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Dia Mundial da Obesidade: A situação em Portugal não está para brincadeiras

Os dados indicam que há cada vez mais pessoas com excesso de peso. Se nada for feito, vamos ter mais obesos e um aumento de doenças. os especialistas aconselham os Estados a apostar na proibição de alimentos mais calóricos, em vez de ficarem só pela informação

Kiyoshi Hijiki / EyeEm

Sempre houve problemas de fome no mundo. Há anos que as populações de países como a República Democrática do Congo, o Burundi e a Eritreia — os que ocupam os lugares cimeiros do Índice Global da Fome — se debatem com problemas graves de falta de comida. As Nações Unidas estimam que, pelo menos, 108 milhões de pessoas passem fome no mundo.

Nos últimos anos, e em especial nos países desenvolvidos, tem-se assistido a uma situação que parece o inverso: excesso de comida.

Com populações a consumirem alimentos de valor calórico e energético muito superior ao aconselhável. Uma situação que se torna mais preocupante nas crianças. Estima-se que na Europa existam 74 milhões de menores com obesidade, segundo a Associação Europeia para o estudo da Obesidade. Nesta escala Portugal não está bem classificado, ocupa o 5º lugar da tabela europeia dos países com mais crianças obesas.

Estes valores fizeram soar os alarmes. Os Estados começaram a mexer-se para encontrarem formas de promover uma alimentação mais saudável. E procuraram informar os seus cidadãos acerca do valor dos alimentos e da influência de como o que comemos se relaciona com as doenças que contraímos ao longo da vida. Mas, se a evolução de políticas públicas é grande, por exemplo países como a Dinamarca, a França, a Finlândia ou a Hungria têm a fat tax (uma taxa extra em alimentos que provocam obesidade), também é verdade que os números não são animadores. Não estamos a perder peso suficiente.

Um estudo recente publicado na revista científica “Lancet”, e divulgado na semana passada, emite um alerta. Se continuarmos como até aqui, em 2022, a obesidade juvenil vai ultrapassar a insurgência de peso. Isto é: vamos ter mais jovens obesos do que malnutridos. De acordo com a investigação do Imperial College de Londres e da Organização Mundial da Saúde (OMS), no ano passado, 124 milhões de crianças e adolescentes, dos cinco aos 19 anos, eram obesos. Há 42 anos, em 1975, esse valor era de 11 milhões. O fenómeno é transversal no planeta. As ilhas da Polinésia estão no topo da pirâmide, com mais de 30 por cento de crianças e jovens obesos. Logo a seguir, estão os Estados Unidos, o Egito e a Arábia Saudita com taxas a rondar os 20 por cento.

Está também provado que a obesidade influencia e determina cada vez mais doenças. Um em cada dez adultos sofre de diabetes; um em cada três adultos tem hipertensão arterial. Segundo a OMS, esta é já a causa de 2,8 milhões de mortes. Os estudos sucedem-se. Em 2016, a Universidade de Cambridge revelou que a obesidade aumenta o risco de cancro e de doença cardiovascular. E estima ainda que o peso a mais é responsável pela diminuição da esperança média de vida em um ano, subindo para 10 anos em caso de obesidade severa. “Este estudo demonstra definitivamente que o excesso de peso ou a obesidade estão associados ao risco de morte prematura”, defende, Emanuele Di Angelantonio, o autor do estudo. O mesmo documento revela ainda que aumentam todos os riscos de doença cardíaca, acidente vascular cerebral, doenças respiratórias e cancro.

O peso a mais já não é só uma questão de estética. É um problema de saúde. Inverteu-se o paradigma. Os quilos a mais, a obesidade, entraram há, relativamente, pouco tempo na lista das doenças. E têm vindo a acentuar-se. O número de pessoas obesas cresce desde 1980. E, em alguns países, a obesidade infantil aumentou mais do que a dos adultos.

Mudar a estratégia

Mas há agora outro paradigma que é preciso inverter. A informação ao consumidor, deixar-lhe nas suas mãos a opção de saber o que é mais saudável para si, já não funciona.

“Há um estudo recente que revela que não há, a nível mundial, nenhum país de sucesso no combate à obesidade, utilizando as estratégias de agora”, explica Pedro Graça, diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, da Direção-Geral da Saúde. O combate centrado na educação e capacitação dos cidadãos, como tem sido a estratégia até aqui, é o paradigma que é necessário inverter. “É preciso intervir na área dos ambientes nos quais as pessoas se movimentam. Modificar ambientes obsogénicos (que favorecem alimentação desadequada e sedentarismo) que nos rodeiam. O ser humano está preparado para acumular energia, quando esses acumuladores são confrontados com um ambiente acumulador, o organismo humano aumenta. Está provado”, continua Pedro Graça.

