Perfil

Vida Extra

Estes restaurantes só têm uma mesa

Os restaurantes com mesa única são o aperitivo ideal para saciar o apetite de experiências sociais e sensoriais singulares, condimentando uma pluralidade comunitária

Os momentos partilhados à mesa assumem-se como catalisadores para conversas delongadas, onde o convívio é o prato principal e a cumplicidade é um aperitivo servido quente. A união entre as pessoas faz a força de uma boa refeição, numa sociedade em que o tempo nos é servido instantaneamente. O tempo não tem tempo e os almoços ou jantares de grupo, entre familiares e amigos, constituem um dos últimos redutos onde o espírito comunitário permite escapar à espuma dos dias. Instantes raros de confraternização, em que a proximidade com o outro ainda figura no menu e é especialidade da casa.

“Less is more” é máxima de vários espaços de restauração, com um conceito diferenciador, a brotar um por todo o país. São restaurantes pequenos, abertos a repastos com grandes doses de sociabilidade, onde a azáfama não tem lugar nas mesas comunitárias. O Expresso partiu à descoberta de alguns templos gastronómicos onde a mesa é, literalmente, única e está reservada para uma hospitalidade igualmente singular.

Uma capital única à mesa

Numa antiga mercearia de bairro, no número 204 da Rua de O Século, abriu no novo milénio um espaço renovado, com uma decoração minimalista, onde as cores neutras substituem as tonalidades garridas, como um pequeno estúdio onde é cozinhada uma nova experiência gastronómica e social. Num imóvel com 18 metros quadrados nasceu o Local. Simples no nome e igualmente fresco no conceito, trata-se de um restaurante com uma mesa de alumínio reciclado, única e comunitária, com lugar para 10 comensais, sentados confortavelmente numa sala de jantar longa e estreita.

“O espaço é mesmo pequeno. É capaz de ser o restaurante mais pequeno de Lisboa e talvez de Portugal”. Quem o diz, orgulhosamente, é o proprietário Miguel Quelhas, que importou dos Estados Unidos, país onde vive, esta moda de recuperar a tradição de reunir convivas à mesa. “As pessoas acabam por partilhar assuntos pessoais e experiências de viagens. Todos entram como estranhos, com culturas e idiomas diferentes, e tornam-se amigos, como se se conhecessem de longa data”, assegura o timoneiro deste Local, onde não há congelador nem empregados de mesa. Os produtos são sempre frescos e servem de matéria-prima para as mais variadas iguarias da cozinha portuguesa contemporânea. Os jantares são servidos às 19h30 e às 22h, ao estilo do chef Manuel Lino.

O Local germinou numa antiga mercearia, com comida ao estilo de Manuel Lino

O Local germinou numa antiga mercearia, com comida ao estilo de Manuel Lino

A primeira (refeição do) Ceia foi servida em agosto deste ano, no rés do chão de um antigo palacete reconvertido no boutique hotel Santa Clara 1728. O recém-inaugurado restaurante abriu portas pela mão de Pedro Pena Bastos, distinguido, em 2017, com o Garfo de Ouro, pelo “Guia Boa Cama Boa Mesa”. “Este é mais do que um negócio”, assegura, vincando que, acima de tudo, é algo que lhe dá prazer. “A forte aposta é na hospitalidade, num sentido mais ‘home feeling’, de volta ao bem-estar que se pretende que as pessoas recriem à mesa”, começa por explicar, ao Expresso, o chefe de 28 anos.

A única mesa disponível tem 6,5 metros e lugar para 14 pessoas. “Gostamos de lhes chamar convidados e não clientes”, frisa o proprietário que, juntamente com outros três cozinheiros, confeciona o jantar. Sempre pronto às 20h, em ponto, servido num espaço minimalista, desenhado pelo arquiteto Aires Mateus. “São pratos da minha linhagem e da forma como gosto de me expressar. Pouco produto, mas muito detalhe na confeção”, define Pena Bastos. Uma refeição no Ceia tem o custo de 100 euros por pessoa, com o acréscimo de 50 para uma opcional e rica degustação de vinhos.

Pedro Pena Bastos preparou uma Ceia comunitária num antigo palecete

Pedro Pena Bastos preparou uma Ceia comunitária num antigo palecete

Foi há mais de um ano, em julho de 2017, que o chefe Tomo decidiu regressar ao Japão, deixando as chaves e a gestão do conceituado restaurante Kanazawa, uma Meca dos sabores tipicamente japoneses localizada em Algés, nas mãos especializadas de um português. O seu nome é Paulo Morais. É ele quem cozinha e desfia histórias para um máximo de oito pessoas, estimulando a proximidade com os clientes, sentados ao balcão. Essa é uma das especialidades desta casa, de portas abertas no número 3 da Rua Damião de Góis.

O menu de degustação completo — “Tasting” — tem o custo de 150 euros, mas existem outros quatro pelo preço de 60 euros, sempre fiéis à tradição kaiseki. Aproveite para se deliciar com tofu caseiro, uma sopa de pepino com beringela assada e lírio, tempura de folha shiso ou um prato de carapau em salmoura e bomboca.

Um Porto comunitário

Também na Invicta atracou o apetite pelas mesas comunitárias. Junto à imponente Torre dos Clérigos, no número 102 da Rua Campo dos Mártires da Pátria, bem no coração da cidade, encontramos o Brick, um acolhedor bar de tapas, com petiscos mediterrânicos, apelando à partilha de sabores e sensações.

Entre a decoração moderna e cosmopolita ganham protagonismo as duas mesas, uma para 16 pessoas e outra com assento garantido para seis. O menu de grupo custa 25 euros e permite aos clientes deliciarem-se com as saladas de magret de pato, frango ou salmão, passando pelas tábuas de enchidos, queijos ou vegetarianas, até chegar à sobremesa, em refeições sempre bem regadas com vinho e cerveja à discrição, onde os momentos de convívio são servidos em doses avantajadas.

O sonho de dois turistas alemães, o jornalista Markus Zictz e a designer Christian Haas, chegou a bom porto, quando o sonho de abrirem um restaurante se tornou realidade. Assim se fez o Mondo Deli, localizado na Rua do Almada, 501, onde outrora existiu uma antiga loja de ferragens. Ali, todos os dias, são forjados pratos de origem asiática entrecruzados, harmoniosamente, com os produtos regionais e da época, desde saladas vietnamitas de polvo, carpaccio de beterraba com iogurte de rábano e vinagrete de maçã ou, para os mais aventureiros, kebab de peixe.

O espaço, desenhado por Christian, conta com duas mesas comunitárias, às quais se somaram três mais pequenas, todas elas com vista privilegiada para a cozinha, onde Markus e a chefe Catarina Garcias dão novos mundos de sabores ao Mondo Deli: deles e de quem os quiser visitar.

A carregar...