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Vida Extra

Fim de semana ‘low cost’ numa Madeira menos conhecida

Sabia que, partindo de Lisboa, um fim de semana na Madeira lhe pode ficar mais barato do que no Minho?

João Paulo Galacho

Vamos a contas:

– num fim de semana na Madeira, em meados de janeiro, o voo ficou-me em €60, o aluguer de carro em €24 e a gasolina em €30. Gastei €114;

– para ir de Lisboa a Valença e voltar, as portagens ficam em €63 e a gasolina em €85. Gasta-se €148.

No alojamento e nas refeições os preços são semelhantes.

Mas há mais: o voo demorou 1h45, a viagem de carro demora 4h. E claro, temos mais hipóteses de apanhar bom tempo no meio do Atlântico, a cerca de 600 km de África, do que no Minho. Em sentido contrário, na Madeira arriscamo-nos a apanhar magotes nos sítios mais conhecidos.

Por isso, este passeio contempla locais arredados do top 10 dos guias turísticos.

1º dia

CASCATAS, MAIS CASCATAS E UM TELEFÉRICO QUE DESCE A PIQUE

A Ponta do Sol marca o início do passeio, com um segredo que se esconde no fim da sua praia de calhaus. Atravessa-se o ribeiro que aqui desagua e caminha-se umas dezenas de metros junto à falésia — atenção que a maré cheia impossibilita a passagem — até chegar à Cascata da Praia da Ponta do Sol, cuja foto, que elegi como a mais bonita deste passeio, abre este trabalho.

O caminho segue pela velha Estrada Regional (ER) 101, através do túnel encimado pela esquadra da PSP da Ponta do Sol — que deve ser dos imóveis desta polícia com melhor vista —, em direção à Madalena do Mar. Andamos pouco mais de 1 km e avistamos outra cascata que despenha as suas águas... na estrada. Podemos ser tentados a dar uma chuveirada no carro, ou mesmo em nós, mas convém termos presente que com a água podem vir pedras ou pesticidas diluídos — não esquecer que as bananeiras são abundantemente regadas e que essas 'águas sujas' drenam muitas vezes para os cursos de água. Por isso, seja a pé seja de carro, o melhor é passar rápido.

Cascata da Praia da Ponta do Sol, Madeira

O próximo destino é o Paul do Mar, uma simpática localidade piscatória, que merece ser explorada a pé, com vagar. Deixe para o fim a visita ao porto de pesca onde o espera mais uma surpresa: outra cascata, junto aos barcos em doca seca. Mas não se fique por aqui. Avance no passadiço do porto e vai descobrir que a queda de água que viu é encimada por outras ainda mais espetaculares.

A hora de almoço aproxima-se e temos duas opções: ou comemos nos bares junto ao porto de pesca do Paul do Mar, ou voltamos à estrada — uma das mais bonitas da ilha — e seguimos a costa até à Ponta do Pargo, onde o restaurante O Farol, com uma agradável esplanada e as suas gulosas lapas, lulas e polvo, é uma opção a ter em conta.

O Farol da Ponta do Pargo e as falésias adjacentes, à distância de um pequeno túnel do restaurante, também merecem uma visita. E logo depois está na hora de seguirmos para mais uma... cascata, a da Garganta Funda, que aparece sinalizada na estrada, à saída do casario da Ponta do Pargo. Quando o alcatrão acaba, estacionamos o carro e fazemos uma caminhada de cerca de 500 metros em direção ao mar. Um pequeno miradouro proporciona a melhor vista sobre esta queda de água, que não fica a dever nada em espetacularidade às outras duas que já vimos neste dia.

Luís Freitas

Por esta altura o sol já vai alto, pelo que é melhor despacharmo-nos para visitarmos a Fajã de Achadas da Cruz dentro do horário do teleférico — em janeiro encerrava às 18h. Existe uma vereda do topo da falésia para a fajã, que pode ser uma opção para descer, mas para subir é mais sensato usar o teleférico. Até pela experiência de subirmos, quase a pique, naquela pequena cabina, que entre alguns solavancos e abanões nos leva até porto seguro.

Os férteis terrenos da fajã merecem uma visita atenta. Não mora lá ninguém em permanência, segundo me informou um senhor que desmatava a sua courela. E quando lhe perguntei quais eram os produtos que semeavam foi muito explícito: "Isto aqui dá tudo. Semente deitada à terra, é semente que germina. A terra é boa e não falta água. Faltam é pessoas para cultivar."

2º dia

ÁRVORES CENTENÁRIAS, UMA LAGOA E UMA FAJÃ COM... CASCATAS

No segundo dia o passeio inicia-se na Foz da Ribeira da Janela, onde apanhamos a panorâmica ER 209 em direção ao planalto do Paul da Serra. A área do Fanal, uma pequena caldeira vulcânica, é um verdadeiro ícone da Floresta Laurissilva, onde ainda resistem bosques centenários de Tis — uma espécie de árvore —, com alguns exemplares a remontarem a épocas anteriores à presença humana na ilha. É uma verdadeira viagem no tempo, a não perder.

