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Vida Extra

Todos temos “o rio da nossa terra”. Qual é o seu?

Mesmo entre aqueles que nasceram na cidade, raros são os que não têm uma “terra” - com um rio por perto - a que chamam sua. Este trabalho celebra, nas grandes montanhas a norte do Douro, os banhos nos rios da nossa infância

E não resisto a começar com uma espécie de passatempo, que é tradição os jornais fazerem nesta época do ano. Neste caso trata-se de uma adaptação do célebre “Onde está o Wally?” Percorra a foto com atenção, de preferência num monitor grande, e descubra-o(s).

João Paulo Galacho

Quantos contou? Eu ajudo: nesta foto estão 3 pessoas.

Esta pequena brincadeira serviu um propósito: dar a perceber a grandiosidade das Fisgas de Ermelo, no Parque Natural do Alvão, usando as pessoas para dar a escala da fotografia.

Neste troço o rio Olo abandona uma zona granítica (mais dura), para entrar numa xistosa (mais mole) e enfisgou-se num leito que se precipita numa sucessão de impressionantes cascatas, sem par em Portugal Continental.

Até abril de 2016 só se podia observar em segurança uma (pequena) parte destas quedas de água, num miradouro muito distante, a 4 quilómetros das Fisgas, perto da aldeia de Fojo. Mas a partir dessa data, em que foi inaugurado um percurso pedestre certificado (PR 3-Fisgas de Ermelo), já é possível ver ao perto as Fisgas completas.

É um percurso circular de 12,4 quilómetros, com um tempo estimado para o completar de 4h30. Mas se o seu objetivo for só ver as cascatas, pode optar por fazer só uma parte do PR: da aldeia de Varzigueto, pela margem esquerda do Olo, em 3,5 quilómetros chega ao sítio onde foi tirada a foto que abre este trabalho – perto do miradouro do Alto da Cabeça Grande. No caminho, 1 quilómetro depois de Varzigueto, aproveite para fazer um pequeno desvio até às Piocas de Cima, um conjunto de lagoas, muito concorridas no verão.

Se pretender mais privacidade e se estiver preparado para percorrer este terreno difícil, pode sempre tentar dar um mergulho na pioca/lagoa maior, bem no meio das quedas de água, na vertente mais a pique. Aqui fica a dica que me deram para aceder a ela: depois de passar o acesso às Piocas de Cima, o PR3 afasta-se do rio por um pinhal. Umas dezenas de metros percorridos e começa-se a descer, até junto a umas cordas de proteção, onde se vê pela primeira vez a encosta das Fisgas. Ultrapassamos as cordas e seguimos até um pequeno pinhal que vemos mais abaixo, local onde vamos descortinar um carreiro de cabras que nos leva à lagoa. Atenção à parte final, onde o caminho bordeja o precipício.

Para rematar na perfeição este dia, aconselho um jantar em Varzigueto, na Taberna Martins (tel. 255 382 546). Com uns dias de antecedência fale com a dona Leontina, proprietária e cozinheira, para combinarem o repasto. Só trabalha com produtos locais e se tiver a sorte de a convencer, a convencer o senhor Alcino, seu marido, a dispensar um cabrito do seu rebanho... não vai arrepender-se.

Não perca a oportunidade de conversar com o senhor Alcino, nado e criado na aldeia, filho de um pastor - "ainda catraio já ia com o meu pai pastar as cabras nos penedos". Ainda chegou a imigrar, como a maioria da sua geração, mas pouco tempo se aguentou longe do Alvão: "Ganhava muito dinheiro, o patrão era muito meu amigo, mas não aguentava dias inteiros fechado entre quatro paredes numa fábrica de óculos. A minha vida é aqui, a guardar cabras na serra. É um trabalho duro, sem dias de descanso, mas é o que eu gosto."

Conhece como poucos os recantos destas serranias e é um prazer ouvi-lo contar as suas pitorescas histórias. Pergunte-lhe pelos dois soldados, das tropas especiais, que passaram a noite numa pequena plataforma a meio de precipício, sem conseguirem subir ou descer; pergunte-lhe porque é que os cabritos já esfolados têm um tufo de pelo na ponta da cauda... e desfrute do saber de um homem que passa a maior parte da sua vida em contacto íntimo com a natureza, em espaços amplos, só com as cabras por companhia.

O Poio, um rio desconhecido da maioria, um dos mais bonitos de Portugal

Pois é. O Poio arrasa. É um verdadeiro rio de montanha, de águas translúcidas - embora este ano o leito esteja em muitos sítios forrado de cinzas dos incêndios. E, qual cereja no topo do bolo, está pejado de cascatas, lagoas e marmitas gigantes, tudo enquadrado por escarpas imponentes, que nos remetem para a nossa pequenez.

Enquanto corre em altitude, podemos chegar à sua beira na ponte de Alvadia, uma aldeia a 16 quilómetros de Ribeira de Pena, onde existe uma zona balnear muito concorrida, com bastantes lugares para estacionar nas imediações.

Já aceder a outros troços do rio no cavado vale do Poio, nas redondezas de Alvadia, é mais complicado. Conseguimos ver lagoas e cascatas ao longe, explorando a pé as imediações da estreita estrada para Cabriz, mas só quem conhece bem esta zona consegue lá chegar – fiquei impressionado com os locais, mesmo à beira do precipício, onde vi banhistas. E depois, claro, há o canyoning, modalidade em que os praticantes, com o auxílio de cordas, descem rios com acentuados desníveis. O Poio é considerado um dos rios continentais de topo para esta atividade e um dos mais exigentes, o que leva até algumas das empresas que organizam a sua descida a dividi-la em dois dias, com pernoita a meio do percurso.

