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Vida Extra

Um quadro com Julia, na 53rd St

A crónica da atriz Mia Tomé, “Miallennial”, sempre ao sábado, no Vida Extra

Durante uma aula de “Construção de personagem” no The Lee Starsberg Theatre and Film Institute, a professora pediu-nos para irmos até um dos museus da cidade nova-iorquina e escolhermos uma pintura que fizesse a ponte entre o texto que líamos e todo o universo que não está escrito, mas que estaria no nosso imaginário. Foi numa aula da Lola Cohen, que com certeza foi uma das mulheres mais interessantes com quem já conversei, e com quem mais aprendi. A Lola é uma atriz fantástica, com uma voz inconfundível; a Lola é uma professora direta, precisa, inteligente, com uma cabeça que está sempre a atirar-nos ferramentas que cruzam várias áreas artísticas.

Foi por sua culpa que descobri o The Frick Collection, mesmo ao lado do Central Park, um museu em jeito de palacete, antiga casa do Magnata Henry Clay Frick, cheio obras delicadas que nos provoca vontade de sentar no chão e ficar ali por horas a apreciar.

Foi no MoMa que os meus olhos se cruzaram com a resposta do desafio de Lola, num quadro do americano Andrew Wyeth de 1948, o conhecido “Christina’s World”.

É interessante, porque antes de olhar o título, percebi que aquelas cores e pinceladas se ajustavam muitíssimo bem a um qualquer universo feminino que andava a explorar, sendo que o meu mundo seria o de Julia e não o de Christina. Extamente, “Menina Julia” do senhor Strinberg, andava exaustivamente a pensar nela, na Menina.

Em caminhadas lentas pelos corredores do museu, tropeça o meu olhar no quadro: uma jovem deitada no chão, num vestido rosa esbatido, que ao longe vê uma casa. Não lhe vemos a cara, mas vemos um corpo frágil, desamparado e elegante que procura certamente chegar a algum lugar. Para mim aquela era Júlia, na sua angústia ansiosa de quem descobriu o que é amar.

A bela coincidência, para mim, surge quando me apercebo do título da obra e me deparo com o nome “Christina”, já que na peça do autor de Estocolmo a noiva de Jean (paixão de Júlia) é “Christine”, a criada da sua casa.

“Christina’s World” podia ser, então, um ponto de vista da noiva traída e amargurada, que observa de bom grado a tristeza da amante do homem que ama. Para ser ainda mais honesta, associo a pintura ao momento final de Júlia, uma espécie de percurso até ao seu suicídio: as mãos, os braços frágeis, o cansaço.

Na explicação de Andrew Wyeth, a jovem do quadro é Christina Olson, uma jovem com problemas de deterioração muscular, que paralisou os membros inferiores do seu corpo, daí a sua posição, deitada e em esforço.

Apesar de ir à procura da verdadeira história da obra, que se distancia e bem da peça de Strinberg, continuei a nutrir um carinho pela coincidência que gerei na minha cabeça. Partilhei o devaneio com a Lola, que sorriu e me aconselhou a avançar na escolha da pintura para trabalhar a personagem.

Já eu, continuei a acreditar que aquela podia ser a minha menina Júlia, ali na quinta avenida com a rua cinquenta e três.