E ambientes obsogénicos podem ser vários, desde escolas aos edifícios públicos, passando pelas empresas onde trabalhamos ou, até mesmo, hospitais e centros de saúde aos quais nos deslocamos, maioritariamente, quando estamos mais fragilizados. Daí que em 2016 o Governo tenha proibido as máquinas de venda de comida calórica — como batatas fritas de pacote e doces — em meio hospitalar. Nestes espaços, a escola adquire importância crucial. Ultimamente, têm vindo a público queixas de pais sobre a qualidade da alimentação dada às crianças na escolas. O caso mais recente – cujas fotografias correram as redes sociais no Dia da Alimentação, a 16 de outubro — foram os da escola Escola Básica Noronha Feio, em Queijas, no concelho de Oeiras, onde tinha sido servido frango cru.

O preço da refeição, estabelecido pelo Estado, foi o argumento apontado pelos encarregados de educação. Porém, Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas, sublinha que há mais fatores. “A Direção-Geral de Educação e o Ministério da Saúde têm uma referência para esta oferta, para os bares e cantinas, mas o que se tem vindo a verificar, com estudos levados a cabo, é que não estão a ser cumpridos. O que se verifica é que as nossas crianças têm comportamentos e atitudes no espaço escolar que em nada se relacionam com hábitos saudáveis.”

Os riscos estão no que está no prato, no que comem ou têm tentação de comer, mas não se ficam por aí. Na altura da alimentação saudável, são vários os aspetos a ter em conta. “Começamos logo no espaço, que é barulhento e desarrumado. E depois as crianças não são acompanhadas, não há professores à hora de almoço”, continua Alexandra Bento. Fazem falta nutricionistas nas escolas, a monitorizar as ementas e a aconselhar e ensinar os alunos. Pedro Graça afirma que o caminho também poderá ir por aí. “Tendo mais cuidados no acesso aos cuidados básicos de saúde, com a presença de nutricionistas nos centros de saúde, por exemplo.” Mas o paradigma não se inverte só assim. Para o especialista, são necessárias medidas de restrição como a taxação de alimentos — tais como a taxação extra nos refrigerantes e a redução de sal no pão, que vai começar a sofrer uma redução gradual entre 2018 e 2021. Hoje, a lei estabelece 1,4 gramas de sal por 100 gramas de pão; no próximo ano o valor baixa para 1,3 gramas; em 2019 será de 1,2 gramas; em 2020 de 1,1; e em 2021 será de 1 grama de sal por 100 gramas de pão.“São medidas que têm desvantagens, reduzem a autonomia de escolha do cidadão, mas é por uma boa causa”, frisa Pedro Graça.

Gastos na saúde

Há também outros números que justificam a mudança de paradigma. O custo de tratamento de patologias relacionadas com a obesidade — como a diabetes, as doenças cardiovasculares ou as osteoarticulares — representam 80% dos encargos de saúde na generalidade dos países. Em Portugal, o seu peso é de 70 por cento, segundo a Direção-Geral da Saúde. “Os ganhos com a redução de hipertensores são muito grandes. Avalia-se que sejam que na ordem dos 177 milhões de euros. Algo que se pode diminuir, reduzindo o consumo de sal à nossa mesa. É a proteção do cidadão e do Serviço Nacional de Saúde que estão em causa”, frisa Pedro Graça.

Além disso, os tratamentos da obesidade são demorados. Calcula-se que em Portugal existam cinco milhões de pessoas que necessitam de apoio. “Nunca se falou tanto da relação entre alimentação e saúde”, frisa Alexandra Bento. É por isso que, ultimamente, as prateleiras da chamada alimentação saudável cresceram, tal como proliferam as lojas dedicadas a produtos biológicos e ‘chamados’ revolucionários da alimentação. São modas. “Sofremos de modas, mitos e falsos conceitos. Podemos estar a falar em negócio. É preciso ter noção de que a alimentação saudável é a que é variada e equilibrada e respeita os produtos regionais”, sintetiza a bastonária da Ordem dos Nutricionistas.

(Artigo publicado originalmente no site do Expresso a 4 de novembro de 2017)