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Vida Extra

“Depois dos artistas do paleolítico ninguém inventou mais nada”: o que Picasso disse e o que Foz Coa mostra

A arte rupestre do Vale do Coa, um dos maiores tesouros de Portugal, parece caminhar finalmente para um futuro mais tranquilo. Saiba as novidades e aproveite as dicas para um fim de semana rodeado de arte com 20 mil anos

Carlos Paes

Carlos Paes

Grafismo animado

Ribeira de Piscos

Rocha 1 Os famosos cavalos enlaçados, que com uma assinalável economia de traços retratam uma cena carinhosa
Rocha 2 Uma das rochas mais icónicas do Coa, onde está o denominado ‘Homem de Piscos’, gravado com traço filiforme - uma incisão muito fina, difícil de ver. Na mesma rocha uma figuração de auroque, mais percetível por ser gravada com uma incisão mais profunda
Banda sonora A música dos três vídeos deste trabalho foi gravada no interior de uma gruta espanhola com gravuras paleolíticas, usando instrumentos há muito esquecidos e tentando recriar o som que teria a música feita por estes nossos antepassados. Para saber mais clique AQUI.

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Em dezembro passado, no ano em que se celebrou o 20º aniversário da classificação do Vale do Coa como Património Mundial, Bruno Navarro, presidente da Fundação Coa Parque, afirmava ao ‘Jornal de Notícias’ que o Governo retirou “a corda do pescoço da fundação” e as receitas próprias deverão atingir em 2022 o meio milhão de euros, valor que dará para “cobrir todas as responsabilidades inerentes aos vencimentos dos funcionários”.

Será mesmo desta que vão acabar os anos negros de falta de financiamento, que levou até à penhora da loja do museu?

Em mais de duas décadas não faltaram propostas para divulgar as gravuras, mas nunca houve vontade política para as pôr em prática. Recorde-se o muito falado, mas nunca construído, embarcadouro junto à foz do rio Coa, que ficaria à distância de uma curta caminhada até ao museu para os milhares de turistas que fazem passeios turísticos no Douro; recorde-se a proposta para reativar a antiga estação de comboios de Foz Coa, que, tal como o embarcadouro, fica próximo do museu; recorde-se a ideia de abrir mais núcleos de gravuras e assim aumentar a capacidade de receber visitantes.

MAS PASSEMOS ÀS GRAVURAS RUPESTRES, O MAIS IMPORTANTE DESTA HISTÓRIA

As gravuras não são fáceis de distinguir nas grandes rochas de xisto onde foram desenhadas. Há muitos traços sobrepostos, algumas figuras estão incompletas e os líquenes camuflaram muitas outras. Mas quando as conseguimos ver — com a ajuda da caninha com que o guia nos aponta os seus contornos — ficamos maravilhados. Desde logo pela sua perfeição, pela sua graciosidade e, claro, pelo mistério que encerram.

Muitas das gravuras aparecem sobrepostas, o que dificulta a perceção dos diferentes desenhos. Mas quando os isolamos, a perfeição dos seus traços salta à vista

Muitas das gravuras aparecem sobrepostas, o que dificulta a perceção dos diferentes desenhos. Mas quando os isolamos, a perfeição dos seus traços salta à vista

Mas afinal o que levou homens de há 20 mil anos, que até apelidamos de primitivos, a revelarem uma tão grande capacidade artística? Ao tentarmos imaginar estes longínquos antepassados, somos tentados a pensar que só uma rudimentar capacidade intelectual os distinguia dos outros animais, mas não é bem assim — e a arte do Coa comprova-o. E talvez o maior exemplo da sofisticação desta arte sejam as várias gravuras a que os artistas procuraram dar uma ilusão de movimento — como dizia em 2012 ao jornal 'Público' Martinho Baptista, à época diretor do Parque Arqueológico do Vale do Coa (PAVC), os arqueólogos já “iam dizendo, a brincar, que o cinema nasceu em Foz Coa”.

No núcleo da Penascosa há uma gravura icónica desta pré-história cinematográfica: ‘filma’ um cavalo em pleno ato sexual e é uma autêntica figura animada, pois as três cabeças com que o cavalo está representado dão-nos claramente a ilusão do movimento dessa cena.

