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Symington diz que os vinhos do Douro terão "qualidade excepcional" em 2019

Vindima no Douro foi este ano das mais longas, e o tempo ajudou à boa produção, tendo Portugal escapado às vagas de calor que assolaram a Europa. Mas "as alterações climáticas são agora uma ameaça sempre presente na vida do lavrador duriense", avisa Charles Symington

D.R.

Ao contrário de 2018 e 2017, anos menos favoráveis à produção de vinho, a casa Symington adianta ter obtido resultados melhores com a vindima de 2019, e antecipa que este ano os vinhos de mesa terão "qualidade excepcional" na região do Douro.

"A vindima de 2019 no Douro foi das mais longas dos últimos anos, com uma duração de seis semanas, desde a primeira semana de setembro até meados de outubro", refere Charles Symington, diretor de produção e vice-presidente da Symington Family Estates.

O responsável da casa de vinhos do Porto adianta que "as produções aproximaram-se da média, após anos de baixa produtividade de 2017 e 2018, e que "as nossas vinhas tiveram rendimentos médios de 1,27 quilos por videira ou 4.280 quilos por hectare". Frisa tratarem-se de "valores bastantes bons para nós, mas cerca de metade da média das regiões vinícolas em Portugal, e entre três a quatro vezes menos que as produções de muitas das regiões vinícolas da Europa e de grande parte do 'Novo Mundo'".

"Antes da vindima tivemos boas condições climatéricas, incluindo alguma chuva útil em finais de agosto", salienta o responsável da casa Symington, lembrando que o inverno e a primavera foram secos, e na segunda metade do verão as vinhas revelavam necessidade de água para assegurar as maturações. "Felizmente, a quase ausência de chuva entre maio e final de agosto foi colmatada por temperaturas estivais mais moderadas - em junho, enquanto que grande parte da Europa sofria vagas de calor, registámos temperaturas 4ºC abaixo da média mensal no Douro superior".

No caso dos tintos, a vindima da casa vinícola iniciou-se a 4 de setembro na Quinta do Ataíde, no vale da Vilariça, onde se faz produção biológica, e prosseguiu alguns dias depois para a Quinta dos Canais, Malvedos, Senhora da Ribeira e Vesúvio. Um aspeto positivo destacado na vindima de 2019 foi "o aumento da produção e a excecional qualidade dos brancos, quer em termos da boa condição do fruto, quer em termos do equilíbrio das maturações", e segundo Charles Symington "isto coloca-nos numa boa posição, considerando o crescente interesse nos vinhos brancos do Douro".

"Tivemos condições ideais em setembro com dias limpos e temperaturas moderadas a contribuírem para maturações graduais — evidentes no excelente equilíbrio entre açúcar e acidez". O viticultor adianta que "a Touriga Nacional revelou-se excelente e proporcionou vinhos retintos e bem estruturados". Relativamente à Touriga Franca, outra variedade relevante para os Portos e DOC Douro, setembro trouxe chuva "na quantidade certa para hidratar estas castas tardias", e o "tempo seco voltou logo a seguir a esta chuva oportuna resultou em aromas muito expressivos na Touriga Franca". De modo geral, "a qualidade dos vinhos que produzimos é bastante impressionante e os volumes também satisfizeram".

"Não precisamos de ser cientistas da ONU para ver os impactos das alterações climáticas"

Mas o vice-presidente da casa de vinhos do Porto deixa o aviso: "as alterações climáticas são agora uma ameaça sempre presente na vida do lavrador duriense, e não precisamos de ser cientistas da ONU para ver os impactos". Lembrando que "é frequente ouvir as pessoas no Douro a referir o estranho comportamento do clima, com precipitação imprevisível (e em menor quantidade) e ondas de calor mais intensas e longas no verão", frisa que "os nossos registos confirmam estes indícios, com períodos de seca mais longos, agravados frequentemente por temperaturas acima da média" - citando ainda estudos que apontam para subidas de temperaturas no Douro com aumentos de 1,7ºC para a média da temperatura máxima durante o ciclo de crescimento.

"Apesar destas condições, as notavelmente resilientes castas autóctones continuam a produzir vinhos do Porto e do Douro de qualidade excecional, mesmo em anos muito secos", constata Charles Symington.

"A vindima de 2019 foi mais um marco na transição da nossa região para uma nova era", considera ainda, chamando a atenção para outra questão: a falta de mão-de-obra. "Assiste-se há 15 anos no Douro a uma diminuição da população, com os jovens, compreensivelmente, a saírem em busca de alternativas de carreira à dureza da viticultura. Em consequência disto - e também devido ao boom turístico em Portugal que proporciona boas oportunidades de emprego - tem-se revelado muito difícil encontrar mão de obra sazonal durante a vindima".

