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Vida Extra

Terá sido o primeiro português a dormir num templo Maia, mas João não quer parar

João Amorim trocou a realidade segura que o mestrado em Bioquímica podia proporcionar. Quando ingressou no ensino superior, tal como muitos outros jovens, não percebeu o peso de uma decisão que o puxou para o fundo. A depressão afundava-o, mas no mar de pensamentos pesados flutuava enxuto o sonho: viajar pelo mundo. João foi, muito provavelmente, o primeiro português a dormir no topo de um templo Maia, em 2016, durante uma odisseia de oito meses que o levou por 14 países. Aos 27 anos, é líder de viagens e embaixador da associação Gap Year Portugal

João Amorim na selva da Guatemala

D.R.

O guarda, com uma shotgun na mão, caminhava pela selva enquanto a noite caía. Seis pessoas, vindas de muito longe, seguiam-no. Sem fazer perguntas. Curiosas. Atentas aos rugidos dos jaguares. “O gajo parou em frente ao complexo arqueológico e disse-nos: ‘Podem entrar!’”

“Já contaste ao teu pai? Estás lixado!” João tinha gravadas estas palavras da mãe quando estava a mais de 8 mil quilómetros de casa, acompanhado pela namorada, por um casal de americanos e dois amigos australianos. Tinham chegado ao Lugar das Vozes — assim era conhecido por uma civilização antiga, num idioma morto, tal como todos os que lá viviam — escondido do mundo durante um milénio. As portas da aventura estavam abertas para as ruínas da maior cidade Maia, localizada no Parque Nacional Tikal, na Guatemala, habitada há dois mil anos pelos reis e sacerdotes da mais próspera e avançada sociedade pré-colombiana.

“Caminhámos pela praça principal e pernoitámos no topo do templo II”, recorda João Amorim, que há três anos estava a viver na realidade aquele sonho que não o deixava pregar olho. “Passei a noite a ver as estrelas, fumei um charuto e fiquei simplesmente a apreciar o facto de estar ali”, conta o português de 27 anos ao Vida Extra. Era o ponto alto de uma viagem de oito meses, entre 2015 e 2016, partilhada com Tamára e que os levou a percorrer 14 países, numa odisseia planeada para perseguir o verão ao longo do continente americano. “Fomos, muito provavelmente, os primeiros portugueses a dormir no topo de segundo templo”, alvitra o caçador de experiências, que faz do mundo uma aldeia que não se cansa de explorar.

O viajante português junto ao templo II da cidade maia de Tikal

O viajante português junto ao templo II da cidade maia de Tikal

João Amorim

“Achava que ia ser um daqueles gajos que vemos na rua a arrumar carros”

João estava muito longe de atingir, literalmente, o topo da pirâmide quando a longa jornada “era uma realidade super distante”. Aos 23 anos, João estava no fundo. Tinha nas mãos uma licenciatura e um mestrado concluídos em Bioquímica e na cabeça um amontoado de pensamentos desordenados como papéis que nada lhe diziam. Tal como muitos jovens, sentiu uma “pressão social para seguir o ensino superior”.

Quando escolheu o curso “foi porque sim, sem ter de pensar muito”, mas “não tinha maturidade nenhuma para entender a decisão que estava a tomar”. João Amorim ainda não sabia bem o que queria, mas sabia perfeitamente o que não queria quando começou a estagiar num sítio que não gostava: “achava que ia ser um daqueles gajos que vemos na rua a arrumar carros”.

Foi por isso que decidiu trabalhar dois meses numa serralharia e outros tantos numa vidraria. O mais velho de quatro irmãos saia de casa, em São João da Madeira, às 7h e só chegava às 22h. “Uma hora enfiado num laboratório era pior do que 12 horas a trabalhar ali”, mas continuava a sentir-se “diferente”. E não era num bom sentido, contextualiza: “Estava completamente perdido e bati mesmo no fundo, quando me apercebi da decisão que tinha tomado cinco anos antes. De repente, nada fazia sentido. Não sei se tive uma depressão, mas acho que posso ter estado muito perto disso. Foi uma batalha comigo mesmo”.

