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A misteriosa cascata de Cascais

A chuva intensa do último domingo revelou uma queda de água que traz à memória tempos antigos. O Vida Extra mostra-lhe as imagens surpreendentes da cascata de Cascais

João Paulo Galacho

João Paulo Galacho

TEXTO, FOTOS E VÍDEO

Tiago Pereira Santos

Tiago Pereira Santos

IMAGENS DE DRONE E EDIÇÃO VÍDEO

A misteriosa cascata de Cascais

Quando a chuva é muita, avisam as autoridades, o melhor é ficar em casa. Foi assim no domingo, com várias regiões do país atingidas por um autêntico dilúvio. Mas quem se aventura a caminhar, em segurança, pode muito bem descobrir um segredo raro. Foi o que aconteceu esta semana, em Cascais. Quem diria que havia uma cascata mesmo às portas de Lisboa? Mais curioso ainda é que o mistério da Cai Água, em São Pedro do Estoril, onde qualquer um pode ir (com todo o cuidado, claro) encerra uma série de outros segredos, sobre um país antigo e esquecido.

Aproveite para fazer uma caminhada à beira mar até à Parede. É um troço rico em biodiversidade e com uma curiosa história, a que levantamos um pouco o véu. Ora acompanhe-nos.

A localidade de São Pedro do Estoril existe desde 1926. Antes era conhecida por Cai Água, o nome dado à cascata onde a ribeira de Caparide se precipita no mar. Só há registo de ocupação humana nesta zona a partir de 1604, quando se inicia a construção de uma ponte sobre a ribeira – ainda hoje são visíveis os arcos desta ponte filipina –, visando evitar que no inverno a Real Estrada Lisboa-Cascais ficasse debaixo de água. Em 1649 surgem as primeiras referências à existência de uma azenha, que aproveitava a força da queda de água para rodar a mó que transformava os cereais em farinha.

Mantém-se uma zona essencialmente agrícola até ao fim do século XIX, altura em que para além da azenha já há notícias de alguns casebres e de um moinho de vento construído num morro sobranceiro, que permitia aos moleiros exercerem a sua atividade nos períodos de estio. E, claro, já existia também uma taberna, estrategicamente colocada no entroncamento da estrada Lisboa-Cascais, com a do Murtal. E é este aglomerado de modestas casas que herda o nome da cascata.

Mas é no início do século XX, pela mão de Abílio Nunes dos Santos, proprietário dos Grandes Armazéns do Chiado, que esta zona abandona o estatuto de rural para assumir o de balnear e se irmana com os outros 'Estoris'. Abílio é um visionário, que começa a comprar terrenos na zona, cedendo posteriormente alguns para a construção da estação de São Pedro – a linha de comboio tinha sido inaugurada em 1889 entre Cascais e Pedrouços – ao mesmo tempo que constrói um chalé para si e outros três para sortear entre os clientes dos seus Armazéns, ajudando assim a popularizar o sítio de Cai Água, que brevemente mudará de nome para São Pedro do Estoril.

Fotos “O passado nunca passa”, catálogo da coleção José Santos Fernandes, Edição Câmara Municipal de Cascais

A ribeira de Caparide nasce na Serra de Sintra, a 270 metros de altitude e percorre 12,6 quilómetros até à foz, atravessando as freguesias de Algueirão-Mem Martins, São Pedro de Penaferrim e Rio de Mouro, no concelho de Sintra e Alcabideche, São Domingos de Rana, Estoril e Parede, no concelho de Cascais.

A crescente urbanização que a sua bacia hidrográfica sofreu na segunda metade do século XX, tornou-a num verdadeiro esgoto a céu aberto e quase matou a vida nas suas águas. Mas com o melhoramento gradual do saneamento a ribeira “ressuscitou” e hoje, de acordo com o estudo “Caracterização das Comunidades Piscícolas das Ribeiras do Concelho de Cascais - 2017”, já existem seis espécies de peixes na Ribeira de Caparide. Três nativas – enguia-europeia, boga-portuguesa e escalo do sul – e três não-nativas – gambúsia, carpa e perca-sol.

A nível da flora apresenta ainda resquícios da galeria ripícola original e, imagine-se, uma herbácea da era dos dinossauros, a cavalinha; a nível de fauna registam-se inúmeros insetos, rãs, cobras de água, pequenos mamíferos como o ouriço cacheiro e uma grande variedade de aves, onde se destacam a rola-comum e o melro-preto, todos eles animais dependentes da preciosa água doce que corre na ribeira.

Como chegar à queda de água

Para aceder à Cascata Cai Água, o ponto de partida é o Centro de Interpretação Ambiental da Pedra do Sal, situado logo a seguir à praia de São Pedro, no sentido Lisboa-Cascais. Há estacionamento no local – pago – e é das imediações do Centro que se inicia um interessante percurso interpretativo que nos leva, andados cerca de 200 metros, até uma ponte pedonal que atravessa a ribeira de Caparide, donde já vemos o topo da cascata. Com cuidado – não esquecer nunca que as rochas são escorregadias e que uma onda maior pode galgar a arriba –, consegue-se chegar às grandes lajes que ladeiam a queda de água onde a vemos lateralmente. A vista frontal só é possível de barco, ou através da câmara de um drone – ver vídeo inicial e fotogaleria abaixo.

O Centro Interpretativo, construído em 2005, propõe-se divulgar a diversidade biofísica e os recursos geológicos e paisagísticos da “Área Marinha Protegida das Avencas (AMPA)”. Está aberto de 3ª a 6ª feira, entre as 10h e as 13h e as 14h e as 17h, e aos fins de semana acrescenta uma hora a este horário e encerra às 18h. O Centro possui ainda uma sala de exposições, um auditório e uma cafetaria – atualmente em obras – com uma bonita esplanada sobre o mar.

Destaque ainda para um painel, no topo da falésia da praia de São Pedro, que nos informa que na vertente este da arriba da Pedra do Sal foram descobertas, em 1944, duas grutas artificiais onde – entre o 3ª e o 4ª milénio a.C. – os nossos antepassados remotos enterravam os seus mortos. E foi nessas sepulturas que se descobriram quatro anéis de ouro, considerados muito raros nos contextos funerários desta época e que se crê serem produto das primeiras práticas de metalurgia aurífera em território português.

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