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O café em estado selvagem está ameaçado e o seu café matinal pode sofrer com isso

As alterações climáticas estão a ameaçar 60% das 124 espécies conhecidas de café, incluindo as duas utilizadas no café que bebemos

O seu habitual café da manhã pode ficar mais caro e menos saboroso. Um estudo divulgado na quarta-feira pela Science Advances concluiu que 75 das 124 espécies selvagens conhecidas de café estão em risco de extinção, o que põe em causa a produção global.

O café está entre as bebidas mais consumidas em todo o mundo, sendo apenas superada pela água e pelo chá. Segundo os investigadores, esta realidade pode sofrer alterações devido às alterações climáticas, secas, deflorestação e doenças das plantas.

As plantas de café necessitam de habitats muito específicos para sobreviverem. Atualmente, a maioria das espécies selvagens — ou seja, as que nascem naturalmente nas florestas — são encontradas em África continental e na ilha de Madagáscar, na Índia, Sri Lanka e Austrália. Com a subida das temperaturas e alteração dos padrões de chuva, é possível que o café deixe de conseguir sobreviver em alguns destes locais.

Apesar de não serem consumidas, as espécies selvagens de café são essenciais para preservar as duas espécies utilizadas na produção do café que bebemos (arábica e robusta). Os cientistas utilizam os seus genes para criar plantas geneticamente modificadas mais resistentes. “Estas espécies têm traços úteis para o desenvolvimento de café, como a tolerância ao clima e especialmente a tolerância à seca, resistência a doenças e pestes, conteúdo baixo ou zero de cafeína e melhoramento sensorial (sabor)”, explica o estudo desenvolvido por cientistas do Reino Unido e Etiópia.

Entre as 75 espécies sinalizadas, 13 foram consideradas criticamente ameaçadas, 40 ameaçadas e 22 vulneráveis. Das restantes, 35 não estão ameaçadas e sobre 14 não há informação suficiente para determinar o seu estado. O estudo concluiu também que as políticas de conservação são “inadequadas”, sendo que 28% das espécies crescem fora das zonas protegidas e 45% não fazem parte dos bancos de sementes. As áreas mais afetadas são Madagascar e Tanzania.

Sementes de café

Sementes de café

© Thomas Mukoya / Reuters

De acordo com um segundo estudo divulgado no mesmo dia na Global Change Biology, a espécie arábica pode ver a sua população selvagem reduzida entre 50% e 80% até 2088. Com um valor de exportação estimado nos 13 mil milhões de dólares por ano, esta é a espécie com maior importância comercial a nível mundial, representando 60% das trocas. As populações selvagens desta espécie são utilizadas para a recolha de sementes para cultivo e para colheitas diretas. O estudo defende que, caso sejam tidas em consideração as previsões de alterações climáticas, o café é considerado como “ameaçado” pelos critérios da Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais), o padrão internacional para avaliar o estado de conservação das espécies.

Os investigadores alertam que o café, comparativamente a outras plantas, é “particularmente caro” e difícil manter vivo em armazenamento. “Em última instância, precisamos de conservar as espécies selvagens existentes in situ [no local] para assegurar a preservação da restante diversidade genética”, afirmam.

“A primeira coisa de que precisamos é conservá-las [as espécies] na natureza, portanto precisamos de melhorar a gestão das áreas protegidas”, defendeu Aaron Davis da Royal Botanic Gardens, um dos cientistas responsáveis pelo estudo, em entrevista à CNN. “E também temos de designar novas áreas protegidas.” No documento pede-se também um aumento dos inventários de germoplasma (bancos que recolhem recursos genéticos dos organismo) e a melhor gestão e mais financiamento para estudos.

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