Outro sítio onde é possível chegar junto às águas do Poio situa-se nas imediações da aldeia de Cabriz, já na planície, onde finda o desfiladeiro cavado pelas suas águas tormentosas ao longo de milénios. Vindo de Alvadia, mesmo antes da ponte que atravessa o Poio e antes de entrar em Cabriz, vira-se à direita e segue-se até chegar ao edifício de uma mini-hídrica. Daqui, uma subida acentuada em empedrado, com cerca de 200 metros, leva-nos até um largo, com duas ou três casas, onde devemos estacionar. Neste local já vemos o rio lá em baixo e também um carreiro que desce a encosta, por onde devemos seguir. Em poucos minutos estamos nas margens do Poio e aqui o desafio é... subi-lo.

Não é fácil, exige alguma destreza física para ultrapassar pedregulhos imensos, e só é viável com caudais reduzidos e tempo seco – muita atenção às pedras molhadas, que escorregam imenso. Mesmo assim arriscamo-nos constantemente a "meter a pata na poça", pelo que devemos levar calçado adequado. Conte com uma progressão lenta e em momento algum descure a segurança.

Percorridos cerca de 200 metros chega-se a um moinho em ruínas, local com algumas lagoas, ideal para um primeiro mergulho e para estender a toalha – a de banho para apanhar sol, ou a da refeição, para um piquenique num sítio verdadeiramente no meio da natureza. Chegar ao moinho é viável para uma família com crianças que já andem bem.

Mais 500 metros a subir o acidentado leito do Poio e chega-se às Três Paredes, uma lagoa profunda, com uma cascata de meia dúzia de metros, sob a qual pode aproveitar para massajar a cabeça e os ombros. Para os mais afoitos é o local indicado para uns mergulhos, visto ter 3 paredes de onde pode saltar, mas para isso não se esqueça nunca de avaliar previamente a profundidade do sítio onde vai cair. Se gostar de pesca também pode tentar as suas hipóteses por aqui. Os peixes andam lá, que eu bem os vi. Se estão dispostos a morder o isco... terá de o comprovar por si.

Subindo mais 500 metros o rio vai encontrar mais 3 paredes e uma lagoa profunda, que neste caso é alimentada por duas cascatas. A que está em frente provém de um afluente do Poio e levava muito pouca água este agosto. A cascata da direita, no Poio, só se consegue ver de dentro da lagoa - um bom pretexto para mais um banho -, ou escalando a parede à esquerda, que não me pareceu tarefa fácil.

A partir desta lagoa, para continuar a subir o rio, a coisa complica-se, porque tem de se atalhar pelas impressionantes escarpas, até regressarmos ao leito lá mais em cima. Foi-me dito que no verão, durante as festas de Cabriz, é costume organizarem uma subida do rio que ultrapassa este ponto e que chega à grande atração do Poio, que é a Cascata de Cai d'Alto, queda de água de cerca de 60 metros.

O Âncora e as concorridas Lagoas e Cascatas do Pincho

Deixando o Alvão e Trás-os-Montes para trás, o destino passa agora pelo Alto Minho e pela Serra de Arga, onde nasce o Rio Âncora, e onde vamos continuar atrás dos banhistas de agosto. Em Amonde, freguesia de Viana do Castelo, o caminho para as Lagoas e Cascatas do Pincho está sinalizado e aponta para uma estreita estrada calcetada, que sobe acentuadamente entre uma casa amarela e um muro alto. Logo ali ficamos a saber que o sítio agora conhecido como Pincho era designado localmente como Ferida Má, um nome que eleva a expectativa para o que nos espera. Até a calçada acabar são cerca de 1,5 quilómetros, acessíveis a um carro ligeiro. O rio já se pressente e, 200 metros a andar, levam-nos à sua beira. Estavam dois carros estacionados no fim da calçada e, numa sombra das margens, estava um grupo de meia dúzia de pessoas que ali tinha passado a noite.

A primeira impressão ao chegar à lagoa grande é a de que aquele sítio não tem nada a ver com Ferida e muito menos com Má, tal a calmaria da lagoa de águas límpidas. Só que estamos em agosto e o caudal do rio é mínimo. Depois lembro-me da fotografia que vi num café em Amonde, tirada com o rio em tempo de enxurrada, e percebo que aquele nome deve ter surgido num inverno chuvoso. Nestas coisas, o bom senso dos antigos raramente falha.

Aproveito para explorar a parte de cima da Ferida Má - que pelos vistos só o é no inverno -, a que se acede por um caminho bem pisoteado, na margem esquerda, que sobe entre árvores e sou presenteado com mais uma cascata, maior do que as outras duas que encimam a lagoa grande. Também a vista deste plano mais elevado não desmerece, descortinando-se outra lagoa mais pequena que enquadra a maior. E por esta altura sou surpreendido ao ver que muito mais gente a banhos na lagoa. Conto cerca de quarenta banhistas e quando volto ao meu carro percebo que já lá estão uma dúzia a fazer-lhe companhia. A fama deste sítio especial já se espalhou...

E para acabar como comecei, mais um desafio: descubra o Wally na fotografia que encerra esta história. E bons banhos nos rios da sua infância

(Este artigo foi publicado originariamente no site do Expresso no dia 24 de setembro de 2017)

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