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O iate de luxo que oferece uma “viagem imersiva ao fundo do mar” esteve pela primeira vez em Lisboa

Cuidado: o Le Bougainville tem um “olho azul” que é na verdade uma experiência subaquática que pode provocar dependência. Se se sentar numa das salas, o seu corpo vai começar a vibrar suavemente. Depois ficará rodeado de organismos gelatinosos quase transparentes e monstros marinhos com 18 metros, que emitem curtos pulsos sonoros, ecoando por todo o lado. Mas não entre em pânico: a experiência é divertida e vai querer repeti-la

Jaime Figueiredo

Jaime Figueiredo

Coordenador-Geral de Infografia

Por dentro do Le Bougainville, o iate de ultraluxo que esteve pela primeira vez em Lisboa

Se nunca se aventurou numas férias em alto mar, esta poderá ser uma oportunidade de entrar com grande classe no mundo dos cruzeiros. A companhia de bandeira francesa Ponant (significa “Ocidente” em latim), que realiza expedições nos quatro cantos do mundo, trouxe a Lisboa pela primeira vez em junho o seu novo iate de luxo, o Le Bougainville, batizado em homenagem a Louis-Antoine de Bougainville, um almirante e explorador francês do século XVIII.

Neste iate de linhas sóbrias e elegantes pode assistir a uma experiência imersiva onde se descobre a fauna, flora e culturas remotas com um certo savoir-faire gaulês que faz a diferença.

Jaime Figueiredo

Um olho azul

Escuro e íntimo, o Blue Eye é um lugar extraordinário que promete uma experiência imersiva e sensorial do mundo subaquático. O espaço curvilíneo localizado no deck 0, mesmo por cima da quilha do navio, tem duas janelas (1,6 metros por 3,4 metros) em forma de olho de cetáceo que permitem aos passageiros a observação da vida marinha no fundo mar.

Além das janelas com múltiplas camadas de vidro entre a sala e a água lá fora, três câmaras instaladas no casco transmitem em direto imagens subaquáticas e o som, captado num raio de cinco quilómetros em volta do navio. A experiência sensorial fica completa através de sofás, com colunas embutidas, que vibram suavemente para transmitir a “ressonância corporal” dos sons, permitindo aos passageiros ouvir com o corpo.

Este espaço, também existente nos navios gémeos Lapérouse e Le Champlai, foi desenhado por Jacques Rougerie, um arquiteto apaixonado pelo mar, enquanto o compositor e especialista em som Michel Redolfi foi responsável pelos efeitos sonoros.

Acima do nível do mar, as mordomias vão da proa à ré, desde as acomodações às áreas de lazer e refeições. Os interiores são modernos, elegantes e algo minimalistas, decorados em tons sóbrios, bege, cinza, castanho ou azul, pelo designer francês Jean-Philippe Nuel. Vamos começar a visita pelo topo.

Jaime Figueiredo

O spa, localizado no deck 7, tem uma sauna que mais parece uma cápsula espacial forrada de cedro, com uma enorme janela para o mar, banho turco e salas de tratamento. Ao lado, uma pequena área para quem quer manter a forma, com bicicletas e passadeiras de corrida.

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Um deck a baixo, a sala de observação na proa do navio, com janelas de alto a baixo, permitem uma vista de 180 graus. A sala tem cadeiras confortáveis, implorando para serem ocupadas, um bar e uma estante com vários livros de viagens.

A Ponant oferece uma experiência única e distinta a todos os passageiros, com um conceito de viagem íntima. Os passageiros são livres de escolher o tipo de viagem, se preferem os momentos de descanso ou optar por passeios em barcos semi-rígidos Zodiac e visitas à costa. A sala de observação é o local onde normalmente se juntam os passageiros mais aventureiros, com especialistas da National Geographic e o capitão, para juntos decidirem as atividades dos dias seguintes.

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Ainda no mesmo piso, no centro do navio, encontra uma galeria de arte, dedicada principalmente à vela e navegação. Aqui também pode ver as fotografias que foram tiradas durante a viagem ou simplesmente usar os computadores: o Wi-Fi é gratuito.

