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Quem são os designers de moda portugueses que conquistaram Rihanna? O Vida Extra entrevistou-os

Desfilaram na Semana de Moda de Paris e este mês apresentam a sua coleção primavera/verão 2019 no Portugal Fashion, no Porto. São dos designers de moda preferidos de estrelas como Rihanna e já ganharam maior prémio internacional atribuído pela Louis Vuitton a jovens estilistas. A sua marca já vende em 150 lojas espalhadas pelo mundo

Onde é que começa a história da marca Marques’Almeida e do casal Marta e Paulo?
Marta - Cresci no Porto. Descobri que queria ir para moda e fui para o CITEX (Centro de Formação Profissional da Indústria Têxtil), onde eu e o Paulo nos conhecemos.
Paulo - Venho de Viseu. Percebi que todos os designers que mais admirava tinham saído do CITEX e concorri. A nossa relação começou aí e, sendo namorados, trabalhávamos muito próximos, embora a fazer projetos separados. Ajudava a Marta numas coisas e a ela ajudava-me noutras.

Porque decidiram ir para Londres?
Marta – Quando acabámos o curso, a diretora sugeriu que fossemos tentar fazer alguma coisa fora, porque achava que tínhamos potencial. A Central Saint Martins em Londres pareceu-nos a melhor escola.

Como é que foi na Saint Martins?
Paulo - Super intenso. A diretora do curso, a Louise Wilson, que infelizmente morreu, tinha métodos de ensino pouco ortodoxos…
Marta – Defendia que é preciso destruir para voltar a construir o nosso ponto de vista enquanto designers, de forma mais honesta e autêntica. Para chegar aí destrói todos os vícios, medos e inseguranças. É um processo de ir ao fundo do ser, que é cruel, mas construiu a nossa carreira e quem somos enquanto designers.

Como é que acontece a vossa descolagem?
Marta – A Saint Martins é a única escola que tem o desfile integrado na London Fashion Week. Há uma pressão enorme, porque tem jornalistas e caça-cabeças de todo o mundo. Apareceu a Lulu Kennedy da Fashion East (organização britânica que financia o lançamento de designers), que nos convidou para fazermos parte do próximo desfile que iam fazer.

Tinham noção da dimensão do que tinham feito?
Marta - Nenhuma. O objetivo era fazer o desfile, sem fazer asneira, e finalizar o curso, o que em várias alturas pareceu muito difícil. O plano era arrumar as malas e ir fazer outra coisa, porque tinha sido uma experiência muito difícil. Mas a vontade que há em Londres em incentivar a criatividade levou-nos a pensar, ‘ok, se calhar conseguimos fazer.’

Com que dinheiro começaram?
Paulo - Com as nossas mesadas.
Marta - Tivemos ajuda dos nossos pais durante muito tempo. Começámos com €2 mil. Depois o Fashion East deu-nos 4 mil libras (€4.500).

Quantas horas trabalhavam por dia?
Marta - Só trabalhávamos. Vivíamos num open-space industrial, onde dormíamos e trabalhávamos, porque em Londres é tudo caríssimo. Tínhamos uma cama num canto, tapada pelos quadros de inspiração e máquinas de costura. Foi assim durante os primeiros dois anos.

Qual foi a inspiração da vossa primeira coleção, já era a ganga?
Marta- Sim, já era a ganga esfiapada.
Paulo – No fim do curso estavámos obcecados com a moda de topo estar direcionada para o vestido de cocktail e os estampados digitais. Coisas muito preciosas e caras, mas muito distantes da nossa geração.

Que idade têm?
Marta - Tenho 31 e o Paulo tem 32. Acabámos o curso com 23 e 24. Sentíamos que a moda de topo era para uma elite mais velha e afluente.
Paulo - Também porque ninguém conseguia vestir-se daquela forma no dia-a-dia.

Qual é o tipo de pessoa que compra a vossa roupa?
Marta- O cliente diversificou com o crescimento dos pontos de venda. Estamos em mais de 150 lojas a nível mundial, como a Saks Fifth Avenue nos Estados Unidos, Selfridges e Harvey Nichols em Londres e no Dubai, no online, e em pequenas boutiques. É alguém que tem uma atitude desafiadora, seja uma rapariga de 20 anos que poupou para conseguir comprar ou a senhora mais afluente de 50 anos. Mas é sobretudo na faixa etária dos 20, 30.

Também passam pelo fenómeno de ganhar notoriedade a reboque de celebridades?
Marta - Nunca enviamos coisas para as celebridades. As pessoas é que nos encontram.
Paulo - A Opening Cerimony (outro dos pontos de venda) tem loja em Los Angeles, que é a capital das celebridades.
Marta - Foi assim que a Rihanna nos encontrou e é dos exemplos em que tivemos mais resultados. Há dois anos ela usou num festival um casaco nosso de pelo lilás, que esgotou.

É igual ver uma pessoa desconhecida ou a Rihanna?
Marta- É diferente mas é igualmente gratificante, pelo prazer que as pessoas retiram em vestir a nossa roupa. O ‘empowerment’ que isso dá é a nossa missão. Por isso é que deixámos de fazer desfiles com modelos de agências para trabalhar com o que chamamos as 'MA girls', raparigas desconhecidas que descobrimos no Instagram.

O que é que procuram nessas raparigas?
Paulo – Normalidade e inspiração.
Marta - Podem ser todas diferentes na atitude, naquilo que fazem e vestem.


Têm estado a falar em ‘MA girls’. Optaram por afirmar a marca por esse acrónimo, pela dificuldade em pronunciar os vossos nomes?
Marta - Muitas vezes temos de soletrar (risos). O MA acabou por funcionar nas redes sociais e no online e foi uma maneira menos formal de falar da marca, mas continuamos a ser Marques'Almeida.


O nome português associa-vos automaticamente a Portugal?
Marta - Não necessariamente. Em Londres é habitual haver nomes estranhos e de todos os sítios. Perguntam-nos depois de haver alguma relação com a marca, sobretudo nos últimos tempos em que a indústria têxtil portuguesa está mais proeminente e as pessoas fazem mais a ligação.

O que significou terem ganho, em 2015, o prémio LVMH Young Fashion Designers?
Paulo - Foi um momento de viragem, até em termos pessoais. Foi um incentivo de confiança.
Marta - Foi um carimbo de apresentação e a parte financeira foi incrível (€300 mil). Na altura éramos uma empresa de cinco pessoas a tentar fazer imensa coisa com orçamentos e recursos minúsculos. Hoje somos 26 pessoas.

Tinham um plano B caso as coisas não dessem certo?
Marta - Nem tinhamos plano A (risos). Se havia a oportunidade de fazer um desfile, fazíamos o melhor possível. Fomos fazendo e quanto mais fazíamos, melhor foi correndo. Nunca parámos para questionar.
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