João começou “a detestar tudo aquilo que fazia”. Enquanto os amigos traçavam objetivos profissionais, ele “não pensava em nada disso”. Os pais “percebiam que não estava bem”, mas ainda assim não lhes disse nada quando, por acaso, se esbarrou com o sonho enquanto navegava na internet.

“Conheci a associação Gap Year Portugal, que estava a fazer um concurso — atualmente promovido todos os anos — em que é possível participar com um projeto, destinado a uma ou duas pessoas, para um ano sabático. Vi o anúncio, falei com a minha namorada e decidimos participar em conjunto”. Tamára Brandão partilhava com ele o sonho de viajar pelo mundo e de fazer voluntariado.

Tinham-se conhecido há um ano porque, em casa do João, uma das irmãs “tinha uma veneração enorme por uma tal monitora que trabalhava num campo de férias”. Ele “só ouvia falar da Tamára, Tamára, Tamára e então quis descobrir quem era”. Encontrou uma personalidade forte, determinada o suficiente para lhe dar o alento necessário para ficar horas e horas a pesquisar e a planear a viagem das suas vidas. “Nunca pensei que fôssemos ganhar. Achava que era muito difícil, mas a Tamára sempre acreditou”, lembra o jovem, que juntamente com a companheira venceu a primeira edição do concurso Gap Year, quando lhes foi atribuída uma bolsa no valor de 6500 euros que deu asas ao projeto “Follow the Sun” com o qual se candidataram.

“O nosso objetivo era começar no Brasil, no estado do Rio Grande do Sul, passar por Uruguai, Argentina e Chile, para depois subir todo o continente pelo Pacífico até ao México, sempre a seguir o sol, porque, enquanto subíamos o continente, o verão subia connosco. De lá iríamos para Nova Iorque, onde apanharíamos o voo de regresso a casa”. A rota para o sonho tinha sido meticulosamente traçada por João e estava na hora de fazer a mochila, onde nunca falta a máquina fotográfica. “A minha mãe ficou a olhar para mim e perguntou se eu tinha dito alguma coisa ao meu pai. Não, eu não lhe tinha contado nada. Foi aí que ela me disse: ‘Estás lixado!”

O instinto de mãe não falhou. “Acho que ele ficou chateado por eu não lhe ter dito nada e porque pensava que eu ia com a Tamára passear e dar beijinhos pelo mundo. Expliquei-lhe que, se eu quisesse estar só a namorar, muito melhor e mais confortável ficava em casa”, conta João Amorim, entre risos.

“Era uma risota, ainda apanhei dois terramotos enquanto estava a dar aulas”

“Só passado um mês é que te apercebes de que estás em viagem”, afirma João Amorim. O périplo levou-os, quase sempre de autocarro, a passar por Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua ou Guatemala, com paragens para três missões de voluntariado: ajudaram, na Cidade do Panamá, a montar um festival de música meditativa da selva e, no Peru, participaram das cerimónias anuais em honra da deusa indígena Pachamama (Mãe Terra), na aldeia de Pacchanta, em que as pessoas “têm tão pouco, mas são brutalmente felizes, de uma forma tão pura”.

O mesmo puderam verificar aquando da passagem pelo Equador, na pequena vila piscatória de Puerto López. “Ensinámos, durante um mês, crianças dos 5 aos 10 anos a falar inglês, enquanto brincávamos com elas lá na escola”, recorda o aventureiro. Pelo meio, tinham de arranjar dinheiro. Procuraram emprego. “Tivemos a ideia de fazer saladas de fruta e vendê-las na praia. Fizemos muito dinheiro assim”, confidencia o viajante, que, a troco de 10 dólares por hora, também começou a lecionar o idioma de Shakespeare para adultos. “Era uma risota, ainda apanhei dois terramotos enquanto estava a dar aulas”, lembra João Amorim.

João Amorim

A aprendizagem em viagem é constante e em cada pessoa — cada outro diferente na sua igualdade — pode habitar uma lição. O primeiro choque cultural ocorreu na Bolívia. “As pessoas eram todas indígenas. As roupas, os cheiros, tudo era estranho”, descreve o mentor do blogue “Follow the Sun”.

