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Uma avó, meia dúzia de Cavacas e 1,5 milhões de euros

Antes um negócio familiar, hoje uma referência nacional, as “Cavacas das Caldas” e as waffers da “Avó Elvira” rendem 1,5 milhões de euros por ano

Inicialmente focado no mercado das Caldas da Rainha, Eduardo Loureiro abriu uma pequena fábrica, em 1995, onde começou a produzir as tradicionais Cavacas das Caldas, os Beijinhos e outros bolos secos. Hoje, além dos produtos estarem em inúmeras superfícies comerciais nacionais, a marca tem apostado na exportação para vários pontos do mundo, tais como França, Canadá, Estados Unidos da América, Angola, Suíça e, ainda, Bélgica.

“Eu não trabalhava nos doces, mas quando comecei a namorar, via os meus sogros a fazer as massas. E depois, quando casei, comecei a trabalhar com eles” explica o responsável da empresa. Adianta ainda que, nos anos 80 e 90, chegavam a vender-se 200 dúzias de cavacas por fim de semana, dado que, nessa época, as Caldas eram um forte ponto de atração turística.

Assim que se chega à fábrica, sente-se o cheiro a bolachas de baunilha e a calda de açúcar. Com dois mil metros quadrados, este lugar é onde agora se reúnem as duas marcas “Cavacas das Caldas” e “Confeitaria Monteverde”, das quais Eduardo Loureiro é o sócio-gerente. Apesar do investimento de quase um milhão de euros nas novas instalações, fundadas a 15 de maio de 2018, o facto de hoje as duas empresas estarem concentradas num único espaço permite que haja uma redução anual de 15% dos custos de operação e, simultaneamente, um aumento de 20% das quantidades produzidas.

Em 2012, ano em que Eduardo se tornou sócio da Confeitaria Monteverde, as bolachas waffers representavam 90% da produção da pastelaria. Contudo havia a necessidade de dar uma nova vida a este produto, já que o objetivo era torná-lo num artigo destinado ao “segmento premium”, conta Bruno Pinelas, responsável comercial da firma. Foi então que nasceu a “Avó Elvira”, a marca que hoje dá nome e cara às tradicionais bolachas de baunilha. “Estas são as waffers que antigamente se comprava nas mercearias e isso faz recordar as memórias de infância”, garante.

Bolachas waffers da marca Avó Elvira

Bolachas waffers da marca Avó Elvira

Fotografia cedida pela Fábrica das Cavacas das Caldas

Mercado da Saudade

Atualmente, existe uma grande discrepância entre a venda das bolachas waffers e das Cavacas das Caldas, já que as bolachas de baunilha são um produto de alta rotação e as Cavacas um artigo de “compra de impulso”, esclarece o diretor comercial. Uma vez que, além das Cavacas, também os Beijinhos e os Suspiros são doces sazonais, a empresa tem investido fortemente em diferentes mercados, tais como romarias e festas, especialmente entre abril e setembro, o que permite “dar mais visibilidade ao produto”, revela. “No supermercado somos mais um na prateleira e ali [nas festas e romarias] a promoção é só direcionada para os nossos artigos”, acrescenta.

Dos 1,5 milhões de euros que a empresa fatura anualmente, 20% corresponde à exportação. Segundo Bruno Pinelas, este tipo de atividade assenta essencialmente no Mercado da Saudade, ou seja, a compra destes produtos fora de Portugal não é feita em função do preço, mas sim da relação emocional que o comprador tem com o artigo. “É a saudade que se sente pelo país [de origem], que leva as pessoas a comprarem as Cavacas e os Beijinhos lá fora”, conta Bruno com um sorriso no rosto.

Inicialmente, foram os portugueses com comércio no mercado externo que começaram a levar os produtos além fronteiras, pois “é difícil chegar lá fora e explicar o que são as cavacas a um americano”, confessa o diretor comercial. E, por esta razão, o foco da empresa de Eduardo Loureiro tem sido os países com emigrantes portugueses. “Na América, por exemplo, vendemos muito para New Jersey, porque existe uma comunidade das Caldas muito forte lá”, revela. Uma surpresa para a marca tem sido a vontade que alguns armazenistas franceses e americanos têm demonstrado em adquirir os produtos caldenses, para depois os revenderem ao público.

Com o número dos pontos de venda a aumentar e uma fábrica com maior dimensão, a empresa necessitou de criar 13 novos postos de trabalho e a tendência “é sempre a aumentar, já que a confeção da maioria dos produtos são processos manuais”, explica Bruno. Quanto ao embalamento, conta que apesar de terem uma máquina para fazê-lo de forma automática, o cliente quer uma embalagem específica, o que implica mais mão-de-obra. No entanto, garante que são os processos manuais que fazem a diferença neste tipo de produtos. E isso vê-se. Pois é com dedicação e sempre com alegria que os responsáveis por este processo desempenham as suas funções.

Embalamento das bolachas de amendoim, um dos bolos secos produzidos pela marca

Embalamento das bolachas de amendoim, um dos bolos secos produzidos pela marca

Catarina Carvalho

Porém, nem tudo é tradição. Para o mercado externo foi necessário desenvolver uma nova receita para as Cavacas, já que a típica apenas confere dois meses de validade a este produto. E, segundo o sócio-gerente, os importadores só trabalham com mercadorias que tenham uma validade acima de seis meses, para poderem ter “garantias da qualidade”. Desta forma, nasceram as Cavacas Merengue que, no fundo, são o mesmo biscoito, mas com uma calda merengue, o que já oferece seis meses de validade. Alterada a receita e mantido o aspeto, o desafio é conseguir que o sabor tradicional permaneça intacto.

Em conjunto, as “Cavacas das Caldas” e a “Avó Elvira” faturam, aproximadamente, um milhão e meio de euros anualmente. Contudo, embora partilhem o local de fabrico, é fácil distinguir as duas marcas. “Quando se vê uma imagem da rainha D. Leonor, trata-se de Cavacas, Beijinhos e Suspiros. Quando a imagem é a da avozinha, o produto são bolachas e biscoitos secos”, explica Bruno, feliz por esta estratégia que sublinha tratar-se de um processo simples. No entanto, foi apenas em 2010 que a imagem da Rainha D. Leonor, símbolo da cidade das Caldas da Rainha, foi cedida a Eduardo Loureiro, pela Câmara Municipal. “Nós queríamos que as pessoas quando olhassem para a nossa marca, sentissem que era a empresa de referência das Caldas nesta doçaria”, esclarece o responsável.

Os vários tipos de Cavacas: as finas (embebidas na calda duas vezes), as saloias (de maior dimensão) e as “típicas” das Caldas

Os vários tipos de Cavacas: as finas (embebidas na calda duas vezes), as saloias (de maior dimensão) e as “típicas” das Caldas

Fotografia cedida pela Fábrica das Cavacas das Caldas

Assim, com mais de duas décadas de atividade, inúmeros prémios ganhos em concursos de doçaria e uma medalha de mérito da cidade das Caldas da Rainha, é com orgulho e ânimo na voz que Eduardo Loureiro enaltece o lema da empresa: “trabalhar bem, com um produto bom, para não deixar ficar mal os clientes. Porque as Cavacas das Caldas são, acima de tudo, um produto que representa o concelho.”

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