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Malta, o destino de férias onde os portugueses estão a duplicar

A pequena ilha do Mediterrâneo que preserva o charme dos seus 7 mil anos de história e deu vida à Guerra dos Tronos está a ser um fenómeno nas viagens dos turistas nacionais, que promete continuar em 2020

Gergely Vas

É fácil para os portugueses sentirem-se em casa: a ilha de Malta tem uma área até menor que o concelho alentejano da Vidigueira, não mais que 316 quilómetros quadrados. "Estamos numa ilha tão pequena, que ao olhar para o mapa do mundo às vezes nem eu a consigo ver", reconhece a própria guia turística, Vanessa Vassallo.

Mas este pequeno território no Mediterrâneo concentra uma grande diversidade e riqueza patrimonial, marcas que sete mil anos de história foram deixando e que permitem hoje a um turista muito para ver. Há em Malta tantas igrejas cristãs como os dias do ano, além de monumentos megalíticos que são dos mais antigos do mundo.

"A nossa história começa na pré-história, e cinco mil anos antes de Cristo nascer", frisa Vanessa Vassalo. Tentar conhecer a história de Malta é um desafio difícil para quem chega de visita. A sua localização estratégica, perto de África e da Europa, fez ali acostar inúmeros povos ao longo dos tempos, desde fenícios ou árabes, gregos ou romanos. Mas é incontornável para um turista levar com um 'banho de história' para ter uma noção desta herança milenar e perceber o caldeirão de culturas que atualmente é Malta, uma terra em que os cristãos designam Deus como 'Alla' e onde bom dia se diz, à maneira francesa, 'bonju'.

O Grande Porto de Malta foi usado desde os tempos do império romano

O Grande Porto de Malta foi usado desde os tempos do império romano

Turismo de Malta

Os turistas portugueses em Malta mais do que duplicaram, disparando dos 9,5 mil em 2017 para 20,7 mil em 2018, num crescimento de 118,4%.

A tendência de alta manteve-se em 2019, não havendo ainda números consolidados. Em geral 2018, ano em que La Valleta foi Capital Europeia da Cultura, trouxe o grande salto para Malta, com os turistas externos, maioritariamente ingleses, alemães e italianos, a subir 14,5% para 2,5 milhões. Foi o destino que, a seguir à Turquia, mais subiu em 2018, segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT).

“O nosso boom turístico começou há poucos anos. E agora estamos a crescer tanto que precisamos pensar na infraestrutura que temos, mas ainda estamos longe da massificação”, nota Christine Darmanin, diretora executiva do Turismo de Malta para Portugal, Espanha e Itália.

Promover um território tão pequeno e diversificado, não é tarefa fácil. "A nossa história é tão rica, temos três dos templos mais antigos do mundo, tivemos colónias de imensos países, dá-nos muito para trabalhar em turismo", faz notar a responsável do Turismo de Malta.

A M'dina foi a primeira capital de Malta, e como descrevem os guias locais "toda a cidade é um museu"

A M'dina foi a primeira capital de Malta, e como descrevem os guias locais "toda a cidade é um museu"

Turismo de Malta

No centro da ilha, a M'dina é uma memória viva do que foi Malta em outras eras, e andar pelas suas ruas em tons de ocre é como uma viagem no tempo. Remontando ao período árabe, a M'dina foi a primeira capital de Malta, e como descrevem os guias locais "toda a cidade é um museu", com a sua arquitetura medieval e barroca.

Conhecida como 'cidade silenciosa', desde que a capital mudou para Valeta no tempo dos Cavaleiros da Ordem de São João, a M'dina foi um dos cenários escolhidos para as filmagens da Guerra dos Tronos - foi King’s Landing, capital de Westeros, na primeira temporada da série, onde se destaca o seu portão de entrada, com a ponte sobre o fosso.

Um local de visita obrigatório, a M'dina mantém a atmosfera de grandiosidade das antigas famílias ricas e aristocratas que ali viveram. Segundo adiantam os locais, é um sítio ultra-exclusivo para se conseguir ter uma residência, e além "dos sortudos que herdaram os palácios, é muito raro encontrar uma casa à venda na M'dina".