Núcleo da Penascosa

Rocha 3 Num painel com 11 figuras diferentes sobrepostas destacamos duas: um macho de cabra-montês ibérica, com os característicos cornos longos e torcidos e um auroque, em que uma das cabeças se perdeu por degradação da rocha e onde foi desenhada outra, num curioso movimento de olhar para trás
Rocha 4 Numa rocha também com múltiplos desenhos, destacamos uma provável cena de acasalamento, onde podemos ver uma égua a ser montada por um cavalo com três pescoços/cabeças num claro movimento descendente

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Estes homens, apesar de nómadas, já tinham alguns ‘santuários’, aonde voltavam de tempos a tempos e onde expressavam, através dos seus desenhos, o que lhes ia na alma. Seria uma maneira de pedirem ajuda à sorte para caçarem o animal que representavam, ou seria uma forma de ‘postarem’ os seus troféus de caça, já que a quase totalidade das gravuras do Côa representam os animais base da sua alimentação – caprinos, equídeos, cervídeos e auroques (antepassados dos bois, mas mais corpulentos, chegando a pesar uma tonelada e meia)? Seria arte pela arte, para simples fruição? Seria uma maneira de marcarem um território próprio, que afastasse outros grupos? Seria já alguma forma de religião, algum pressentimento de algo transcendente?

Não sabemos, nem nunca saberemos – a menos que, algum dia, alguém consiga mesmo materializar uma máquina do tempo, para podermos comprovar o que hoje só podemos imaginar. E assim, temos de nos contentar com as, cada vez mais, peças que os cientistas que estudam o Côa vão acrescentando a este puzzle, para sempre incompleto.

UM GUIÃO PARA UM FILME DEPOIS DE VISITAR O MUSEU

O museu, depois de muitas peripécias em torno do projeto e do local onde devia ser criado, foi inaugurado em 2010, 14 anos depois da criação do Parque Arqueológico do Vale do Coa e é a antecâmara ideal para melhor entender os três núcleos visitáveis. As várias salas enquadram o que vamos ver no vale do Coa e são a síntese do que se sabe cientificamente daquelas pessoas, daquele tempo, daquelas terras.

É uma viagem que nos leva 25 mil anos atrás, pelo património do vale do Coa onde mais de mil rochas com desenhos já foram identificadas, sendo cerca de metade das gravuras paleolíticas.

E é já no terreno, enquanto descia de jipe para a visita ao núcleo da Penascosa, por sítios onde há milhares de anos vaguearam os nossos antepassados, que imaginei o guião de um filme — desculpem-me a introdução da primeira pessoa:

O filme começa com uma dúzia de homens, cobertos de peles, munidos de lanças e flechas com afiadas pontas de pedra lascada, tentando emboscar um grande auroque, que perseguiam há 15 dias. Conseguem encurralá-lo nuns penedos e matam-no. Não muito longe dali, um pequeno grupo de mulheres, crianças e idosos, mantém a fogueira acesa no tosco acampamento junto ao rio, onde costumam ficar quando andam por estas bandas.

Já têm pouca comida e anseiam pela vinda dos caçadores, que felizmente não vão tardar, carregados de carne que garantirá ao grupo a sobrevivência durante muitos dias. No ‘banquete’ que celebrará a captura, um dos caçadores lembrar-se-á de umas gravuras que tinha visto, ainda criança, numa gruta em terras muito a norte do Coa e nessa noite vai desenhar, num grande painel de xisto, o auroque que caçaram nesse dia.

Quando vê o resultado fica orgulhoso e confiante de que a sorte não o irá abandonar nas caçadas seguintes. Detém-se longos minutos a olhar para a gravura, intrigado, porque chega à conclusão que sentiu algo imaterial, poderoso, a impulsionar-lhe o braço quando arremessou a lança certeira ao coração do auroque.

No dia a seguir mostra à tribo a sua obra de arte, tenta explicar-lhes o que tinha sentido na noite anterior e, a partir desse primeiro desenho, aquela rocha será uma espécie de tóteme para a sua tribo, que lá gravará, ano após ano, os animais mais espetaculares das suas caçadas.

Cada um dos visitantes fará o seu filme – ou não – mas que a maioria sairá do Coa a tentar descortinar o mistério daquelas gravuras, parece-me garantido.

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Roteiro para um fim de semana - em passo acelerado

Um fim de semana basta para visitar o Museu do Coa e os três núcleos de gravuras abertos ao público. Aqui fica a sugestão de como gerir os dois dias

06 vídeo

Rocha 1 Na primeira rocha descoberta no vale do Coa, destacamos uma elegante cabra metade gravada em traço filiforme, metade em traço picotado – que resulta em sulcos mais profundos e consequentemente mais visíveis, obtidos por percussão com uma ponta de uma rocha mais dura
Rocha 14 Outra rocha icónica, que alberga a cabra escolhida para símbolo do PAVC, desenhada em traço filiforme e parte dianteira de um cavalo, em traço picotado

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As visitas são feitas através de marcação prévia e conduzidas por guias certificados. As marcações podem ser feitas de 2ª feira a domingo, pelo telefone 279 768 260. Os horários variam ligeiramente ao longo do ano e os preços contemplam várias situações. No site www.arte-coa.pt encontra toda a informação complementar.

