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Morreu o homem que tinha medo de ser aborrecido: Karl Lagerfeld (1933-2019)

Diretor criativo da Chanel tinha 85 anos. Desenhava por ano 14 novas coleções (e ainda tinha tempo para projetos e colaborações especiais)

AFP Contributor

O designer alemão Karl Lagerfeld, diretor criativo da Chanel, morreu esta terça-feira, após um internamento de urgência. A informação está a ser avançada pela revista francesa “Paris Match”. Ainda não há confirmação oficial mas vários jornais internacionais estão a citar fontes próximas da Chanel.

O designer que se tornou rapidamente um mito na indústria da moda, que influenciou gerações de outros criadores, não só no mundo da moda, e que esteve quase 40 anos à frente da Chanel (desde 1983) morreu em Paris aos 85 anos. Segundo a imprensa francesa, o estilista foi levado na noite de segunda-feira para uma hospital em Neuilly-sur-Seine, nos arredores de Paris.

Num dos extravagantes cenários para os seus desfiles. Em 2014 transformou Grand Palais, em Paris, num supermercado

Num dos extravagantes cenários para os seus desfiles. Em 2014 transformou Grand Palais, em Paris, num supermercado

Bertrand Rindoff Petroff

Em Janeiro, Lagerfeld tinha falhado um desfile na semana da moda de Paris mas, na altura, a Chanel optou por referir como razão da ausência “apenas cansaço”. Desde 1983 (quandos e estreou pela Chanel) que o homem tantas vezes apelidado como “Kaiser Lagerfeld” aparecia no final de cada desfile para cumprimentar o público, isso não aconteceu após a apresentação da primavera-verão 2019. Nos últimos tempos, estava doente e fisicamente frágil.

Todos os anos, refere o jornal “The New York Times”, desenhava 14 novas coleções - desde alta costura a street style - e ainda encontrava tempo para projetos e colaborações especiais.

O cabelo branco apanhado, a pele bronzeada e os óculos escuros eram a sua imagem de marca. Embora seja imediatamente reconhecido pela a sua associação à Chanel, Lagerfeld tinha marca própria (Karl) e colaborou com as maiores casa de alta costura: Balenciaga, Fendi,
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“Mais que qualquer outra pessoa que conheço, ele representa a alma da moda: incansável, progressista, vorazmente atento às mudanças na cultura”, assim apresentou Anne Wintor, editora da revista “Vogue” norte-americana, quando Lagerfeld venceu o prémio carreira nos British Fashion Awards em 2015.

Karl Lagerfeld nasceu numa família abastada, a 10 de setembro de 1933. Filho de um empresário que vendia garrafas de leite no bairro de Blankenese, em Hamburgo, a vida da família mudou totalmente quando as bombas começaram a cair sobre a cidade, em julho de 1944. Fugiram para o campo e foi aí que Lagerfeld cresceu. Como tinha vivido na cidade deixou que permanecessem nele alguns trejeitos modernos, tão modernos que desde cedo se distinguiu entre os outros miúdos do campo.

No grande sótão da sua casa, Karl desenhava, dias a fio. Aprendeu francês e inglês e, escreve a Deutsche Welle num perfil publicado esta terça-feira, gostava mais de museus do que da escola. “Amava tudo o que era francês, era para lá que eu queria ir viver e por isso pus-me logo a aprender francês quando era criança”, disse ao realizador Gero von Boehm.

Lagerfeld e Claudia Shiffer em 1995

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Rose Hartman

Durante a adolescência, fugia para Paris. Apesar de não ter frequentado escolas de arte ou ter sido educado no mundo da moda, aos 18 anos - estávamos em 1954 - participou numa competição de moda. No International Wool Secretariat (hoje, International Woolmark Prize), foi distinguido na categoria de melhor casaco, enquanto Yves Saint Laurent - à época também um jovem estilista e que viria a ser um dos maiores concorrentes de Lagerfeld - venceu na categoria de melhor vestido.

Também foi através dele que manequins como Ines de la Fressange, Claudia Schiffer, Cara Delevingne ou Lily- Rose Depp se destacaram no mundo da moda.

Lagerfeld não só compreendia todas as línguas da moda, como também lia em inglês, francês, alemão e italiano. Um dos seus maiores medos era ser aborrecido.

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