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Vida Extra

Boa sorte: ser cardada com cheiro a tabu

A crónica da atriz Mia Tomé, “Miallennial”, sempre ao sábado, no Vida Extra

D.R.

O teatro leva-nos aos sítios mais improváveis e fora da rotina. Refiro-me ao espaço físico, mas também a estados emocionais; refiro-me a pedaços de cultura que nem sempre ouvimos falar.

O processo das digressões tem esse bom sabor a descoberta, da cidade mais movimentada ao lugar mais pequenino. Coisas em comum? Ser único. Entrar numa outra vila ou aldeia nunca é igual: o espaço obviamente, o público é claro.

Descobri há um ano, em pesquisa com a Lígia Soares, para um projeto da sua autoria, os Cardadores de Vale de Ílhavo. Há quem os confunda com os Caretos, mas digo-vos: quem conhece os cardadores uma vez, nunca mais tem hipótese de não os conseguir distinguir.

Máscaras coloridas com um nariz fálico, penas de aves à volta dos olhos de cortiça e uma quantidade imensa de fitas de papel coloridas, obrigatoriamente borrifadas com o perfume “Tabu”. As suas vestes assemelham-se à roupa interior feminina, num tom mais histriónico à moda do carnaval, pele de carneiro e um cinto extremamente barulhento cheio de chocalhos.

Sim, os cardadores vivem no carnaval e, um ano após a nossa pesquisa, tivemo-los dentro do espetáculo da Lígia.

Os cardadores são uma espécie de grupo secreto. E digo isto porquê? Começam os seus rituais, exatamente trinta dias antes do dia do entrudo. Ficam na sua chamada “caserna” todas as noites, onde mais ninguém pode entrar: ninguém pode saber de nada.

É uma tradição que tem séculos e nenhum deles nos conseguiu explicar quando começou. Mas o que fazem eles então? Saem à rua e vão cardar quem está nas ruas para lhes trazer boa sorte, isso mesmo, boa sorte.

Há todo um encanto quando sentada no chão do palco, escuto um dos cardadores (sem máscara) a explicar-me com carinho a sua tradição. Não consigo parar de fazer perguntas, e foco-me por momentos no facto de eles não permitirem mulheres. Conta-me que, enfim, é a tradição, que é assim há muitos séculos. Ficamos só de ouvidos para o escutar: das histórias mais heróicas de salvamentos de máscaras, à PIDE que por eles também passou.

Retomamos o ensaio e esperamos ansiosamente pela cena em que eles entram.

No fim fui confrontada com a pergunta: “Foi cardada o ano passado, então teve boa sorte durante o ano, não teve?” Respondi-lhe que, de facto, não me podia queixar. Aconselhou-me, então, que no dia seguinte os esperasse de novo, para que a sorte me acompanhasse neste ano.

Ele não sabe e eu não lhe disse, mas sorte tive eu, por estes dias o poder escutar com calma, numa conversa em que o meu entusiasmo não conseguia parar de fazer perguntas.