Marque a visita ao Museu e à Canada do Inferno para sábado de manhã e a visita à Penascosa para sábado à tarde e/ou noite. No domingo dedique a manhã a visitar a Ribeira de Piscos. Com a tarde livre pode optar por voltar ao museu, para o explorar com mais tempo e com uma perspetiva diferente de quem já viu as gravuras nos seus sítios originais, ou pode aproveitar para passear nesta bonita região duriense. Em qualquer dos casos, marcar uma mesa para almoço num dos restaurantes da Foz do Sabor, que apresentam vários pratos de peixe do rio, é o conselho que deixamos para celebrar esta jornada em beleza.

Canada do Inferno — A visita tem um tempo estimado de 1h30/2h e a partir do sítio onde o jipe estaciona irá fazer uma caminhada circular de 800 metros – com alguns desníveis – onde terá a oportunidade de ver várias rochas gravadas, incluindo a primeira a ser descoberta, em 1992, por Nélson Rebanda. Destaque também para a rocha 14, onde está gravada a cabra escolhida para símbolo do Parque Arqueológico do Vale do Coa.

Penascosa — A visita tem um tempo estimado de 1h30. Terá de se deslocar pelos seus próprios meios até à aldeia de Castelo Melhor – que dista 15 quilómetros de Vila Nova de Foz Coa –, de onde o jipe o levará numa bonita descida panorâmica até à margem direita do Coa, onde estão as várias rochas gravadas. A meio do percurso vai ter uma paragem, onde pode fotografar ao longe a Quinta da Ervamoira, uma das mais bonitas da zona.

Chegado ao destino, terá de percorrer cerca de 600 metros, planos, para ver as várias rochas gravadas. É o núcleo onde se conseguem ver melhor — sem a ajuda do guia – várias gravuras e onde poderá apreciar a rara representação paleolítica de um peixe, que aproveita uma saliência na rocha para dar volume ao corpo. Na Penascosa destaca-se também a incrível imagem de um cavalo com três cabeças, que simula nitidamente o movimento durante um ato sexual. Se ficar enfeitiçado por este núcleo pode sempre voltar a visitá-lo à noite, altura em que as lanternas dos guias espalham uma luz rasante sobre as gravuras, que permite distinguir melhor algumas delas.

Ribeira de Piscos — A visita tem um tempo estimado de 2h30 e o jipe sai do museu. É o núcleo onde vai fazer a maior caminhada – 2,2 quilómetros com alguns desníveis – mas a natureza envolvente é tão bonita que dificilmente se vai cansar. Vai ter a oportunidade de ver várias rochas icónicas do Coa, onde se destaca o denominado ‘Homem de Piscos’, que segundo a informação do PAVC é “...a única representação antropomórfica paleolítica claramente identificada no nosso país”. É uma figura diferente, quase caricatural, que parece representar um orgasmo. A boca aberta, o pénis ereto, com uma cuidada representação da glande, de onde sai um traço que sugere uma ejaculação, são pormenores que poucas dúvidas deixam acerca do que o artista procurou retratar.

Os núcleos da Canado do Inferno e da Ribeira de Piscos podem ser apreciados a partir do rio Coa, em canoas que a fundação aluga. Os grupos podem ter um máximo de 18 canoístas, são acompanhados por guias habilitados e incluem uma cesta de produtos locais para fazer um piquenique nas margens do rio.

Recentemente também foram abertas as visitas aos núcleos a operadores privados que têm protocolos com a Fundação e que trabalham com guias certificados. Esta opção permite-lhe combinar programas à sua medida, que podem incluir alojamento, refeições e outros passeios na zona.

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As dúvidas sobre a datação das gravuras e o folhetim da suspensão da barragem

Os desenhos são mesmo paleolíticos? Constrói-se a barragem e afogam-se as gravuras? Trasladam-se para um museu?

A envolvência da Canada do Inferno – bem como a dos outros dois núcleos –, com o rio Côa mesmo ali, é uma mais valia que complementa o prazer de ver as gravuras nos sítios originais

A envolvência da Canada do Inferno – bem como a dos outros dois núcleos –, com o rio Côa mesmo ali, é uma mais valia que complementa o prazer de ver as gravuras nos sítios originais

Nem com a distinção da UNESCO, logo em 1998 — a considerar o Coa como a maior concentração mundial de arte rupestre paleolítica ao ar livre do mundo e, como tal, Património da Humanidade —, a polémica de parar a construção da barragem deixou de agitar o país. Quem não se recorda do slogan “As gravuras não sabem nadar!” entoado pelos que as queriam salvar, que se opunham aos que queriam a barragem construída?

