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Conheça este lugar e recue no tempo. Viagem ao Vale do Bestança

A região de Cinfães, no extremo norte da Beira Alta, é sem dúvida uma das pérolas mais desconhecidas do nosso território. Siga-nos num passeio pedestre, que nos dá uma visão geral desta zona, com um pequeno desvio até às surpreendentes Fragas da Penavilheira

Encontros nos caminhos rurais do Vale do Bestança: a pastora idosa e o seu rebanho

Encontros nos caminhos rurais do Vale do Bestança: a pastora idosa e o seu rebanho

O rio Bestança, um dos mais limpos da Europa, é o elemento identitário desta região. Nasce na serra de Montemuro, a 1229 metros de altitude e 13,4 quilómetros depois desagua no Douro, em Porto Antigo. Continua selvagem, com o leito que a natureza lhe deu, sem mini-hídricas a domesticá-lo, muito graças à Associação para a Defesa do Vale do Bestança, que tem conseguido impedir todos os planos para o descaracterizar.

O Vale do Bestança, integrado na Rede Natura 2000, é uma zona pouco povoada, com pequenas aldeias dispersas pelas íngremes encostas, salpicadas de socalcos e lameiros, onde se pratica essencialmente uma agricultura de subsistência. Quando caminhamos pelo vale, rapidamente sentimos que por aqui a contagem do tempo parou há décadas, ideia reforçada ao constatarmos que há sulcos recentes dos rodados dos carros de bois, prova de que, em pleno século XXI, ainda se aproveita a força dos animais para transportar o estrume dos currais para a horta e as espigas do milheiral para a eira.

Pormenor das mãos da pastora

Pormenor das mãos da pastora

Também é muito provável cruzarmo-nos com aldeões, com meia dúzia de ovelhas à ilharga e com o inseparável sachinho às costas, auxiliar precioso para abrir/fechar o caminho da água, na intricada rede de levadas que lhes permite regar os campos. São vidas duras, sem folgas nem fins de semana, mas não ouvi lamentos de um agricultor local (aparece desfocado, em segundo plano, na foto de abertura), que acompanhei numa parte do caminho. Antes pelo contrário, ainda ironizou: “Você sabe que por aqui os agricultores também têm férias? Mas não é no verão, pois nessa altura temos de sair duas vezes por dia com o gado – logo de madrugada e ao fim do dia –, por causa das moscas. As nossas férias não são quando queremos, são quando caem grandes nevões, que impedem o gado de sair das lojas. O recorde foi há uns anos, em que estive 20 dias à boa vida, com a neve a não parar de cair. Aquilo é que foi. Jogar às cartas, beber uns copinhos...”

O rio Bestança visto da ponte, já junto da foz, perto de Porto Antigo

O rio Bestança visto da ponte, já junto da foz, perto de Porto Antigo

Depois há a natureza, quase intocável, onde uma assinalável biodiversidade permite a coexistência de lontras, ginetes, gatos bravos, águias reais, melros-de-água e milhafres, que partilham o espaço com manchas autóctones de castanheiros, carvalhos e pinheiros bravos. Já nos vales, imperam as frondosas galerias ripícolas de amieiros, freixos e salgueiros, que sombreiam os límpidos cursos de água onde nadam as trutas, as iroses e as bogas.

UM PASSEIO NO VALE E AS CASCATAS DA PENAVILHEIRA

A melhor maneira de conhecer este vale de exceção é a pé. E para ter uma visão global desta zona, nada como fazer “A Rota do Vale”, um percurso pedestre sinalizado (PR2), que podemos começar no topo da serra, nas Portas de Montemuro (1200 metros altitude), embora o sentido assinalado seja o contrário, ou seja, partir da aldeia de Vale Verde (400 metros altitude). Deste modo, o esforço vai ser menor, pois vamos fazer mais descidas do que subidas. É um percurso linear – partida e chegada em pontos diferentes –, de 18 quilómetros, com um tempo estimado para o percorrer de 5 horas, mas com o desvio que mais à frente propomos e com as muitas paragens que certamente vamos fazer para observar/fotografar os tantos recantos que nos vão surpreender, é normal que demoremos mais tempo. Começamos numa paisagem aberta, mais montanhosa, mas depois de atravessarmos a povoação de Alhões, onde os pastores ainda esperam pelo toque do sino da igreja, para saírem com o gado para as pastagens, desembocamos nos horizontes mais fechados do vale. Segue-se a vila de Bustelo, onde podemos ver duas arcas tumulares antropomórficas no adro da igreja e seguimos depois por uma descida, que nos leva à primeira travessia do rio Bestança.

As Fragas da Penavilheira. No canto superior direito está uma pessoa adulta, que dá uma noção do tamanho da queda de água

As Fragas da Penavilheira. No canto superior direito está uma pessoa adulta, que dá uma noção do tamanho da queda de água

Logo depois subimos até Tendais, antiga sede de concelho, hoje freguesia, de onde descemos por uma antiga calçada até ao rio. Mas 250 metros antes de chegarmos à vetusta ponte de Soutelo, há um caminho à esquerda – assinalado com a cruz vermelha e amarela, indicação de caminho errado – que, andados cerca de 350 metros, nos leva à beira das Fragas da Penavilheira, um local muito especial, não sinalizado neste PR2, mas absolutamente imperdível. As Fragas são um desnível de mais de 20 metros, por onde o rio se precipita em duas imponentes cascatas, que se conseguem ver integralmente do cimo de um grande rochedo situado à sua frente – atenção que escalar o rochedo pode ser perigoso, pelo que aconselhamos a nunca o fazer sozinho.

A ponte de Soutelo que alguns dizem ser romana e outros medieval 

A ponte de Soutelo que alguns dizem ser romana e outros medieval 

Voltamos para trás, reentramos no PR2, atravessamos a ponte, subimos até Soutelo, atravessamos a localidade de Chã e tornamos a descer até ao rio, que transpomos pela terceira vez. O destino seguinte é o agradável sítio do Prado, a planície central deste vale, onde começa a Estação de Biodiversidade do Vale de Bestança, que descreve durante 1,5 quilómetros, em vários painéis informativos, a fauna e a flora mais representativas desta zona. Subimos por uma calçada antiga até Valverde e logo depois chegamos a Vila de Muros e ao Largo da Nogueira, onde termina o nosso passeio. É aconselhável dispor de dois carros: um fica em Vila de Muros, o outro leva-nos até às Portas de Montemuro. No fim, com o carro que ficou em Vila de Muros, vamos buscar o outro.

Este percurso pedestre pode ser considerado um cartão de visita deste vale, mas a região tem muito mais para oferecer e para ver. A gastronomia, a cultura, as zonas arqueológicas e, sobretudo, a beleza cénica da paisagem natural, são motivos mais do que suficientes para agendar uma visita ao Vale do Bestança. Do que está à espera?