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Portugal tem um especialista na degustação de água. Fomos beber uns copos com ele

Manuel Antunes da Silva é o primeiro especialista na degustação de água português certificado e o Vida Extra foi beber uns copos com ele, porque o saber apura o sabor

Rui Duarte Silva

O lugar não podia ser mais suspeito. Estamos nas instalações da Super Bock Group, em Leça do Balio, para participar na degustação de uma bebida única, fabricada pela natureza em quantidades industriais. É preciso apurar o paladar, a visão e o olfato. “Quando estamos a provar, devemos olhar bem para o produto. Ver se tem uma ligeira cor ou não. O cheiro é também importante”, explica Manuel Antunes da Silva, o primeiro provador de água português certificado, reconhecimento atribuído, em julho deste ano, pela alemã Doemens Academy. “Envolva bem a água na boca”, recomenda ao Vida Extra, explicando que tudo “é uma questão de educação do paladar” para usufruir de uma “experiência fundamentalmente sensorial”.

Está pronto? Encha um copo com água e acompanhe a lição. “Temos de estar concentrados naquilo que estamos a fazer”, porque “nem todas as águas são iguais”, frisa o geólogo de formação.

As papilas gustativas devem estar limpas. Se quer apreciar um bom copo de água, não deve fumar uma hora antes da prova. Um cafezinho também não pode entrar no menú, de forma a não “mascarar as pistas de sabores”, adverte este membro da International Hidreologists Association.

Rui Duarte Silva

Lisas, gasocarbónicas ou gaseificadas. Mais graníticas ou sedimentadas. Da nascente ou do furo. O saber aguça o sabor da água e para este especialista não existem segredos. Antunes, diretor técnico das concessões hidrominerais da Super Bock Group, avalia todas as características, colocando o foco nos elementos que entram na composição, bem como na forma como o líquido as adquire.

“O que a água nos transmite através do sabor tem muito a ver com o percurso que efetua em profundidade, das rochas com que contacta, do tempo em que está a absorver minerais”, explica o water sommelier de 52 anos.

“Os minerais que cada água contém dão-nos sensações diferentes no consumo”, assevera o perito, para quem é importante existir um equilíbrio com a própria dieta. “Quando selecionamos uma água ou um vinho para acompanhar um determinado prato, tem de haver uma harmonização entre os três elementos”, afirma Manuel Antunes da Silva.

Saiba, por exemplo, que “uma água de baixa mineralização tem um efeito diurético muito acentuado, enquanto uma água com um teor mais elevado tende a adicionar algum funcionalismo ao organismo”, clarifica Manuel Antunes da Silva. “Uma água muito forte no paladar, que em Portugal não temos, poderá desvirtuar de alguma maneira o sabor do que estamos a comer”, alerta o responsável técnico.

Rui Duarte Silva

Durante as provas de degustação, o especialista tem como missão explicar às pessoas como funciona a “fábrica” da natureza. “O consumidor tem de se informar mais”, defende, embora reconheça que esse é um “trabalho que vai demorar gerações”.

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