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Este é o maior iate do mundo e foi projetado para salvar os oceanos

Chama-se REV Ocean e foi financiado pelo milionário norueguês Kjell Inge Røkke. A principal tarefa deste iate de expedição pioneiro vai ser a recolha de resíduos plástico do mar, tendo capacidade para receber cinco toneladas por dia, sem emissão de gases tóxicos ou com efeito de estufa. Hoje, mais de 100 milhões de toneladas de resíduos de plástico ameaçam a saúde dos oceanos. E já entraram na cadeia alimentar humana

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Jaime Figueiredo

Jaime Figueiredo

Coordenador-Geral de Infografia

Bogdan Vasilescu, REV Ocean

O reinado de seis anos do Azzam como o maior iate do mundo chegou ao fim. O brinquedo com 180,6 metros de comprimento, propriedade do xeque Khalifa Bin Zayed Al Nahyan, presidente dos Emirados Árabes Unidos e atual emir de Abu Dhabi, deixou o topo da lista exclusiva dos maiores iates do mundo, sendo ultrapassado por um novo mega iate.

O REV Ocean, um pouco menos opulento que o Azzam, é o maior e mais avançado iate de pesquisa e expedição do mundo e atingiu finalmente a água. Após um período de construção extenso e complicado nos últimos 18 meses, o navio foi finalmente lançado a 24 de agosto no estaleiro VARD Tulcea na Romênia.

“Agora que a fase inicial de construção está concluída, aguardamos ansiosamente sua entrega na Noruega, onde nos concentraremos na instalação de equipamentos técnicos, equipamentos científicos, laboratórios de pesquisa e todas as ferramentas que os pesquisadores usarão para alcançar os nossos principais objetivos científicos”, disse Oystein Mikelborg, diretor de operações marítimas da REV Ocean.

O navio está agora a ser rebocado para o estaleiro da VARD em Brattvag, Noruega onde permanecerá por oito meses, e depois irá para a Alemanha para a fase final da construção. A conclusão da embarcação está prevista para o final de 2020 ou início de 2021. A construção deste navio, capaz de visitar qualquer oceano da Terra, é o desejo do empresário norueguês Kjell Inge Røkke. com um objetivo simples, mas extremamente importante, tornar os oceanos saudáveis novamente.

Bogdan Vasilescu, REV Ocean

Como combater a poluição gerada pelos plásticos que está a provocar graves danos na cadeia alimentar no mar? O que fazer para salvar as espécies em perigo e tornar o uso dos recursos marinhos mais sustentável? Que impacto têm as emissões de CO2 na acidificação dos oceanos e como reduzi-las? Estas são as perguntas a que os cientistas querem responder quando estiverem a bordo do REV (Research Expedition Vessel), o maior e mais bem equipado navio de investigação científica de sempre.

O projeto é do empresário norueguês Kjell Inge Røkke, que tem uma fortuna avaliada em 2200 milhões de euros e detém quase 70% da frota marítima e da exploração petrolífera offshore do grupo financeiro Aker ASA. O navio, de 183,9 metros de comprimento e 17.440 toneladas, está a ser construído em parceria com a organização ambientalista World Wild Fund for Nature (WWF). Estará equipado para medir a composição da atmosfera, da água do mar a 6000 metros de profundidade ou dos primeiros 20 metros da camada de sedimentos e rocha debaixo dos fundos marinhos. Mas a principal tarefa do REV Ocean vai ser a recolha de resíduos de plástico do mar, que serão derretidos num incinerador a bordo com capacidade para receber cinco toneladas por dia, sem emissão de gases tóxicos ou com efeito de estufa.

O lixo que entra no giro, o enorme sistema de circulação de água em movimentos circulares, resultante de sistemas de correntes, acaba por acumular-se lentamente no centro do giro, onde as velocidades das correntes são menores

O lixo que entra no giro, o enorme sistema de circulação de água em movimentos circulares, resultante de sistemas de correntes, acaba por acumular-se lentamente no centro do giro, onde as velocidades das correntes são menores

Para gerar receitas que financiem futuros projetos de investigação e desenvolvimento de novas atividades, o REV Ocean - com capacidade para 28 passageiros juntamente com uma tripulação de 54 - poderá ser alugado a pessoas, empresas e instituições que queiram fazer expedições, conferências e outras iniciativas. Mas há um ideia forte que Kjell Inge Rokke tem passado nas entrevistas que já deu a vários media: “Quero devolver à sociedade o que ganhei e este navio é a parte de leão da minha fortuna”. Ou seja, o empresário que começou a sua carreira como pescador, quer aplicar a sua fortuna de 2200 milhões de euros em projetos que contribuam para limpar e preservar os oceanos.