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Mais abaixo, o restaurante principal, Le Nautilus, é um prelúdio para ementas requintadas com propostas francesas servidas em loiça de porcelana RAK. A Ponant oferece uma experiência completa na “art de vivre à la française”. Pães e croissants da Maison Lenôtre, chás do Palais des Thés, champanhe Veuve & Clicquot fazem parte do dia a dia do cruzeiro.

Os luxos desta embarcação, com 127 metros de comprimentos e capacidade para 184 passageiros e 110 tripulantes, não se fica por aqui.

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Todos os 92 luxuosos quartos possuem varanda, ar condicionado, cama king-size ou duas camas de solteiro, mini bar (todas as bebidas estão incluídas no preço da viagem), máquina Nespresso, televisão e iPod para uso a bordo. As casas de banho têm chuveiro e produtos de higiene Hermès. Um vidro que vai do chão ao teto, com uma veneziana deslizante, separa a casa de banho do quarto. Assim, se quiser pode estar a tomar duche e a ver o mar.

As quatro Grand Deluxe Suítes com 45 metros quadrados tem a acrescentar uma enorme varanda virada para a popa, sala com sofá e casa de banho com duche e banheira de hidromassagem.

A entrada principal do navio leva ao deck 3, com a receção, balcão de excursões e uma loja. Aqui é recebido no dia do embarque, pelo comandante Jean-Edouard Perrot. Ainda no deck 3, mas na proa, está o teatro de 188 lugares. Aqui pode assistir a espetáculos propostos pela Ponant, filmes ou conferências.

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Movendo-se em direção à popa, chega ao salão principal, com cadeiras estilo “nórdico” distribuídas por um ambiente intimista onde pode ouvir piano, música ao vivo ou apreciar simplesmente uma bebida.

A partir do salão principal, entra na área da piscina, onde há um bar à esquerda e o restaurante Grill à direita, com capacidade para 70 pessoas, onde se servem refeições leves. Existem ainda sofás nos dois extremos da popa do convés, que dão a sensação de estarem suspensos sobre o mar e uma pequena (é mesmo muito pequena) piscina infinita com sistema de natação contra-corrente.

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O convés abaixo leva à marina, uma plataforma que pode ter várias posições. Uma delas é ficar em escada para os passageiros poderem entrar na água e nadar, andar de caiaque ou praticar paddleboarding. Quando a escada recolhe, a plataforma transforma-se em cais para poder mergulhar ou embarcar nos semi-rígidos.

Para assinalar a passagem por Lisboa do Le Bougainville, o porto de Lisboa e a agência James Rawes presentearam o comandante com a habitual troca de placas comemorativas da ocasião. Mas a mensagem de boas-vindas e de hospitalidade por parte do porto não ficou por aqui. Ao fim do dia, quando saiu do Terminal de Cruzeiros, o navio tinha à sua espera o rebocador Svitzer Leixões devidamente embandeirado com 40 bandeiras do Código Internacional de Sinais colocadas da proa à popa, passando pelo topo. Depois de vários fazer vários “peões”, escoltou-o até à ponte 25 de Abril, onde o Le Bougainville continuou, rumando ao Mediterrâneo.

A história ajuda ao encanto das expedições. As tentativas de encontrar uma passagem marítima entre o Atlântico e o Pacífico através do Ártico tiveram início no final do século XV. Teoricamente, encontrar e cruzar a Passagem do Noroeste talvez tenha parecido algo simples. Mas na prática, as condições inóspitas do Ártico tornavam o empreendimento muito mais difícil do que se poderia imaginar na época. O gelo era o maior obstáculo, que tanto flutuava e se movia, permitindo a passagem de navios, como se fechava, aprisionando ou esmagando navios e tripulações.