Luís Freitas

Continuando no planalto, o destino seguinte é a zona do Rabaçal, mais conhecida por ser o ponto de partida do Percurso Pedestre das Levadas das 25 Fontes e do Risco (PR6). Pode estacionar o carro junto a muitos outros que com certeza lá estarão, dada a popularidade deste PR, mas o seu destino é outro: a Lagoa da Dona Beja.

Lagoa da Dona Beja

Em vez de descer para a Casa Abrigo do Rabaçal, vai caminhar numa vereda paralela à ER110 até encontrar a Levada do Paul, também conhecida como Levada do Alecrim, que canaliza água do enorme tanque que está do outro lado da estrada. Basta seguir no caminho que bordeja a levada, durante 3,4 km, para chegar à Lagoa da Dona Beja, sítio ideal para um refrescante mergulho. Conte no mínimo com 45 minutos para cada lado, pois não vai resistir a parar muitas vezes para contemplar ou fotografar a bonita paisagem que o rodeia. Afinal estamos em pleno coração do planalto madeirense.

Revigorados com o banho em águas límpidas, está na hora de rumar à costa norte, à Fajã da Rocha do Navio, perto de Santana. Sugiro que opte por outra das estradas mais bonitas da Ilha, a ER228, que vai da Encumeada até São Vicente e daqui percorrer a estrada marginal até às imediações de Santana, onde aparece sinalizado o caminho para o teleférico da Rocha do Navio.

Esta fajã é diferente da das Achadas da Cruz e começa logo no teleférico, que faz uma descida muito mais suave. Aqui, em vez de talhões hortícolas, veem-se sobretudo bananeiras e vinha e, com sorte, pode mesmo observar um lobo marinho — a foca mais rara do mundo — que por vezes vem descansar a esta praia. Não perca o curioso Lagar da Laje, incrustado na falésia, e, adivinhe... mais duas imponentes cascatas. Ornamentam as encostas a pique, quais gravatas brancas, que não vai resistir a fotografar logo das janelas da cabina do teleférico.

O dia já vai longo mas ainda não acabou. Aproveite a proximidade de Santana e rume ao Parque Florestal de Queimadas, onde além das curiosas Casa Abrigo, com os seus telhados de colmo, vai ter a oportunidade de ver bonitos exemplares de árvores exóticas — estas plantadas pelo homem — que, beneficiando do clima subtropical da ilha, atingiram portes descomunais.

Para terminar o fim de semana em beleza e quebrando a regra de visitar só sítios que não constam do top 10 dos guias turísticos, aconselho que se despeça da Madeira vendo o sol a pôr-se no Pico do Arieiro — antes de ir, consulte o site http://www.netmadeira.com/webcams-madeira/pico-do-arieiro onde uma câmara de vídeo lhe mostra se as nuvens não estão a cobrir o horizonte. Vai com certeza ter a companhia de muita gente, mas o local é suficientemente amplo para encontrar um cantinho só para si.

Mais e Menos

A medalha de ouro da Madeira...

A Floresta Laurissilva só sobreviveu às últimas glaciações na Macaronésia — ilhas da Madeira, dos Açores, das Canárias e de Cabo Verde — e é na Madeira que existe a maior área: cerca de 22 mil hectares. Em 1999 a UNESCO reconheceu esta riqueza e atribuiu a esta floresta a condição de Património Natural Mundial, galardão único em Portugal.

… e a de betão

Na Madeira vivem 260 mil pessoas, mais 10.000 do que nas nove ilhas dos Açores. Mas esta elevada densidade populacional só decorre do facto de, no Funchal e nos concelhos limítrofes de Câmara de Lobos e de Santa Cruz, viverem quase 200 mil pessoas.

A construção desenfreada na costa sul atulhou linhas de água, desmatou floresta nativa e teve consequências trágicas nas catástrofes que assolaram a ilha recentemente.

Não esqueço o testemunho de Cristina Ferreira, moradora nas encostas do Funchal, sobre o pavoroso incêndio de agosto de 2016: “Só passadas seis ou sete horas de termos fugido da nossa casa é que soubemos que não tinha ardido. O fogo chamuscou uma árvore no quintal, mas felizmente ficou por ali. Imagina o desespero que foi aquele tempo todo sem sabermos se ainda tínhamos casa?”

Outro funchalense, Luís Freitas — a quem agradeço as dicas preciosas sobre a ilha, que conhece como poucos —, explica em poucas palavras esta realidade: “Repara que no lado norte não há grandes incêndios.”

Felizmente 2/3 do território da ilha da Madeira são Parque Natural e estão obrigados a outras regras.

(Este artigo foi originariamente publicado no site do Expresso no dia 25 de março de 2017)

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