enorme achar que eles se sentem culpados. Assumimos que eles distinguem o bem do mal dentro das nossas casas, mas isso não é verdade.

Como é que tem a certeza disso?

Fizemos a experiência. Tínhamos um cão, um dono e um alimento e depois dizíamos ao dono para sair. Quando o dono voltava, umas vezes o cão tinha comido sem autorização e outras tinha cumprido a ordem de não comer. Até aqui tudo bem, mas a verdadeira experiência acontecia quando enganávamos o dono. Por vezes éramos nós a retirar o alimento e quando dono voltava para repreender o animal, como se este tivesse o tivesse comido, o cão reagia com o tal 'olhar de culpa'. Na verdade é apenas uma reação ao comportamento humano.

Meredith Hunter

Por falar em comportamento humano, há algo que me tem intrigado. O surgimento de canais de televisão para cães, já existe oferta do género em Portugal, faz sentido?

Essa é mesmo uma grande questão. Também há canais do género nos Estados Unidos e é verdade que alguns cães poderão assistir aos programas. Temos a certeza de que conseguem ver televisão, mesmo que os seus olhos não sejam particularmente bons e não vejam as cores como nós — só veem a duas cores. Mais uma vez assumimos que os cães gostariam de fazer o mesmo que nós. Pensamos 'se eu ficasse em casa durante o dia, ia querer ver televisão' e pagamos um canal de televisão para o nosso cão. Mas quando saímos de casa, não é certo que ele fique a ver... A maior parte não o fará. Uma televisão olfativa ia interessar-lhes muito mais.

Existe algum dispositivo do género para animais?

Existem emissores de cheiro para humanos, portanto não seria difícil criar um para animais. Mas acho que os donos não iam gostar de ter em casa os aromas que interessam aos cães.

E quanto ao tédio. É algo que os cães sentem mesmo?

Sim, e isso está provado. Por exemplo eles não precisam de dormir 20 horas por dias, mas fazem-no. E na maior parte das vezes é porque não têm mais nada para fazer. E é também por isso que fazem asneiras em casa. Não têm nada para fazer e acabam por criar novas atividades. É muitas vezes daí que vêm os comportamentos desviantes. Eles precisam de companhia, e de algo para fazer, para não se sentirem entediados. São animais sociais.

E com caudas que abanam, são felizes?

Está a perguntar-me se quando abanam a cauda é porque estão felizes? Não é tanto assim. Uma cauda mais elevada quer dizer que está entusiasmado — mas tanto pode ser um entusiamo nervoso ou de pura excitação —, enquanto um abanar mais livre expressa a tal felicidade. Quando a cauda está baixa pode ser nervoso ou submisso. Há que ter em conta não só o movimento como a altura a que este acontece.

E os cães têm noção do tempo?

Em certa medida, sim. Não da forma como nós, é claro, mas têm uma noção por causa do cheiro. Quando as pessoas dizem que o cão sabe que alguém próximo está quase a chegar a casa, porque se dirige para a porta a determinada hora, isso acontece porque ele sente que o seu cheiro está a desaparecer. O cheiro do humano, que era forte quando ele saiu de manhã, está a ficar mais fraco e isso acontece repetidamente. É dessa forma que o tempo é medido, pela repetição rotineira.

O Vida Extra viajou a convite da Royal Canin.

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