Vittoriosa, a antiga cidade fortificada em Valeta, onde os Cavaleiros da Ordem de Malta atracaram em 1530

Vittoriosa, a antiga cidade fortificada em Valeta, onde os Cavaleiros da Ordem de Malta atracaram em 1530

Turismo de Malta

A capital de Malta, Valeta, onde atualmente vivem seis mil pessoas, é uma cidade cheia de fortificações, e classificada como património mundial da Unesco. Uma das suas particularidades mais distintivas são as casas em pedra da zona antiga com as suas marquises destacadas para o exterior, e pintadas numa diversificada palete de cores.

Um dos maiores atrativos em Valeta é Vittoriosa, a cidade fortificada originalmente conhecida por Birgu, e que representa a vitória dos Cavaleiros de Malta numa sanguinolenta batalha contra os turcos em 1565, que atacaram o estratégico arquipélago na mira de o para conquistar e controlar as rotas comerciais do Mediterrâneo.

Vittoriosa é uma das chamadas 'três cidades' onde os primeiros habitantes de Malta se instalaram, a par de Senglea e Conspicua. Junto ao mar, Vittoriosa mantém a sua atmosfera de glória, apesar dos estragos causados durante a guerra mundial. "Malta foi a ilha mais bombardeada durante a segunda guerra mundial, tivemos todas as bombas a caír aqui", salienta a guia Vanessa Vassalo. A quantidade de bombardeios ao longo

A catedral de São João em Valeta, sempre com filas de visitantes à porta, é um dos principais pontos de visita em Valeta. Utilizada como igreja conventual dos Cavaleiros da Ordem e ricamente ornamentada no interior, a catedral de São João é um exemplo do barroco em Malta, e uma das suas principais jóias é o quadro de Caravaggio no oratório representando a decapitação de São João Batista.

Malta é um dos mais antigos territórios cristãos do mundo e conta com 320 igrejas

Malta é um dos mais antigos territórios cristãos do mundo e conta com 320 igrejas

Mario Galea

A forte religiosidade dos malteses, um dos mais antigos povos cristãos do mundo, também é associada à quantidade de guerras de que o território foi alvo ao longo dos tempos, e das quais tiveram de se proteger. É frequente ver nas casas imagens de Nossa Senhora, de São Jorge, São Miguel e vários outros santos, dizendo-se popularmente que "andar pelas ruas de Malta é como andar pelo céu".

Ilha de Gozo: o nome foi dado pelos portugueses

Gozo e Comino são as outras ilhas habitadas do arquipélago, e facilmente se chega lá de apanhando um 'ferry' a partir de Cirkewwa, em Malta. E a presença lusa também se faz sentir nestes locais escondidos do Mediterrâneo. "Gozo é um nome português, significa alegria e felicidade", começa por referir a guia local, Regina Micallef, lembrando que a outra ilha ainda menor, Comino, deve o nome à quantidade de plantas de cominho ali existentes.

Para quem está de férias em Malta, vale a pena uma escapada a estas pequenas ilhas, e poder tomar um banho na paradisíaca Lagoa Azul em Comino, ou explorar os 'spots' para mergulho em Gozo. "Sabemos que a praia não é um dos nossos 'highlights' porque temos áreas limitadas, e para os portugueses que gostam de mar promovemos a experiência de mergulho na ilha de Gozo”, refere a responsável do Turismo de Malta para o mercado português.

A pacata ilha de Gozo não tem mais que 7 km de largura por 30 km de extensão, mas conta com dezenas de igrejas, e até por cima de um vulcão ativo se pode ver uma estátua de Jesus Cristo. "As pessoas em Gozo sempre foram muito religiosas, e como não havia eletricidade na ilha até aos anos 60, costumavam encontrar-se nas igrejas, que também tinham esta função social", explica Regina Micallef, frisando haver 320 igrejas em Malta, a que se somam 44 em Gozo.

A Lagoa Azul é um dos 'ex-libris' da ilha de Comino

A Lagoa Azul é um dos 'ex-libris' da ilha de Comino

Turismo de Malta

Uma das atrações em Gozo é ver o que resta da formação rochosa conhecida como 'janela azul' na região costeira de Dwejra, que foi o cenário do casamento de Khal Drogo e Daenerys Targaryen em “Game of Thrones”, e que desabou com uma tempestade em 2017 (e que já tinha aparecido em filmes como 'Choque de Titãs' ou 'O Conde de Monte Cristo').

A praia de Ramla Bay, com o seu extenso areal (uma raridade no arquipélago) é outro ponto de visita em Gozo - e uma das melhores formas de apreciar a sua vista é subir à gruta de Tal-Mixta, em Nadur.