“O primeiro impulso é julgar, dizer que é feio ou bonito, certo ou errado, está bem, está mal. Lembro-me de estar num mercado e pensar: ‘Hey, que nojo, que sujo’”. E, subitamente, João deu conta: “Espera lá… Eu sou o único diferente aqui. Eles são todos iguais. A única pessoa que está mal aqui sou eu. Isso esbateu os preconceitos, porque até aí não conseguia perceber como é que dez pessoas conseguiam viver bem num barraco com uma única divisão”.

João Amorim

"Já estive no lodo e consegui sair. Tenho humildade para reconhecer que um dia vou voltar a estar, porque a vida é mesmo assim: é feita de ciclos"

Ao longo da jornada, tudo se alterava, até mesmo o relacionamento de João e Tamára. “Mudou-nos aos dois. Costumo dizer que viajar pelo mundo durante oito meses equivale a 20 anos de casamento”, brinca o blogger que, após o regresso a Portugal, fez do sonho um modo de (ganhar a) vida.

É atualmente embaixador da Gap Year Portugal — com mais de 200 palestras realizadas em escolas secundárias de todo o país — e líder de viagens na agência Landescape, responsável por expedições ao Peru, Guatemala, Colômbia e, em breve, também a Islândia, país onde esteve há um ano, se juntará à lista. “Nunca desejei ir a Paris ou a Roma, o que eu gosto mesmo é de levar outras pessoas aos locais onde eu já estive e de partilhar com elas experiências pelas quais eu já passei”, afiança.

“A pergunta que mais me colocam é se vou fazer isto para sempre. ‘Como é que vai ser quando quiseres casar e constituir família?’ Sei que talvez isso venha a ser uma preocupação, mas estou tranquilo. Eu já estive no lodo e consegui sair. Tenho humildade para reconhecer que um dia vou voltar a estar, porque a vida é mesmo assim: é feita de ciclos.”, diz João Amorim, que em abril viajou para o Sri Lanka, onde pairava um medo instalado, ainda a quente, após os atentados perpetrados na Páscoa.

João Amorim voou para o Sri Lanka um dia após os atentados bombistas ocorridos no domingo de Páscoa

João Amorim voou para o Sri Lanka um dia após os atentados bombistas ocorridos no domingo de Páscoa

João Amorim

A população católica assustava-se e ficava confundida com a presença do português. Examinavam a barba e concluiam que só podia ser judeu. O amigo que com ele ia, o Rui, era por certo muçulmano. Tinha ar de iraniano. Não percebiam o que levaria alguém a viajar para um país — diziam-lhes num tom de alerta — cheio de “big problems, bombs, big problems booooooombs, biiiiig problems”.

Mas nada consegue deter a vontade de João, até porque, salienta, “a maior parte das coisas negativas sobre um país são ditas por pessoas que nunca lá estiveram”, retrato que também lhe pintaram quando decidiu ir a Cuba em dezembro do ano passado. “Se vi ruas sujas? Vi. Se gostava de viver lá? Talvez não. Também vi casas sem janelas e sem portas, mas se alguém der dinheiro a um cubano — que são um povo super vaidoso —, ele não iria pôr portas na casa. Não precisam, porque ninguém lhes rouba nada. É muito quente. Eles não querem portas nem janelas e iriam sempre preferir comprar correntes de ouro ou sapatilhas de marca”, enquadra o viajante profissional, com mais de 30 mil seguidores no Instagram e 9 mil no Facebook — plataformas é possível acompanhar todos os passos do projeto "Follow The Sun".

João Amorim

Quando estiver a terminar de ler este texto, João Amorim estará a voar para a Colômbia, para onde ruma esta sexta-feira com um grupo de 12 pessoas, durante 21 dias. “Vai ser o fim do mundo, porque é exigente e vão ter o azar de ir com um maluco como eu”, adianta em tom de brincadeira, animado com a mais séria das certezas: “sei que vou regressar a casa com 12 amigos novos”.