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Estes gémeos têm pés para o negócio 

Durante anos, Kevin e Jonathan Sampaio andaram nas passerelles internacionais a desfilar a roupa das melhores marcas. Agora querem desfilar pelos seus próprios pés. E já têm modelos com a assinatura própria Deux Sampaio para apresentar

Nuno Santiago

São gémeos, pensam da mesma maneira, têm os mesmos gostos e colecionam nomes de grandes criadores no seu currículo de modelos. Em 2007, pela mão da Central Models estrearam-se em Milão, num desfile da Dolce & Gabanna. Em 2019 voltam à cidade italiana para apresentar a Deux Sampaio, que marca a sua estreia pelos próprios pés no mundo do calçado.

“Começamos a pensar nisto há três anos. Estávamos a viver nos Estados Unidos e viemos para Portugal pelos sapatos. Mas a nossa ideia é desenvolvermos um projeto a longo prazo e termos uma marca completa, para usar da cabeça aos pés”, diz ao Expresso Kevin, o gémeo que conheceu Madonna nas filmagens do videoclip Bitch I´m Madonna e esteve ao seu lado quando a cantora celebrou 57 anos.

Os primeiros passos desta aposta dos gémeos no mundo do calçado, apresentados recentemente na Micam, a maior feira de calçado do mundo, assentam numa variação de cinco modelos desportivos com o selo “made in heaven” a remeter diretamente para a ligação do céu ao made in Portugal.

As ideias que serviram de base ao desenho de cada par são dos gémeos que garantem querer ser fiéis ao seu gosto pessoal em cada uma das criações. Não são designers, mas têm uma equipa especializada a trabalhar com eles para passar do conceito a uma forma confortável à medida de qualquer pé.

Habituados a calçar o número 45, já tiveram de encontrar forma de caminhar com elegância com sapatos maiores do que o seu pé e já “sofreram muitas vezes” a desfilar com modelos tamanho 42, por isso sabem “a importância de ter os pés bem assentes no chão e confortáveis” e querem refletir isso na sua coleção focada no segmento desportivo, para chegar ao mercado com um preço médio de venda ao público de €200.

Querem, também, acrescentar ainda mais alguns pormenores diferenciadores aos modelos apresentados em Milão, mas garantem que já poderiam correr mundo com qualquer um deles.

Entrar nos negócios, sempre por Felgueiras

E onde fazem os sapatos? Em Felgueiras, naturalmente. Filhos de emigrantes, nasceram em França, mas mudaram-se para Portugal aos 5 anos e dizem ter em Felgueiras a sua “terra” apesar de terem passado os últimos 10 anos em Nova Iorque. Agora estão por Portugal, mas irão viver uns meses em Itália já de seguida e quererem voltar aos EUA quando este projeto estiver afinado, até porque acreditam ter do outro lado do Atlântico “um mercado alvo de grande potencial para explorar e muitas portas para abrir”.

Na verdade, o projeto dos dois Sampaio no mundo dos negócios também já está em marcha em mais duas frentes, nas camisas, numa parceria com a Triple Marfel, e nos vinhos, onde se juntaram à Quinta da Lixa num Alvarinho. E mais uma vez, nos dois casos, optaram por empresas de Felgueiras, numa escolha assumida para reforçar as suas raízes e potenciar “o saber fazer” local.

Nos sapatos, o parceiro é a Carité, liderada por Reinaldo Teixeira e já com 20 anos de experiência no mundo do calçado. Através da Topik Relevo, Brada Shoes Concept, Arka e J. Reinaldo, a Carité emprega 520 pessoas e produz um milhão de pares de sapatos por ano, para faturar €30 milhões no mercado internacional, o que lhe dá um lugar no top 5 das maiores empresas de calçado de capital português.

Para o empresário Reinaldo Teixeira, esta associação nasce naturalmente de uma relação de vizinhança: “Somos todos de Felgueiras e eles andaram com a minha filha na escola por isso só podia abrir-lhes as portas quando me contactaram. Agora trabalhamos juntos porque eu sei de sapatos e eles têm muitos contactos no mundo da moda. Todos temos a ganhar”, explica.

Uma nova geração no calçado

Numa fileira que criou 238 marcas desde 2010, 24 das quais no ano passado, a Deux Sampaio vem confirmar que esta dinâmica pode continuar e há gente nova a chegar ao calçado.

“Uma das nossas preocupações no passado recente tem sido, exatamente, atrair uma nova geração de talentos e de outras áreas de atividade ao universo do calçado. Kevin e Jonathan são mais um exemplo de que isso está a acontecer”, sublinha Paulo Gonçalves, diretor de comunicação da APICCAPS, a associação sectorial do sector. E acrescenta: “nem são caso único no mundo da moda porque Ruben Rua, por exemplo, também tem uma coleção de malas com a portuguesa Rufel”.

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