Após várias tentativas fracassadas, muitas envolvendo desastres e perda de várias vidas, a Passagem do Noroeste foi finalmente navegada com êxito de 1903 a 1906 pelo explorador norueguês Roald Amundsen. O jovem Amundsen, com uma pequena tripulação de seis noruegueses, deixou Christiania (atual Oslo, Noruega) num barco de pesca, o Gjöa, no dia 16 de junho de 1903.

Seguiram para a costa oeste da Gronelândia, através da baía de Baffin e depois para a Ilha do Rei Guilherme, onde passaram aproximadamente dois anos conduzindo experiências científicas e fazendo uma expedição de trenó de quase 1300 quilómetros em regiões desconhecidas. O Gjöa finalmente deixou a Ilha do Rei Guilherme no dia 13 de agosto de 1905 e rumou para oeste, antes de parar durante o inverno em King Point, na costa norte do território de Yukon, no Canadá. No seu terceiro inverno no Ártico, Amundsen e a sua tripulação iniciaram o troço final no dia 2 de julho de 1906. Chegaram a Nome, no Alasca, no dia 31 de agosto, completando a primeira navegação com êxito pela Passagem do Noroeste.

Décadas mais tarde, em 1988, Jean-Emmanuel Sauvée, um jovem oficial da Marinha Mercante e entusiasta de viagens, decidiu realizar o seu sonho criando um conceito inovador, apresentando a arte de viajar por locais remotos na mais fina tradição francesa, e assim nasceu a Ponant. Em 2013, o navio Le Soleal repetiu a façanha de Amundsen e tornou-se o primeiro paquete francês a atravessar a Passagem do Noroeste. O navio partiu de Kangerlussuaq na Gronelândia a 26 de agosto de 2013 e chegou a Anadyr, na Rússia, a 16 de setembro de 2013.

Jaime Figueiredo

Para quem gosta de aventura e natureza nas viagens, a Ponant oferece expedições inovadoras em destinos como Ártico, Antártida, Oceânia, América Latina e Caraíbas.

A companhia francesa e a National Geographic lançaram este ano uma parceria única a bordo dos seus navios de expedição. Estão previstos e programados 130 itinerários com destino a alguns dos locais mais remotos do planeta, onde especialistas da National Geographic, como fotógrafos, biólogos marinhos, historiadores e antropólogos, farão o acompanhamento a bordo e em terra, partilhando o seu conhecimento com os passageiros.

Estes cruzeiros em parceria com a National Geographic apresentam preços a começar, por exemplo, nos € 8.060 por pessoa, num cruzeiro de 13 dias pelo Ártico, com partida de Juneau, Alasca a 10 de julho de 2020. Para uma expedição de 16 dias pelo Circulo Polar Antártico, com partida a 14 de novembro de 2019, os preços começam nos € 11.090 por pessoa. Se não quiser ir tão longe e ter a comodidade de sair diretamente de Lisboa, pode optar por ir sete dias até Barcelona, com partida a 7 de outubro, preços a começar nos € 3.630.

A Ponant é líder no segmento de cruzeiros de expedições com 16,2% do mercado, mas a concorrência é grande e está em rápido crescimento. Entre 2019 e 2023, 41 novos navios de expedição serão entregues a 17 operadores de cruzeiros, introduzindo mais de 8500 camas no mercado, dobrando assim a capacidade de 2018, segundo dados da revista Expedition Market Report 2019 da Cruise Industry News.

Companhias de cruzeiro como a Crystal Cruises, Hapag Lloyd, Hurtigruten, Seabourn Silversea, anunciaram planos para construir navios de cruzeiro de expedição, mas não são só as grandes companhias a disputar este pequeno nicho de mercado: há novos participantes nesta corrida.

O empresário Mário Ferreira, dono da Douro Azul, também apostou nas viagens de expedições na Antártida e no Ártico. O World Explorer, cuja construção está na reta final nos estaleiros da West Sea, em Viana do Castelo, é o primeiro de três navios oceânicos que o empresário vai lançar ao mar até 2021. No mundo dos cruzeiros há uma nova tendência que parece ter vindo para ficar.

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