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Vida Extra

O Óscar que vai para o Japão

Na crónica ‘Sem Preço’ desta semana, a jornalista Catarina Nunes escreve sobre a ‘outsider’ asiática que se afirma no duelo de joias em Hollywood

Quioto e os seus 1200 anos de história são a inspiração da Niwaka, denominação que contém as palavras ‘pessoa’ e ‘o próprio’. A ideia é que a marca seja parte da ligação de cada um a outra pessoa

Uma semana depois da atribuição dos Óscares, ainda há quem faça o balanço da noite mais importante da indústria do cinema. As estatuetas estão mais do que atribuídas e, provavelmente, arrumadas nas estantes em casa dos premiados. As contas que ainda se fazem têm a ver com os vencedores da disputa (menos óbvia) entre as joias usadas na passadeira vermelha. Uma presença que é altamente capitalizada em termos da comunicação das marcas.

Desde o início, há 92 anos, que os Prémios da Academia têm tanto a ver com a cerimónia como com o que se passa na passadeira vermelha. Aqui, ano após ano, o foco está em que é que leva vestido o quê (e de que estilista) tanto como nos prémios, gafes, declarações polémicas e ausências. Em matéria de opções de estilo, as atenções centram-se essencialmente nas roupas (o aspeto que é mais referenciado na cobertura mediática), mas cresce a visibilidade dada ao detalhe que pode custar tanto (ou mais) do que a própria indumentária: as joias.

Laura Dern com vestido Armani Privé e o conjunto de joias Niwaka, em ouro branco e diamantes, que a marca avalia em cerca de 300 mil dólares (€276 mil)

Laura Dern com vestido Armani Privé e o conjunto de joias Niwaka, em ouro branco e diamantes, que a marca avalia em cerca de 300 mil dólares (€276 mil)

Jeff Kravitz

Aos olhos mais atentos, tem vindo a destacar-se uma marca de alta joalharia ‘outsider’ de Hollywood, epicentro de celebridades e onde os joalheiros históricos de referência mundial são os que mais ordenam. Segundo a conta oficial da Niwaka no Instagram, é só desde 2015 que esta marca japonesa de joias ornamenta estrelas da La-La Land, em passadeiras vermelhas de eventos exclusivos. Este ano, na 92ª entrega dos Óscares, a Niwaka alcança a coroa de glória, ao ver as suas joias usadas por Laura Dern, a atriz ultra-consagrada e premiada com o Óscar de Melhor Atriz Secundária, pelo papel no filme ‘Marriage Story’.

O troféu (o primeiro Óscar de Laura Dern) significa também um prémio para a marca japonesa, criada apenas em 1983 por Toshikazu Aoki, designer de jóias e artesão japonês. A Niwaka não só aposta numa atriz que acaba por ser distinguida, como penetra nos bastidores da eleição dos ‘looks’ das celebridades em cerimónias com dimensão planetária. É aqui que tudo começa. Todas as figuras públicas e atrizes de Hollywood têm alguém que define, pesquisa e escolhe o visual (e as marcas) com que se apresentam publicamente. São os ‘personal stylists’,os gestores de imagem e os assistentes pessoais quem tem o poder de projetar designers e marcas, ou remetê-los ao anonimato.

Os brincos Renka refletem as glicínias ondulantes e não estão à venda nem têm preço definido. Antes de Laura Dern são usados por Emilia Clarke, nos Óscares de 2019

Os brincos Renka refletem as glicínias ondulantes e não estão à venda nem têm preço definido. Antes de Laura Dern são usados por Emilia Clarke, nos Óscares de 2019

O duelo é acirrado para conquistar a preferência destas figuras, que são alvo de conquista, temor e ódio. Longos meses antes dos Óscares são bombardeadas com uma profusão de vestidos, sapatos, carteiras e joias. Estas peças, algumas delas com a indicação de terem sido desenhadas especialmente para a atriz em causa, são entregues em mão ou estão disponíveis em ‘show-rooms’. É a partir delas que é feita a seleção de quem vai usar o quê, o que justifica as emoções exacerbadas em torno deste processo, cujo desfecho só é conhecido no momento em que a atriz pisa a passadeira vermelha, porque até aqui as marcas não têm a garantia de que as suas peças serão usadas ou não.

