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Este casal já visitou mais de 90 países. Agora vai dar a volta ao mundo

Carla Mota e Rui Pinto são dois viajantes que já passaram por mais de 90 países. Agora, quinhentos anos depois de Fernão Magalhães, é hora de pegar na mochila, sempre pronta, para partir numa odisseia de volta ao mundo

Carla Mota e Rui Pinto na Islândia

D.R.

“A mochila está sempre pronta. Quando surge uma hipótese, lá vamos nós”. Quem o diz é Carla Mota. Geógrafa, investigadora, professora, mas, mais do que tudo, viajante desde que se lembra de ser gente. Juntamente com o companheiro, Rui Pinto, já calcorreou mais de 90 países, desde a Islândia à Antártida, do Equador ao Japão. De carro, foram de Portugal até à Mongólia. Há 13 anos que fazem do mundo uma estação de serviço. É vida é, para eles, um voo constante.

Conheceram-se num clássico interrail pela Europa. Logo se seguiu uma odisseia na Índia, um “teste de fogo” nas palavras de Rui, também ele professor. Ambos passaram. E, desde então, nunca mais pararam. “É um vício”, confessa, ao Vida Extra, a aventureira, nascida há 44 anos em São João da Madeira.

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“É espetacular passar o tempo todo com a mochila às costas. Acontece, muitas vezes, estar a fazer a viagem de regresso e já estar a pensar no próximo destino”, conta Carla. Esta quarta-feira parte novamente para a Gronelândia. Por lá ficará durante duas semanas, até se encontrar, no dia 25 de julho, com Rui no local combinado: Istambul. A antiga capital do Império Bizantino é o ponto de partida para a conquista do Oriente, numa epopeia à volta do mundo, em que os capítulos serão contados, ao longo de 14 meses, no blogue “Viajar Entre Viagens”.

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A expedição, intitulada “Descobrir o Mundo com o Coração", servirá para explorar, mais a fundo, a cultura e as paisagens da Oceânia e das Ilhas do Pacífico, com passagens asseguradas pela Austrália, Filipinas, Nova Zelândia, Indonésia ou Papua Nova Guiné. Quinhentos anos depois de Fernão Magalhães, o casal de professores — com licença sem vencimento durante um ano — pretende ensinar a tolerância nos quatro cantos do globo, bem como alertar para as consequências das alterações climáticas. “As pessoas com que nos cruzamos é que enriquecem as experiências”, garante Carla Mota. E, por isso, nada melhor do que viver com elas, como irá acontecer nas ilhas de Java, Sulawesi, Molucas e Papua.

“Escolhemos quatro povos da Indonésia, que simbolizam a ligação aos quatro elementos da natureza, com os quais iremos conviver”, adianta Rui Pinto. “Um deles é uma tribo que tem a tradição de manter os parentes mortos em casa durante bastante tempo, porque muitas famílias não têm meios para os sepultar. Tratam-nos como se estivessem vivos. Sentam-nos à mesa, penteiam-nos e vestem-nos todos os dias”, explica o viajante de 43 anos. “O mais importante”, complementa a mulher, “é ter uma mente aberta e não fazer julgamentos”. Tal como aconteceu no Egito, em 2011, quando a primavera árabe desabrochava.

“Estávamos num oásis, perto da fronteira com a Líbia, onde vimos mulheres mutiladas e queimadas com ácido por crimes de honra. Só essas é que andavam com o rosto destapado, para que as outras vissem que elas tinham feito algo de errado”, recorda Carla Mota.

Egito, 2011

Egito, 2011

O périplo de regresso levá-los-á, antes da chegada à Amazónia, aos arquipélagos de Vanuatu, Fiji e Polinésia Francesa, mas também a lugares que podem deixar de existir, como Tuvalu e Kiribati. “São locais que podem ter os dias contados. Como estou ligada ao tema das alterações climáticas, tinha muito interesse em conhecer alguns desses países”, contextualiza a investigadora de glaciares na Universidade de Coimbra.

A viagem terá um custo superior a 30 mil euros, mas o projeto conta com uma bolsa de exploração atribuída pela Nomad e pela Momondo no valor de 4 mil euros.