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Vinho do Porto quer ser tão caro como o champanhe francês

O Barca Velha pode ajudar o Douro a elevar os preços dos seus vinhos, e o Pêra Manca pode fazer o mesmo pelo Alentejo: a temática de valorizar os preços da produção portuguesa vai juntar especialistas internacionais no dia 24 em Lisboa

Lucília Monteiro

O sector do vinho do Porto pode aprender com os franceses produtores de champanhe a aumentar o preço médio das garrafas vendidas - é o que defende o projeto Criação de Valor na Vinha e no Vinho (CV3), que vai promover um seminário dedicado ao tema da valorização de preços dos vinhos portugueses, e que irá decorrer a 24 de outubro no Palácio de Queluz, em Lisboa.

Apesar de haver na região de Champagne menos produtores e menos hectares plantados que no Douro, o número de garrafas colocadas no mercado é três vezes superior (302 milhões, contra 106 milhões de vinho Porto) e a faturação global é quase 12 vezes superior (4,9 mil milhões de euros, contra 400 milhões de euros no caso do Porto). E em Portugal o sector do vinho "tem de fazer produtos de luxo para o mercado mundial", segundo conclui o projeto CV3.

“A questão é que o preço médio das garrafas de champanhe é de 16 euros, enquanto o preço médio das garrafas de Porto é inferior a 5 euros”, faz notar afirma António Manuel Vaz, responsável deste projeto dedicado à realização de estudos e eventos sobre a economia do vinho, e que resulta da parceria entre a AESE Business School, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), a ADVID, o INIAV e a consultora PwC.

“Sendo um produto com um reconhecimento de excelência idêntico, o vinho do Porto deve tentar reproduzir os mecanismos utilizados pelo champanhe ao longo das décadas para se tornar num produto de luxo pelo qual os consumidores globais estejam dispostos a pagar caro – e muito caro”, sustenta ainda António Manuel Vaz.

Agricultores em Champagne andam de Mercedes, no Douro lutam para pagar as contas

O Barca Velha pode ajudar o Douro a tornar os seus vinhos mais caros, tal como o Pêra Manca pode fazer o mesmo pelo Alentejo, conforme conclui o projeto CV3. Os casos de sucesso de vinhos portugueses vão ser analisados no seminário “Excelência e Luxo no Vinho”, um evento fechado e exclusivo a convidados que vai decorrer no Palácio de Queluz, reunindo representantes de grandes empresas do sector, além de investigadores nacionais e internacionais.

O destaque vai para a intervenção de Martin Kunc, da Southampton Business School, cuja temática é “O luxo e o desafio da cocriação: aprender com o champanhe”. é o título da conferência de Martin Kunc. Segundo este investigador, uma das chaves do sucesso da produção francesa na região de Champagne é a distribuição, pelos diferentes agentes, do valor gerado pelo vinho, que resulta muito mais equilibrada do que no Douro. “Em Champagne, os agricultores que fornecem uvas para as grandes casas andam de Mercedes. No Douro, quem vende as uvas para vinho do Porto tem muitas dificuldades em pagar as contas da vindima", faz notar António Manuel Vaz, do projeto CV3.

Outros casos de sucesso em Portugal, como o da casa Symington, ou em Espanha, em particular o grupo Vega Sicília, vão à mesa no seminário em Lisboa. “Os Symington iniciaram na década passada uma estratégia consistente de tornar os seus vinhos do Porto de topo (vintages, tawnies e colheitas) em produtos de luxo ou seja, mais raros e mais caros. O sucesso dessa estratégia permitiu-lhes aumentar a faturação entre 2000 e 2017, apesar de terem diminuído o número de garrafas vendidas”, faz notar José Ramalho Fontes, presidente da AESE e um dos mentores do Projeto CV3.

“Já o grupo Vega Sicilia é um exemplo muito inspirador de uma marca que, ao afirmar-se como produto de luxo, alavancou com o seu prestígio a região de onde é oriunda, no caso a Ribeira del Duero, em Espanha”, destaca ainda Ramalho Fontes, adiantando que um dos temas a discutir no Palácio de Queluz "será a viabilidade de marcas como Barca Velha e Pêra Manca fazerem o mesmo em Portugal, no Douro e no Alentejo”.

Espumante da Bairrada é o “Prosecco português”

Em análise neste seminário, também vai estar a experiência avançada pela Comissão Vitivinícola da Bairrada, liderada por Pedro Soares, que segundo o projeto CV3 usou o segmento de espumantes Baga-Bairrada para "posicionar os vinhos da região num patamar de valorização especial, elevando com isso o valor global da oferta dos vinhos bairradinos". Conforme destaca António Manuel Vaz, “vale a pena estudar os benefícios desta estratégia que, através de um sub-segmento, apostou na certificação e na consistência da qualidade para valorizar o preço por garrafa de um tipo de vinho português”, evidenciando-se que “há sinais interessantes de que poderá estar a afirmar-se uma espécie de ‘Prosecco português’, com uma grande capacidade de ser competitivo no mercado internacional”.

O seminário “Excelência e Luxo no Vinho” começa a 24 de outubro às 10 horas no Palácio de Queluz em Lisboa, em que o principal orador será Martin Kunc e tendo o foco em temáticas como gestão do produto e da marca, o exemplo do luxo na restauração, ou gerir múltiplos segmentos sem prejudicar o luxo.