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Curiosidade ou desrespeito? Boom turístico em Chernobyl não pára de crescer — tudo por causa de uma série

Chama-se “dark tourism” (turismo negro, em português) e parece estar a ganhar força em vários locais de conflito ou desastre. Chernobyl é um dos mais recentes e mais badalados

Visitante fotografa máscaras de gás na antiga base do exército soviético, em Chernobil

VALENTYN OGIRENKO

O fenómeno não é completamente novo, nem Chernobyl ficou isenta de turistas desde que se tornou sinónimo do maior desastre nuclear da história do mundo, a 26 de abril de 1986. Mas o que aconteceu nos últimos meses não tem paralelo com nenhum outro momento: a série com o mesmo nome, da HBO, entre o documental e o ficcional, fez crescer o interesse dos potenciais visitantes que, segundo algumas agências citadas pela agência Reuters, aumentaram em 40%.

Desde que, em 2011, foi criada a Zona de Exclusão de Chernobyl, em Pripyat, onde moravam muitos dos trabalhadores da central nuclear, que se organizam tours históricas, mas agora “muitas pessoas vêm aqui e fazem perguntas sobre a série televisiva, sobre todos os acontecimentos”, conta Viktoria Brozhko, agente turística, também à Reuters.

Por isso, se em 2013 o número de visitantes ascendiam a cerca de oito mil ao ano e em 2018 estava já nos 65 mil, segundo a agência Gamma Travel, este ano deve explodir. Alexandra Chalenko, responsável da agência, diz, citada pelo jornal Independent, que a expectativa é chegar aos 100 mil visitantes em 2019.

Sobre os alegados riscos de segurança, Viktoria Brozhko diz que “na zona de exclusão, está-se exposto a dois microsieverts [Sievert é a unidade que mede os efeitos biológicos da radiação], o que equivale à quantidade de radiação que teríamos se ficássemos em casa durante 24 horas.”

Uma selfie junto ao porto de Pripyat, cidade abandonada, perto da central de Chernobyl

Uma selfie junto ao porto de Pripyat, cidade abandonada, perto da central de Chernobyl

VALENTYN OGIRENKO

A série de cinco episódios produzida pela HBO e Sky estreou de forma discreta, longe dos holofotes mediáticos de outras apostas da plataforma, mas isso não travou o caminho para o sucesso. Os espectadores estão a seguir a transmissão de “Chernobyl” de perto e têm votado em massa na produção europeia. Na plataforma IMDb, “Chernobyl” tem uma classificação de 9,7 em 10 (57.365 votos), acima de séries como a épica “A Guerra dos Tronos” — com 9,4 em 10 (1.525.724 votos) — ou “Breaking Bad”, com 9,5 em 10 (1.201.719). Tem sido por isso apelidada por alguns como “a melhor série de sempre”.

Curiosidade ou desrespeito?

A questão do chamado “dark tourism” (turismo negro, em português) tem sido levantada com a necessidade de um equilíbrio entre a curiosidade histórica (teoricamente útil para manter a memória e não repetir erros) e a sensibilidade e respeito devidos. O problema deu-se há uns meses em Auschwitz, que implorou para que os turistas parassem de tirar selfies e de posar como modelos fotográficos sobre os carris. “Quando vier a Auschwitz, lembre-se que está num lugar onde foram assassinadas mais de um milhão de pessoas. Respeite a sua memória”, pediram os responsáveis do museu, em comunicado.

Turista tira uma selfie junto a um autocarro abandonado durante uma tour em Chernobyl (Ucrânia, 7 de junho de 2019)

Turista tira uma selfie junto a um autocarro abandonado durante uma tour em Chernobyl (Ucrânia, 7 de junho de 2019)

SERGEY DOLZHENKO

O criador de “Chernobyl”, Craig Main, já fez o mesmo, pedindo que os visitantes pensem primeiro no local onde se encontram e depois nas partilhas nas redes sociais. “É maravilhoso que 'Chernobyl' tenha inspirado uma onda de turismo na Zona de Exclusão. Mas sim, vi as fotos que têm vindo a circular. Se visitar, lembre-se que ali aconteceu uma terrível tragédia. Comporte-se com respeito por todos os que sofreram e se sacrificaram”, escreveu no Twitter.

Se estiver interessado em Chernobyl e na complexidade do que se seguiu ao desastre, há agências a promover tours aprofundados, como a Atlas Obscura. São 11 dias entre “Ucrânia, Moldávia, uma região historicamente conhecida como Bessarabia, uma das regiões mais fascinantes — e drasticamente subestimada — da Europa”. Para visitas menores, de um dia, por exemplo, um grupo de conservação da Bielorrússia chamado APB-Birdlife Belarus oferece tours focadas na vida selvagem da parte bielorrussa de Chernobyl.

Visitantes fotografam uma raposa na cidade abandonada de Pripyat, perto da central de Chernobyl

Visitantes fotografam uma raposa na cidade abandonada de Pripyat, perto da central de Chernobyl

VALENTYN OGIRENKO

Este ano, entrevistámos Stellan Skarsgård, um dos protagonistas de “Chernobyl”.

Também este ano, estivemos numa das ruas mais populares do Instagram, essa em Paris, onde os moradores estão cansados — já só querem fechá-la.

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