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Vida Extra

É uma espécie de amante

A crónica da atriz Mia Tomé, “Miallennial”, sempre ao sábado, no Vida Extra

Getty Images

Ontem foi dia de São Valentim, também repararam? Olhem que coincidência! Mas também com tanta montra cheia de vermelho, bonequinhos kitsch e postais florescentes, como não reparar há quase um mês que ele estava mesmo aí!

Passaram bem? Divertiram-se? Foram finalmente àquele restaurante, onde andam a tentar reserva há seis meses? Receberam muitas prendas e flores, e bilhetes para aquela banda que toca aquela canção fantástica? Que bom para vocês, já eu tive de ir para o teatro.

Não, não me estou queixar. O teatro é um sítio incrível para se trabalhar, de um modo geral é um lugar óptimo para se estar. Não me estou a queixar de nada, nem a fazer uma ponte para que o teatro seja o meu verdadeiro amor, porque no fundo até é ele que fica comigo grande parte das noites.

“Anda, vamos viajar naquela semana!” – Não posso, estou em ensaios. “É sábado à noite, vamos ficar no incógnito até fechar!” – Não me dá jeito que amanhã faço matiné. “No próximo fim de semana vamos passear os dois!” – O próximo fim de semana ainda estou em cena.

Que belo amante me saiu, esse safado do teatro, esse grandessíssimo sedutor com idade para ter juízo. Fica-me com as noites e com as tardes também, juro-vos. Então sobram as manhãs! Mentira, no fundo ele nunca larga, nunca fica longe. Se não estamos nós no teatro, está o teatro lá por casa, nas folhas que devia estar a decorar, nos livros que devia estar a ler. Ele é persistente e sei que no fundo ele queria ser exclusivo.

“Estás pensativa e com o olhar distante!” – Pois claro, com tanta folha A4 para por na cabeça, não devo estar com o pensamento aqui. Quase que põe em causa a minha verdade, a verdade que lhe estou a dizer, e depois faz-me sussurrar baixinho e entre os dentes aquela fala mais matreira.

E as datas? Aquelas que têm de se conjugar com outras datas de outras situações também amadas? Fica o amor principal a achar que é tudo drama.

Faz-me chegar tarde a casa com o pensamento noutro lugar, com vontade de voltar para ele, porque há sempre algo que ficou pendente, algo que podia fazer.

É uma espécie de amante, um amante meio amado que às vezes deixa angústia: quer demais sem pedir, e depois finge que não quer.

No fundo também gosto que seja assim, e sobre os próximos anos, se continuar desta maneira, será uma maneira feliz.