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Vida Extra

À espera, sentados

Portugal tem hoje menos camas de hospital do que tinha em 2005. um facto que é também um retrato com muitas histórias dentro, algumas ‘doces’, outras sérias, muitas de solidão. Há quem passe horas e noites sentado, sonhando acordado com uma maca a que possa trocar as consoantes para fazer dela cama. Mas nem tudo está a menos — continua a haver nas urgências gente a mais

Há sempre boas razões para achar que o andar do mundo se parece muito com o abismo. São razões que vêm muitas vezes escritas em jornais, em estudos internacionais, ou são apresentadas em números, sem mais explicações. A memória, mestre da trapaça, não ajuda, como contava a revista “New Yorker”, em julho deste ano, num artigo intitulado, precisamente, “As coisas estão melhores ou piores?”. A resposta é que é tudo mais complexo e que avaliar o mundo não é tão simples quanto parece. Porque, lê-se, boa parte da história e da estatística mostra que, genericamente, “a vida era mais curta, mais doente, mais pobre, mais perigosa e menos livre. Porém, muita gente (...) encontra memórias de anos passados e pergunta-se se os relatos do horror têm sido exagerados”.

Quem vê que em 1970 havia 628 camas de hospital por cada 100 mil portugueses e que, passados 46 anos, o número desceu para quase metade (342), facilmente o junta às histórias de caos nas urgências, às greves de enfermeiros, às queixas de utentes e às suas próprias, para concluir que a situação está pior. Ela está, porém, outra coisa. “Complexa”, diz João Araújo Correia, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI). Há uma boa notícia que esses números contam e que deve servir de ponto de partida para qualquer análise. “Antigamente, para estudar um doente era preciso interná-lo. Hoje estudamo-lo fora do hospital e só internamos os instáveis”, facto a que o médico chama “a parte doce da verdade”. A medicina transformou-se para melhor, e muitas das 54 mil camas (número total, entre público e privado) que ocupavam as unidades hospitalares na década de 70 não são hoje necessárias, porque “há uma quantidade grande de doentes que deixou de ter razão para estar internada”. E isso explica porque é que em 2005 o número tinha baixado para 37 mil. Só não explica que, de lá para cá, apenas 2016 tenha sido ano de travar a queda.

“Por volta dessa altura, a gestão hospitalar começou a ganhar influência. Começou a achar-se que a melhor maneira de gerir o dinheiro era levar isto a um extremo”, comenta o responsável. O “isto” a que se refere é o que põe Portugal no 22º lugar da tabela de 27 países (Itália foi o único da União a 28 que não disponibilizou dados) com mais camas por cada 100 mil habitantes, incluída no “Retrato de Portugal na Europa”, da Pordata, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Para se ter uma ideia das distâncias, a primeira classificada Alemanha tem 806, mais do dobro das que por cá se encontram, sendo que a média da União ronda as 500 camas por cada 100 mil pessoas. Com apenas cinco países abaixo, Portugal chegou nos últimos anos a uma “situação generalizada” de falta de camas, que cria “necessidades que não conseguimos cobrir” e que nem soluções como a hospitalização domiciliária resolvem. É a fotografia de um país mais uma vez desajustado da moldura europeia, que João Araújo Correia ilustra com uma imagem bem portuguesa: tanto quisemos poupar que “esticámos demasiado a corda”.

CAMAS ONDE TAMBÉM SE DEITA A SOLIDÃO

Não há só camas a menos, há camas mal ocupadas. João Araújo Correia aponta, numa estimativa conservadora, que “cerca de 25% das camas hospitalares estão, neste momento, ocupadas com doentes com alta clínica”. É um contrassenso cuja explicação tem de ser procurada fora das paredes do hospital. “Nós internamos uma larga faixa que não nos dá garantia, sob o ponto de vista social, de que vai fazer o tratamento indicado”, explica. São pessoas sem casa ou a viver em condições de habitabilidade precárias, sem família ou sem acompanhamento, casos que o presidente da SPMI encontra por todo o país, incluindo no Centro Hospitalar do Porto, onde é também diretor do serviço de medicina interna e chefe da equipa de urgência. “Temos aqui 117 camas, das quais 25 a 30 estão habitualmente ocupadas por doentes que não deviam cá estar” e que permanecem internados no hospital porque estão à espera de vaga na rede de cuidados continuados ou de um lar da Segurança Social, “alguns há meses”. Sem essa franja, “talvez não tivéssemos tão poucas camas assim”, atira o responsável, que não vê motivos para separar os Ministérios da Saúde e da Segurança Social, porque um e outro “andam completamente de braços dados”.

A URGÊNCIA E O “PINGUINHO NO NARIZ”

Quando Joana Faustino chegou às urgências do São Francisco Xavier, em Lisboa, sabia que a probabilidade de lá encontrar muita gente era grande. Só não sabia que era possível ficar de sexta a domingo sentada num cadeirão, ‘internada’ sem direito a cama, sequer maca, “sem saber por que motivo tinha de lá estar”. Soube depois que a pedra que tinha na vesícula podia causar uma infeção potencialmente perigosa, o que a obrigava a ficar no hospital à espera de exames. De sexta a domingo, os exames não foram feitos, a cama nunca chegou. Mais de 48 horas, alguns medicamentos e apenas um cadeirão depois, foi transferida para o Egas Moniz, onde já teve cama (ainda que não exames). Joana não esteve sozinha na sala em que se misturavam pessoas a soro com outras rumo ao internamento, que até do banho têm de abdicar. A que mais a surpreendeu foi “uma senhora que devia ter perto de 80 anos e ali estava desde quarta-feira sentada”.

Não é alarme, é realidade. As urgências estão para lá do limite, porque recebemos, volta a alertar João Araújo Correia, “o dobro ou mais” do que noutros países e do que devíamos. “Não culpo as pessoas, que até serem vistas não sabem o que têm e assustam-se, mas não podemos continuar a receber nas urgências quem tem um pinguinho no nariz.” A não ser que o nariz seja de alguém com 85 anos, “precisamos de uma campanha que eduque as pessoas, que as faça perceber que há um circuito, chamado cuidados primários”, em que o hospital é a última, por vezes desnecessária, paragem.

CAMAS EM HOSPITAIS

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