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Vida Extra

Combater o racismo com campanhas e produtos de beleza?

No crescendo dos ataques racistas (e de celebração do Mês da História Negra), a jornalista Catarina Nunes escreve sobre a busca pela inclusão na indústria da beleza

Com 40 cores diferentes, as bases Dior Backstage (€40,20, El Corte Inglés e perfumarias selecionadas) têm apenas oito tons indicados para peles negras, uma proporção que é comum na esmagadora maioria das marcas de maquilhagem de luxo

Os insultos racistas proferidos contra Moussa Marega durante o jogo Vitória de Guimarães/Porto são a prova de que a cor da pele faz diferença e é uma forma de violência aceite entre um coletivo de adeptos do futebol. Não é de hoje, nem de ontem e provavelmente continuará amanhã. Escuso-me a elencar o sobejamente conhecido histórico, nacional e internacional, de crimes desta natureza, por não ser o propósito desta crónica.

À conversa desta semana trago uma forma de exclusão, que não tem a agressividade da violência verbal e física, mas que é igualmente uma não-aceitação dos negros e dos seus descendentes. A pouca (ou desajustada) oferta de produtos de maquilhagem adequados às diferentes tonalidades das peles escuras e a tentativa da indústria da beleza (em particular as marcas de luxo) em ajustar esta falha histórica. O tema parece fútil e secundário, face à atrocidade contra Marega (mais outros tantos casos, mediatizados ou não), mas reflete o racismo sistémico, estabelecido, aceite e não-declarado abertamente, em que os negros não são tidos em conta.

O corretor de imperfeições Dior Forever Skin (€32, El Corte Inglés e perfumarias selecionadas) acompanha a tendência de alargamento às cores escuras

O corretor de imperfeições Dior Forever Skin (€32, El Corte Inglés e perfumarias selecionadas) acompanha a tendência de alargamento às cores escuras

A existência reduzida (ausência total em algumas marcas) ou com tonalidades escuras desajustadas à realidade das peles negras são uma forma de ignorar um gigantesco grupo de pessoas e excluí-las de participar no universo dos produtos de maquilhagem. Sem insultos verbais diretos, mas deixando claro que esses tons de pele não são adequados ao que a indústria em geral tem para oferecer. A tomada de consciência (ou a necessidade de faturar em segmentos menos explorados) está a levar algumas das principais marcas de luxo a expandir as suas linhas de maquilhagem para o chamado ‘mercado étnico’.

A Dior é uma delas. Com a gama de bases Dior Backstage Face&Body Foundation, a Dior posiciona-se na elevada fasquia das 40 tonalidades diferentes, estabelecida por Rihanna com a marca Fenty. As quatro dezenas de cores, que são uma quantidade alargada e pouco comum na oferta de bases para o rosto, têm 16 intensidades e seis subtons, que pretendem servir desde as peles caucasianas às negras, passando pelas asiáticas e as mestiças. O espectro alargado de 40 tons, no entanto, traduz-se numa sub-representação das peles escuras, que têm apenas oito cores adequadas. Nas restantes linhas da Dior, a Dior Forever e a Dior Forever Skin Glow, a proporção não é muito diferente: sete cores escuras em 36 tons e quatro em 31, respetivamente.

Ao escolher Lupita Nyong’o, a Lancôme contrabalança as críticas recorrentes às marcas de beleza, por escolherem modelos e atrizes de origem africana mais claras e com feições ocidentalizadas

Ao escolher Lupita Nyong’o, a Lancôme contrabalança as críticas recorrentes às marcas de beleza, por escolherem modelos e atrizes de origem africana mais claras e com feições ocidentalizadas

A discrepância não é exclusiva da Dior, existe na maioria das marcas que não são criadas vocacionadas para as peles negras. Estée Lauder e Lancôme, por exemplo, são outras das insígnias de luxo que nos últimos anos têm vindo a apostar no alargamento da gama de cores, partindo de um histórico dominado por tons claros. Qualquer uma delas procura igualmente refletir a inclusão na hora de escolher os rostos das campanhas publicitárias: Manuela Sanchez (Dior), Anok Yai (Estée Lauder) e Lupita Nyong’o (Lâncome), por exemplo. Ao escolherem estes rostos, com traços e tons mais fortes, contrabalançam as críticas recorrentes às marcas de beleza, por escolherem modelos e atrizes de origem africana mais claras e com feições ocidentalizadas.

No ponto oposto às marcas criadas para peles brancas que começam a ter em conta as peles negras, há aquelas que nascem já focadas neste grupo. A Black Up é a primeira marca de luxo francesa para peles negras e mestiças, com tons desde o castanho mais suave ao negro mais intenso, todos eles ajustados à especificidade de quem produz mais melanina. O erro mais comum no desenvolvimento de bases para peles negras ou mestiças é considerar que basta adicionar pigmentos de cor mais escuros. Errado. Nesta matéria sei, por experiência própria, como é possível uma marca ter sete ou dez tons escuros e nenhum ser adequado. A minha mistura de mãe branca com pai negro dá-me uma cor de pele em que as bases escuras comuns (com pigmentos rosa, bege ou laranja, adequados às tonalidades de peles brancas) deixam-me com uma cor acinzentada.

