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Maria Miguel. Ou a inevitabilidade de ser modelo

Tem jeito para os números, queria jogar à bola e odeia saltos altos. História de como uma miúda portuguesa está a tornar-se estrela da moda mundial. Algo que todos esperavam, menos ela

Cristina Bernardo Silva

gonçalo claro

Maria Miguel aterrou no Porto há menos de 24 horas para uma pausa de alguns dias, entre um desfile em Berlim e outro em Florença. A primeira impressão, que logo passa a certeza, é a de que o ar sério de olhar melancólico que transparece na maioria dos seus trabalhos profissionais não podia ser mais enganador: a jovem modelo bracarense, em casa dos pais, na zona da barra do Douro, tem vivacidade e bom humor de sobra.

Chega sorridente, vinda do andar de cima para a sala de estar, onde, ao lado da televisão, há um candeeiro enorme que, por coincidência, faz lembrar as iluminações de estúdio que se veem nos making of dos editoriais de moda. Pouco antes, teve uma explicação de Matemática — uma das suas disciplinas preferidas —, uma vez que a vida de modelo a impede de ir às aulas. Pouco depois, equipada de verde e vermelho, a miúda que queria ser futebolista seguirá com um dos seus melhores amigos para o Estádio do Dragão, onde Portugal vencerá a Suíça por 3-1 nas meias-finais da Liga das Nações.

Aos 18 anos, a modelo portuguesa vive entre o Porto e Nova Iorque, ao ritmo dos desfiles e das sessões fotográficas. Em menos de dois anos, já pisou as principais passerelles mundiais ao lado de supermodelos como Kaia Gerber, Kendall Jenner e Gigi Hadid, foi exclusiva da Yves Saint Laurent, capa da “Vogue” portuguesa e arrebatou o último Globo de Ouro para Melhor Modelo Feminino, categoria para a qual estavam nomeadas Isilda Moreira, Maria Clara e Sara Sampaio — as outras manequins lusas que estão a dar cartas na moda internacional.

Sobre o tipo de mulher que inspirou a sua coleção primavera-verão 2018, Anthony Vaccarello, diretor criativo da Yves Saint Laurent, afirmou à comunicação social que “aquela rapariga da Saint Laurent quer divertir-se. Não está deprimida, quer aproveitar a vida”. A descrição assenta como uma luva em Maria Miguel, a portuguesa que o próprio designer belga escolheu, há menos de dois anos, para abrir o desfile dessa mesma coleção, numa noite mágica de setembro. A jovem natural de Braga, ainda muito inexperiente, foi atirada às feras — e logo com centenas de pessoas a assistir. Mais do que sobreviver, saiu-se bem. Vaccarello sabia o que fazia. E aquele desfile ao ar livre — no Trocadéro, com a Torre Eiffel totalmente iluminada ao fundo — foi apenas o início de uma união em regime de exclusividade, o primeiro da marca com uma portuguesa. O contrato durou um ano e Maria foi viver para Paris. Fez outros desfiles para a casa gaulesa e foi uma das estrelas da campanha de verão 2018 da Saint Laurent, para a qual foi filmada e fotografada ao lado de grandes nomes da moda internacional, como Raquel Zimmermann e Anja Rubik.

Quando a exclusividade terminou, outras marcas internacionais de luxo puderam começar a contratá-la para os seus desfiles e campanhas. Ela nunca mais parou, mas também nunca esqueceu a noite em que pisou uma passerelle do circuito das fashion weeks (ou semanas da moda) pela primeira vez. “Estava muito nervosa por ser o meu primeiro desfile lá fora”, recorda, sentada no sofá azul claro da sala, para perto do qual se dirige “Mel”, a cadela Fox Terrier da família, sempre que tem uma oportunidade.

Na altura, não tinha a noção da importância de abrir um desfile daqueles. Era o primeiro que eu fazia e não percebia nada de moda”, conta. No entanto, foi só quando olhou para o quadro com a ordem de entrada dos modelos que Maria intuiu que algo estava a passar-se. Antes disso, ninguém lhe disse que seria ela a abrir o desfile. “A minha fotografia estava em primeiro lugar e eu achei estranho. Depois, uma senhora que trabalha lá disse-me que achava que eu ia abrir. Respondi-lhe ‘Não vou nada’, para parecer humilde, mas já estava a ver que ia mesmo”, lembra, a rir-se.

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