O navio terá capacidade para recolher e incinerar cinco toneladas de plástico por dia, “mas temos uma limitação: o REV Ocean só pode recolher o lixo à superfície, o que representa apenas 30% do plástico no mar”, afirma ao Expresso a bióloga marinha Nina Jensen, que lidera as operações do REV. E quanto aos microplásticos? “É mais complicado e quando o navio for lançado no final de 2020 teremos de encontrar mecanismos a bordo que permitam a sua recolha”. Até lá, a equipa liderada por Jensen vai “explorar as tecnologias e os equipamentos já existentes que permitem resolver este problema”. Em todo o caso, a invasão dos plásticos nos ecossistemas marinhos tem de ser resolvida na origem. “Os oceanos constituem 70% da superfície da Terra, são demasiado grandes e por isso o mais importante é reter os plásticos antes de entrarem no mar”, argumenta a bióloga marinha norueguesa, “o que implica uma melhoria significativa da gestão dos sistemas de recolha e reciclagem de lixo, em especial nos países mais desenvolvidos”.

Combater a plastificação dos oceanos

“Os oceanos estão sob a maior pressão de sempre devido à poluição costeira, sobrepesca, destruição de habitats, alterações climáticas e acidificação”, constata Kjell Inge Røkke. “Mas um dos maiores desafios é a plastificação dos oceanos e a necessidade urgente de soluções para este problema”. A ideia de construir um navio de investigação oceânica “esteve na minha mente durante muitos anos”, conta o empresário no site da empresa Rosellinis Four-10, que está a gerir o projeto, acrescentando que o REV “será uma plataforma de aprendizagem, partilha do conhecimento e desenvolvimento de soluções que beneficiem as gerações futuras”.

No fundo, o navio “será como uma arena para cientistas, ambientalistas e exploradores de todo o mundo”, que terão acesso à sua tecnologia de bordo, sublinha o empresário. O objetivo é “aumentar o conhecimento dos oceanos e promover a inovação para enfrentar desafios como a poluição dos plásticos, as alterações climáticas, a sobrepesca ou a extração mineira no fundo do mar”. O REV Ocean está concebido para operar “em águas remotas e vulneráveis durante longos períodos de tempo sem abastecimentos adicionais ou apoios exteriores”, podendo percorrer sem parar 39.114 quilómetros (21.120 milhas náuticas) com 50% da capacidade de carga ocupada, o que equivale a 98% da circunferência do Equador. E vai usar tecnologias verdes em todos os equipamentos, de modo a minimizar a sua pegada ambiental quando estiver em operação no mar. Se for utilizado apenas para investigação, o navio poderá levar a bordo 60 cientistas com uma tripulação de 30.

LABORATÓRIOS

Serão pelo menos seis, concebidos para diferentes tipos de investigação, com todo o equipamento de alta tecnologia necessário para estudar cada ecossistema marinho, de modo a monitorizarem e pesquisarem áreas marinhas, correntes, fundo do mar, peixes, mamíferos, aves e plantas em todos os oceanos. A maior parte da tecnologia foi desenvolvida por clusters de conhecimento da Noruega (juntam centros de investigação, centros tecnológicos, universidades e empresas) que ocupam uma posição de liderança mundial

SISTEMA DE ARRASTO PELÁGICO

As portas de arrasto e a plataforma da popa vão permitir o lançamento seguro e a recuperação da rede de arrasto pelágica (para captura de espécies de mar aberto que não dependem dos fundos marinhos) e de outros objetos rebocados. O sistema vai operar até aos 3000 metros de profundidade e terá dois guinchos de arrasto de 35 toneladas, que mantêm a posição e a profundidade em qualquer situação meteorológica. O sistema de captura para trazer a bordo espécies vivas será o mais avançado de sempre num barco científico. A sucção é assegurada por uma instalação de vácuo dentro do navio com capacidade para 7,5 m3 de água por minuto, que também recolhe amostras de microplásticos

