Perfil

Vida Extra

“Hoje, a comida é quase uma religião”. Fomos a Modena falar com o chefe nº 1 do mundo

O chefe nº 1 do mundo, que revolucionou a cozinha italiana na Osteria Francescana, abriu-nos as portas do seu universo. Conversa com o génio inquieto que incorpora a música e as artes nos seus pratos, luta contra o desperdício alimentar e quer fazer mais “do que apenas boa comida”

Mattia Zoppellaro / Contrasto

O italiano Massimo Bottura, provavelmente o chefe de cozinha mais respeitado da atualidade, é um filósofo dos nossos tempos. Uma das suas receitas para o sucesso — talvez a mais importante — é “deixar sempre a porta aberta para o inesperado”. Se o fizermos, aquilo que encontramos pode ser muito melhor do que aquilo que procuramos. Esta entrevista é disso um bom exemplo. Cheguei a Modena, terra de ópera, carros desportivos e boa gastronomia, para uma conversa de hora e meia com o homem por detrás da Osteria Francescana, restaurante com três estrelas Michelin que, em 2018, foi considerado pela segunda vez o melhor do mundo (é o primeiro em Itália a conseguir essa distinção). O encontro estava marcado para o escritório, a dois passos do restaurante, mas depois de cinco minutos de espera o inesperado acontece: “Vamos levá-lo para a villa do Massimo. Ele está lá à sua espera”, avisa Francesca, a responsável pelas relações com a imprensa.

Só alguns amigos mais próximos do cozinheiro entraram já na enorme propriedade em San Damaso, a 10 minutos do centro da cidade, que ele e a mulher, a americana Lara Gilmore, compraram há ano e meio. Em maio, quando as obras de reabilitação ficarem por fim concluídas, abrirão as portas da Casa Maria Luigia (nome da mãe de Bottura), uma unidade turística com 12 quartos que é um museu vivo das obsessões do italiano: a arte, a música e, claro está, a comida. É lá que encontro o meu anfitrião, de 56 anos, vestindo uma fina camisola verde-claro da Gucci, calças cinzentas da mesma marca e ténis New Balance. Sentamo-nos num sofá à entrada do edifício principal, longe da confusão das obras, para uma conversa em inglês que se prolonga por mais de cinco horas e por três outros lugares: um Fiat 500, a Franceschetta 58 — o restaurante mais casual e mais económico de Bottura em Modena — e a moradia da família no centro de Modena.

Como descobriu esta propriedade?

Aconteceu por acaso, não era algo de que estivesse à procura. O Michael Stipe, dos REM, queria um lugar onde pudessem ficar uns tempos e gravar aqui em Modena, porque se apaixonaram pela cidade, são loucos por comida. Eles não estavam a conseguir encontrar nada, porque as pessoas não queriam arrendar o seu espaço a uma banda, então pediram-me ajuda. Isso fez-me pensar em criar um lugar que fosse como a minha casa, com as minhas paixões, cheio de arte, de música, e onde pudesse receber os clientes de todo o mundo que chegam à Osteria Francescana. Conheci por acaso uma agente imobiliária que me disse que havia uma belíssima propriedade, no meio do campo, que estava à venda num leilão judicial. Tinha lá estado quando era miúdo, há 35 anos, numa grande festa. Mas achei que a base de licitação era exagerada e pus a ideia de parte. Passado um ano, ainda não a tinham conseguido vender, e fiz uma proposta baixíssima, que foi recusada. Oito meses depois, estava em Nova Iorque e recebi um SMS da agente às seis da manhã: “A casa do campo é sua.” Casa? Qual casa? Já me tinha esquecido completamente. Virei-me para a Lara e disse-lhe: “Temos uma casa no campo.” E comecei a rir-me histericamente. Com tanta coisa que tinha em mãos, agora tinha de pensar também neste lugar. Depois percebi que era uma oportunidade.

Para fazer o quê?

Quando aqui cheguei, percebi que o edifício que está logo à entrada, onde eram as cavalariças, podia ser convertido num espaço para receber os imensos pedidos de grupos que temos na Osteria e que não conseguimos acomodar [as paredes estão repletas de obras de Damien Hirst feitas propositadamente para este espaço]. Vai ser uma experiência muito especial, porque a cozinha é aberta e vou cozinhar mesmo à frente das pessoas. Juntámos um grupo de gente apaixonada à volta deste projeto, construtores, arquitetos, artistas, galeristas, tudo amigos meus. O CEO da Gucci, um dos meus melhores amigos há 44 anos, mandou o papel de parede, os sofás, as cadeiras. Reconstruímos este lugar como se fosse a minha casa. As pessoas vão poder experimentar a minha vida, passear no meu jardim, nadar na minha piscina, guiar um Maserati como eu. Pus o meu coração nisto.

Para ler o artigo na íntegra, clique AQUI.

Siga Vida Extra no Facebook e no Instagram.