Mas a visita justifica-se pela própria tranquilidade que se respira na pequena ilha, onde facilmente se esquece o relógio e se pode comer peixe assado só com azeite e limão, como os portugueses gostam. “É muito sossegado viver aqui", reconhece Regina Micallef, lembrando que, apesar de recôndito, Gozo não está longe de outros locais mais movimentados no Mediterrâneo. "Quando há um tremor de terra na Sicília ou na Grécia, nós sentimos”, garante.

Cavaleiros de Malta portugueses popularizaram o bacalhau na ilha

Para os portugueses, viajar até Malta também representa uma oportunidade de encontro com a sua própria história. A presença lusa destacou-se nesta ilha do Mediterrâneo, sobretudo no séc. XVIII, quando António Manoel de Vilhena foi nomeado o primeiro grão-mestre português da Ordem de Malta. Foi o português António Manoel de Vilhena que mandou construír o belíssimo teatro que hoje se pode ver na parte histórica de Valeta, o Teatro Manoel, e que é um dos mais antigos da Europa a manter-se em funcionamento.

O património milenar torna a ilha do Mediterrâneo muito requisitada para produções de cinema

O património milenar torna a ilha do Mediterrâneo muito requisitada para produções de cinema

Turismo de Malta

Houve outro português que se destacou entre os Cavaleiros de Malta, Manuel Pinto da Fonseca - que “tinha o seu próprio fazedor de gelados” e “tornou o bacalhau numa das comidas mais populares da ilha”, segundo avança Liam Ganci, diretor do Museu Marítimo em Valeta. Destes gloriosos tempos dos Cavaleiros de Malta, há relatos do português Manuel Pinto da Fonseca a atirar dinheiro pelas ruas, ficando assim “adorado pela população”, a instituír cuidados hospitalares gratuitos a toda a gente ou a pôr vinho da Madeira a jorrar abundantemente de fontes, como se fosse água.

Outra referência de relevo é o palácio em Valeta que era de Portugal e Castela no tempo dos Cavaleiros, e é hoje o gabinete oficial do primeiro-ministro da República de Malta. Designados de 'auberges', estes clássicos edifícios que eram dos Cavaleiros da Ordem de Malta são atualmente usados pelo Governo do país para funções oficiais.

A Baía de São Jorge destaca-se pela sua praia de extenso areal

A Baía de São Jorge destaca-se pela sua praia de extenso areal

Turismo de Malta

Malta foi um dos destinos-estrela nas viagens dos portugueses em 2019, uma tendência que promete continuar em 2020. O boom de turistas nacionais para este destino também se deve aos voos diretos entre Lisboa e Valeta operados pela Air Malta, companhia aérea maltesa que voltou a voar para o aeroporto da Portela em 2018 após uma ausência de dez anos, operando dois voos semanais entre a capital portuguesa e Malta, às quintas-feiras e domingos. Os preços da Air Malta também são convidativos, e para 2020 estão disponíveis voos de Lisboa para Valeta a partir de €57.

Para os agentes de viagens nacionais, Malta tornou-se num dos mais populares pacotes de férias, e a preços simpáticos, na casa dos €500 ou €600 por uma semana, incluíndo alojamento ou transferes. “Malta é um produto histórico, de elegância e charme discreto, que está com um crescimento interessante e a fazer o seu caminho na nova procura dos portugueses, para quem a viagem já tem de ter uma dimensão plural, não se esgotando apenas no sol e na praia”, salienta um porta-voz da Viagens Abreu, lembrando que em 2019 “todo o Mediterrâneo foi uma grande aposta nossa, incluíndo Grécia e Sardenha”.

Ter santos à porta das casas é uma tradição na ilha

Ter santos à porta das casas é uma tradição na ilha

BRUNO VETTERS

O que explica o crescimento turístico em Malta também são os malteses, um povo a quem sete mil anos de história esculpiu a alma, e que hoje se mostra aberto ao mundo.

“Somos pessoas estranhas. Vivemos num rochedo no meio do mar, tivemos todas as bombas a caír nesta ilha e não temos muitos recursos”, nota Liam Ganci, diretor do Museu Marítimo em Valeta. “Mas para muitos, ser maltês significa ser o centro do mundo”. Esta caraterística dos povos pequenos que lhes confere uma espécie de força, não deixa de ser familiar também aos portugueses.