A casa de vinhos no Douro tem apostado na mecanização da vindima, e até desenvolveu uma máquina própria. "Em antecipação à escassez crescente de mão de obra, temos estado nos últimos sete anos na dianteira a trabalhar no desenvolvimento de uma máquina de vindimar em vinha de encosta. 2019 foi o quarto ano de ensaios da máquina de vindimar Symington-Hoffmann, com muito bom desempenho nos patamares de várias das nossas quintas e que excedeu as nossas expetativas", avança Charles Symington. "Há ainda obstáculos a ultrapassar, entre os quais a adaptação de algumas das nossas vinhas para poderem ser vindimadas mecanicamente, mas acreditamos ter encontrado uma solução viável para uma das grandes questões com que se confronta o futuro da nossa região".

Lembrando que "ao contrário de vinhas facilmente mecanizáveis noutras regiões vitícolas do mundo, o Douro é constituído por cerca de 42 000 hectares de vinha de montanha (o que representa 52% da vinha de encosta mundial)", Symington sustenta que "enfrentamos um desafio significativo se não tivermos pessoas em número suficiente para vindimar as uvas. Nas duas vindimas passadas tivemos produções muito baixas, mas em 2019 a colheita foi generosa, mais em linha com as médias, e muitas propriedades sentiram dificuldade em contratar pessoas suficientes para vindimar". E deixa claro que "na Symington, contratamos muitas pessoas durante a vindima e continuaremos a fazê-lo. Temos mais de 1000 hectares de vinha em localizações privilegiadas, uma grande parte em socalcos estreitos, sobre encostas íngremes que apenas podem ser vindimadas à mão".

O investimento em mecanização da vindima "pode ser proibitivo para muitos", enfatiza Charles Symington, assegurando que "iremos partilhar os resultados dos nossos ensaios e daremos apoio a todas as instituições envolvidas na procura de soluções para a região".

E destaca que "provas cegas comparativas de vinhos produzidos a partir de uvas vindimadas à mão e vindimadas mecanicamente revelam que a qualidade é idêntica", assumindo-se "particularmente entusiasmado pelo facto da máquina de vindimar permitir uma maior flexibilidade em colher as uvas no momento mais indicado (sem estar dependente da logística cada vez mais complexa de reunir grupos de vindimadores, cada vez mais escassos)".

Produzir no Douro é 2 a 8 vezes mais caro que em outras regiões do mundo

A casa Symington assume ter "uma voz muito clara em relação à necessidade de reformar o quadro regulatório específico do sector, que afeta negativamente e sobretudo os preços que os lavradores recebem pelas uvas que vendem para produção de vinhos tranquilos (abaixo do preço de custo em muitos dos casos)". Para o vice-presidente, "foi com satisfação que vimos os preços das uvas subirem na vindima deste ano, embora tal se deva provavelmente ao aumento da procura após dois anos de escassa produção, e não necessariamente a uma tendência contínua". Sem um novo sistema de regulação "que abranja o vinho do Porto e o vinho do Douro, o desequilíbrio persistirá, com os lavradores a sofrerem as consequências, e o cenário promissor dos vinhos DOC Douro assente em premissas financeiras perigosamente insustentáveis", avisa.

"Há muito que podemos (e estamos a) fazer na vinha para ajudar a sua adaptação ao clima em mudança. Felizmente, neste verão, no Douro, escapámos às vagas de calor extremo que assolaram grande parte da Europa e que causaram danos nas vinhas em Espanha e França. Contudo, a ameaça de baixa precipitação faz-nos equacionar o uso regrado da rega nalgumas vinhas como forma de nos adaptarmos à mudança do clima e de assegurarmos a viabilidade da nossa produção em condições desafiantes", defende Charles Symington.

E destaca ainda que "a nossa equipa de I&D desenvolveu uma abordagem sofisticada baseada em estudos de stress hídrico ao adotar rega deficitária para sustentar as vinhas em determinados momentos e locais onde tal se revela necessário. Comparativamente a outras produções agrícolas, a pegada de água necessária para evitar perda de produção na vinha é minúscula. Não obstante, é claro que a sustentabilidade da produção de vinho no Douro tem de encontrar o ponto de equilíbrio com a disponibilidade de recursos hídricos pelo que continuaremos, em articulação com as instituições locais, a procurar soluções viáveis para a região, partilhando o nosso trabalho de investigação nestas áreas".

"Produzimos vinhos numa área de beleza deslumbrante, com socalcos esculpidos nas encostas, obra de várias gerações, onde as uvas são maioritariamente vindimadas à mão", faz notar Charles Symington, concluíndo que atendendo ao facto "do nosso custo de produção por hectare serduas e oito vezes acima de outras regiões do mundo, é fácil perceber porque achamos que trabalhamos uma das regiões vínicas mais desafiantes".