Em 1995, o ‘Expresso’ noticiava uma iniciativa da EDP, que provava que os enormes blocos de xisto com gravuras, podiam ser arrancados dos seus sítios originais – assim poder-se-ia avançar com a construção da barragem

Em 1995, o ‘Expresso’ noticiava uma iniciativa da EDP, que provava que os enormes blocos de xisto com gravuras, podiam ser arrancados dos seus sítios originais – assim poder-se-ia avançar com a construção da barragem

Basta lembrar Miguel Sousa Tavares (MST), defensor da construção da barragem, que numa crónica publicada no Expresso, em julho de 2008, afirmava que a mesma “... fazia falta à EDP e fazia falta à regularização do curso navegável do Douro.” E prosseguia: “... nem a desfeita causada pela maior autoridade mundial [Alan Watchman] – que levado a ver uns tacanhos rabiscos numas pedras, sentenciou que o suposto Paleolítico teria entre trinta e trezentos anos – abalou o entusiasmo e a determinação dos então governantes em jurar que, a partir daí, o património cultural teria prioridade sobre tudo o resto.” Mas MST não esperou muito para ter a resposta de João Zilhão, na altura professor catedrático de Arqueologia Paleolítica na Universidade de Bristol, que também publicou um artigo de opinião no Expresso, em agosto de 2008. Nele, referia que a técnica usada por Watchman, a datação por radiocarbono, só tinha sido usada uma vez, experimentalmente, em gravuras rupestres num Parque Nacional canadiano e que “Wattcham nunca foi considerado (nem por si próprio) o maior perito mundial na matéria.”

Numa primeira fase a datação das gravuras foi feita essencialmente com base em questões estilísticas, pela similitude com outras da mesma altura espalhadas pelo mundo. Só que esse foi um método que, para muita gente, não provava com toda a certeza a sua autenticidade.

Mas em 1999, quando se iniciaram as escavações junto à rocha nº 1 do sítio do Fariseu, um painel submerso durante muitos anos, provas irrefutáveis viram à luz do dia. A rocha, com quase uma centena de desenhos, estava enterrada e as escavações efetuadas no solo confinante permitiram datar com carbono 14 muitos dos objetos encontrados nos vários extratos e, assim, chegar à conclusão que as gravuras da base daquele painel têm 18.000 anos. Dizia ao “Diário de Notícias”, em novembro de 2017, António Martinho Baptista, chefe de uma equipa de arqueólogos que estudou o achado: “... a rocha do Fariseu é única em todo o Vale do Coa onde existe uma relação direta entre as gravuras e as camadas arqueológicas que a selavam”. Não é pois de estranhar que a réplica da rocha do Fariseu, bem como os objetos encontrados nas escavações em seu redor, estejam em destaque no museu.

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Cronologia de um triste caso da política à portuguesa

Ou onde se pode perceber como os diferentes governos se preocuparam sempre mais em revogar as decisões dos anteriores do que em dar condições dignas ao Parque Arqueológico do Vale do Coa

1992 — Nelson Rebanda, arqueólogo nomeado pelo Instituto Português do Património Cultural, para o trabalho de campo no Vale do Coa, descobre a primeira rocha com gravuras

1992 — Arrancam as obras da barragem na foz do Coa

1994 — Os arqueólogos Mila Simões de Abreu e António Martinho Baptista visitam a região, a convite de Nelson Rebanda, e lançam uma campanha para parar a construção da barragem e salvar as gravuras. O Governo de Cavaco Silva, que terminaria o seu mandato em finais de 1995, é a favor da conclusão da barragem e da trasladação das gravuras

1995 — Proposta pela UNESCO a suspensão temporária das obras da barragem

1996 — Em janeiro é suspensa a construção da barragem pelo recém-empossado Governo de António Guterres, com Manuel Maria Carrilho como ministro da Cultura. Em agosto é criado o Parque Arqueológico do Vale do Coa

1998 — UNESCO atribui o estatuto de Património Mundial ao núcleo das gravuras rupestres

2002-2004 — Governo de Durão Barroso suspende a construção do museu no sítio onde estava projetado – em cima de uma parte das obras já executadas da barragem, o que tornaria mais difícil a hipótese de um dia se concluir a hidroelétrica – e propõe procurar-se uma nova localização, o que arrastou o processo por mais meia dúzia de anos

2010 — Inauguração do Museu do Coa, na sua nova localização, numa encosta com vistas para a foz do Coa e para o rio Douro

2011 — Em março, nos últimos dias do Governo de Sócrates, a Fundação Coa Parque assume a gestão do Parque Arqueológico e do Museu. Os membros fundadores – IGESPAR, Região Hidrográfica do Norte, Câmara de Foz Coa e Associação de Municípios do Vale do Coa – nunca se entenderam verdadeiramente e a fundação foi sempre subfinanciada

2017 — Em junho tomou posse uma nova equipa da Fundação Coa Parque, presidida pelo historiador Bruno Navarro, que passou também a contar com novos estatutos e novos parceiros

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