Neste contexto, o que a Niwaka consegue é vencer uma prova de fogo. O design inspirado na cultura e história de Quioto (de onde a marca é originária) é o seu cartão-de-visita, demonstrado nas joias usadas por Laura Dern. Os brincos Renka, por exemplo, refletem as glicínias ondulantes, tema explorado na poesia e na dança japonesas, e o anel Karahana traduz a beleza infinita, através da utilização de um antigo símbolo egípcio levado para o Japão há milhares de anos. Além destas peças, a vencedora do Óscar de Melhor Atriz Secundária desfila com três pulseiras (das coleções Kano e Kuon), tudo em ouro branco e diamantes

O anel Karahana, em ouro branco e diamantes, traduz a beleza infinita, através da utilização de um antigo símbolo egípcio levado para o Japão há milhares de anos

O anel Karahana, em ouro branco e diamantes, traduz a beleza infinita, através da utilização de um antigo símbolo egípcio levado para o Japão há milhares de anos

Laura Dern é quem garante o topo da visibilidade da Niwaka nos Óscares deste ano, através da transmissão mundial do evento e das infindáveis fotografias na passadeira vermelha, cujas partilhas nas redes sociais levam a imagem da atriz aonde quer que haja Internet. A aposta nos grandes eventos de Hollywood acaba por dar mais frutos em termos de notoriedade do que abrir lojas nos Estados Unidos. Esta estratégia é seguida primeiro com um ponto de venda no Soho, em Nova Iorque, que acaba por ser encerrado em 2000, e mais tarde, em 2007, com uma loja na 5ª Avenida, que é igualmente fechada em 2009, num processo em que declara falência.

A forte concorrência dos joalheiros norte-americanos históricos (Tiffany&Co, Harry Winston e David Webb, por exemplo), aliada à crise e à subida do preço das rendas (que no ano passado dita a falência do Barney’s em Nova Iorque) são aspetos que terão influenciado a saída. Desde essa época, o retalho da Niwaka passa a focar-se exclusivamente no país de origem, com 16 lojas próprias mais 50 outros pontos de venda. Agora, a 6 de fevereiro, acaba de inaugurar uma loja com rés-do-chão e mais cinco pisos em Ginza, bairro de Tóquio que concentra as marcas de luxo. Na antiga capital do Japão, Quioto, encontra-se a sede com a loja-bandeira da Niwaka, projetada por Tadao Ando, arquiteto japonês vencedor do Pritzer Prize e um dos mais conceituados a nível mundial.

A loja-conceito em Ginza, bairro de luxo em Tóquio, é a mais recente abertura da Niwaka, que tem pontos de venda apenas no Japão

A loja-conceito em Ginza, bairro de luxo em Tóquio, é a mais recente abertura da Niwaka, que tem pontos de venda apenas no Japão

O investimento nos grandes eventos nos Estados Unidos traz o triunfo supremo quando, além de eleger a Niwaka para o ‘look’ da noite, a atriz é premiada. Na edição deste ano dos Óscares, além de Laura Dern, a marca japonesa põe as fichas em Caitriona Balfe, que apesar de não ser nomeada é a atriz principal de ‘Ford versus Ferrari’, candidato a Óscar de Melhor Filme. De fora ficam outras atrizes que podem ter recebido joias Niwaka, mas que não as usaram ou que as tenham usado sem que isso tenha sido registado pela imprensa (o que na prática tem o mesmo resultado: ausência de notoriedade). O prémio de Melhor Pontaria Para Atrizes, esse, vai para David Webb, cujas joias ornamentam a vencedora de Melhor Atriz, Renée Zellweger, no filme biográfico ‘Judy’.

Este joalheiro, que na Europa não tem a projeção da Bulgari, Chopard, Cartier, Chanel ou Boucheron (marcas fortíssimas nesta edição dos Óscares), integra o grupo mais exclusivo de joias Made in US. Harry Winston, Forevermark (da anglo-americana De Beers), Tiffany&Co e Kwiat são as marcas de origem norte-americana mais vistas nos Óscares, provando que o nacionalismo é uma opção. O esmagador vencedor da noite, Bong Joon Ho com quatro óscares para o filme ‘Parasitas’, afirma, no discurso de agradecimento, que o mais pessoal é o mais criativo, citando Martin Scorcese. É a fórmula do realizador da Coreia do Sul que põe a Academia a seus pés e a mesma que dá à Miwaka o reconhecimento nas passadeiras vermelhas. Duas lições sobre identidade e autenticidade que desafiam as convenções de Hollywood.