INCINERADOR

Sistema de alta tecnologia que permitirá que todos os materiais, incluindo plásticos, mas não metal ou vidro, sejam incinerados de forma ambiental, sem produzir gases poluentes e gerando poucos resíduos, o que significa que o navio não precisará de descarregar resíduos de plástico em países com capacidade limitada para os tratar e eliminar. Cada quilo de lixo queimado vai gerar uma energia térmica de 110kg que será reintroduzida nos sistemas do navio

AUDITÓRIO

Terá 40 lugares sentados e será um local de encontro para os cientistas trocarem ideias e conhecimentos em debates e conferências. Sistemas de transmissão ao vivo vão assegurar a divulgação contínua para todo o mundo da investigação que está a ser feita a bordo. Deste modo o conhecimento será adquirido e refinado precisamente onde os desafios nos oceanos são maiores

HANGAR PRINCIPAL

Terá uma moonpool, parte essencial de alguns navios para pesquisas marinhas e exploração subaquática. É uma abertura na base do casco de 7,7 por 5 metros que dá acesso à água, permitindo que os investigadores introduzam ferramentas e instrumentos de medida no mar abrigados e protegidos mesmo que o navio esteja em alto-mar. Também permite a mergulhadores ou veículos submersíveis — como ROV (veículos de controlo remoto) e AUV (robôs sem controlo humano) — entrar ou sair da água com facilidade, através do sistema LARS (Launch and Recovery System). Terá uma escotilha superior e outra inferior. Para atividade à superfície existirão vários pequenos barcos de trabalho

SISTEMA DE RECOLHA DE PLÁSTICO

Como a poluição provocada pelo plástico está a provocar extensos danos na cadeia alimentar marinha, o projeto REV (Research Expedition Vessel) pretende encontrar soluções para recolher o plástico do oceano. A ideia conceptual é baseada num sistema de arrasto à superfície do mar e num incinerador de alta tecnologia a bordo que permitirá incinerar plástico de forma ambientalmente sustentável sem produzir qualquer gás nocivo. Cada quilo de resíduos incinerado vai gerar 110 kW de energia térmica na forma de água quente, que pode ser introduzida nas redes de água quente do navio

HELIPORTO

Há dois heliportos, um na proa e outro na popa para o uso de drones e de helicópteros nos trabalhos de investigação

SONARES/CENTRO DE CONTROLO

O navio estará equipado com ecossondas e sonares de última geração para estudar os peixes e outras espécies marinhas em toda a coluna de água, da superfície até ao fundo do mar. As ecossondas multifeixe serão usadas para mapear o fundo do mar e as correntes. Um dos sonares vai pesquisar os sedimentos debaixo do fundo do mar sem recolher amostras. O centro de controlo estará também equipado com quatro hidrofones de alta sensibilidade para ouvir a comunicação entre mamíferos marinhos

PRINCIPAIS CARATERÍSTICAS DO REV OCEAN

INGESTÃO DE PLÁSTICOS PELAS ESPÉCIES MARINHAS

Em comparação com as listas de Laist (um estudo de 1997), o número de espécies que foram afetadas por ingestão de detritos plásticos aumentou substancialmente nos últimos anos. Muitos animais comem sacos de plástico e outros resíduos por os confundirem com comida. A ingestão bloqueia-lhes o sistema digestivo, causando lesões internas ou até mesmo a morte

ANIMAIS PRESOS EM REDES E FIOS DE PESCA

O lixo marinho está a ameaçar significativamente aves, tartarugas e mamíferos. Estes ficam enredados em redes, cabos e linhas de pesca, materiais que acabam por causar-lhes a morte por asfixia

FONTES: PNAS - PROCEEDINGS OF THE NATIONAL ACADEMY OF SCIENCES OF THE UNITED STATES OF AMERICA, SAILING SEAS OF PLASTIC, MARINE ANTHROPOGENIC LITTER E PLASTICS EUROPE

FONTES: PNAS - PROCEEDINGS OF THE NATIONAL ACADEMY OF SCIENCES OF THE UNITED STATES OF AMERICA, SAILING SEAS OF PLASTIC, MARINE ANTHROPOGENIC LITTER E PLASTICS EUROPE

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