As bases (€37, Perfumes&Companhia) são parte da linha da Black Up, primeira marca de luxo francesa para peles negras e mestiças

As bases (€37, Perfumes&Companhia) são parte da linha da Black Up, primeira marca de luxo francesa para peles negras e mestiças

Durante anos percorri todas as marcas possíveis. Até recentemente, a MAC, a Make Up Forever e a Bobby Brown (todas posicionadas para o sector profissional) eram das poucas com 40 tons e bastantes cores escuras, com os subtons certos. Mesmo neste ‘oásis de bases’, a Make Up Forever e a Bobby Brown diminuíram a oferta para peles com mais melanina, pelo menos em Portugal, e os meus tons desapareceram. A justificação? Cores descontinuadas para ganhar espaço nos expositores para novos lançamentos, nomeadamente de paletas de sombras, o grande motor de crescimento das vendas de maquilhagem. Para quem olha para a oferta atual (e não vive esta experiência na pele, literalmente) parece que há cores escuras suficientes. Mas o problema não reside aqui. O segredo das cores escuras é desenvolvê-las com pigmentos amarelos, vermelhos e azúis (em vez de rosa, bege e laranja, usados nas peles brancas), que fazem o necessário ajustamento às várias peles negras. É o tipo de formulação seguida pela Black Up, que lhe permite ter bases para Alicia Keys, Halle Berry, Lupita Nyong’o ou Adut Akech, exemplos em crescendo de tonalidades.

Nos Estados Unidos é onde o nível de detalhe dos produtos e quantidade de marcas estão mais desenvolvidos, por conta da força da comunidade afro-americana, que representa 86% do mercado de beleza étnica no país, com gastos anuais de 54 milhões de dólares (€50 milhões), de acordo com a Nielsen. Este segmento é impulsionado por várias marcas criadas por afro-americanas que, ao longo dos anos, detetam um vazio de mercado que não dá resposta às suas necessidades, sejam de bases para o rosto, batoms (são outro problema, porque as cores são desenvolvidas para lábios claros e não para lábios escuros, o que altera o resultado final da aplicação) ou produtos para o cabelo. Esta questão está tão na ordem do dia que no Mês da História Negra, que se celebra em fevereiro, o Macy’s assinala a data com ações nas suas lojas, como por exemplo debates sobre diversidade e inclusão na indústria da beleza e o visionamento da curta-metragem ‘Hair Love’, distinguida com um Óscar e que relata a vivência de um afro-americano que penteia o cabelo da filha pela primeira vez.

O primeiro filme da campanha ‘The Unlimited Power of Beauty’ acompanha as dúvidas de uma mulher negra em relação à sua imagem, mas a Sephora garante que o objetivo é celebrar todos os tipos físicos

O primeiro filme da campanha ‘The Unlimited Power of Beauty’ acompanha as dúvidas de uma mulher negra em relação à sua imagem, mas a Sephora garante que o objetivo é celebrar todos os tipos físicos

Uma mulher negra é também a protagonista da nova campanha da Sephora, mas esta cadeia de perfumarias do grupo LVMH garante que a opção é meramente ilustrativa. O objetivo, garante a Sephora, é celebrar todos os tipos físicos e a beleza enquanto ferramenta de poder e confiança. Vendo o anúncio sem este enquadramento fico com a sensação de se tratar de uma narrativa dirigida às mulheres negras, em que a protagonista fica em paz com a sua imagem quando chega a velha, depois de lutar ao longo da vida por se sentir bem. O filme da campanha ‘The Unlimited Power of Beauty’, que arranca esta semana em Portugal, retrata a história de uma mulher negra, desde a infância até à velhice, acompanhando as suas dúvidas com a autoimagem e as crises de baixa-estima devido à primeira rejeição amorosa e à entrada na terceira idade. A Sephora revela que este anúncio será seguido por mais três, dedicados a mulheres de sucesso com negócios de beleza: Rihanna com a Fenty e as gémeas Jean e Jane Ford com a Benefit (ambas as marcas integram o grupo LVMH, como a Sephora), mais Anastasia Soare da Anastasia Beverly Hills e Huda Katan da Huda Beauty.

No filme de arranque da campanha, a força e a diversidade estão presentes, com os momentos em que a protagonista dá a volta à tristeza e se diverte com amigas e amigos, mais a cena do beijo homossexual, por exemplo. Mas ao longo dos três minutos de duração do anúncio, o ‘mood’ geral é de conflito com a autoimagem (as sardas, o cabelo encarapinhado e o envelhecimento), em que a música ‘I’m Not In Love’ contribui para esta perceção, soando como uma conversa consigo própria. As questões relacionadas com a inclusão e representação da africanidade na indústria da beleza não se resumem a criar campanhas com modelos negras e bases de rosto com tons adequados, mas isto pode ajudar. O mais importante fica ainda por fazer. Ter negros e negras em cargos de decisão de topo nas empresas desta indústria, pois são eles e elas quem conhece as reais necessidades e as dolorosas restrições desta fatia da população. Mas isto custa mais do que fazer bases ou lançar campanhas inclusivas. Custa tanto como aceitar Moussa Marega a marcar o golo que define a vitória.