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Vida Extra

A camioneta foi à mina

Sexta geração da pick-up L-200 Strakar apresentada nas antigas Minas do Lousal, em Grândola. Tem menos cavalos mas uma suspensão mais eficiente

A caminho das Minas do Lousal

D.R.

Sendo as pick-ups veículos de trabalho, nada melhor para a apresentação da nova versão da Mitsubishi Strakar que um local dedicado à memória do trabalho luso, neste caso mineiro, no Lousal a sul de Grândola. Aqui se explorou, entre 1900 e 1988, uma jazida de pirite de ferro. O objectivo não era a extracção deste metal, aqui de fraca qualidade, mas sim o aproveitamento do enxofre das pirites para a produção industrial de ácido sulfúrico, depois utilizado nas fábricas de adubos da empresa proprietária (SAPEC) e da CUF do Barreiro.

Um percurso TT com começo perto de Santa Margarida da Serra, permitiu levar as Strakar até ao antigo couto mineiro do Lousal, agora musealizado e integrado na rede Ciência Viva. Esta 6ª geração do popular e versátil veículo todo-o-terreno do fabricante japonês coincide com os 40 anos da sua introdução em Portugal. Com o tempo a gama foi-se desdobrando em versões de trabalho propriamente ditas e versões de lazer, diferenciadas pelo equipamento e pelo desenho exterior.

Esta incursão de poucas dezenas de quilómetros pela serra de Grândola deixou uma certeza: foi bastante mais fácil guiar a nova L-200 ao longo de estradões e caminhos rurais, com uma ou outra zona lamacenta, do que era noutros tempos descer à mina, extrair e tratar o minério. De facto, como se explica aos visitantes no Centro Ciência Viva do Lousal, o filão chegou a ser explorado até à profundidade de 500 m em sucessivas galerias. Ao esforço físico de oito horas de trabalho debaixo da terra, juntavam-se as altas temperaturas e a atmosfera poluída por partículas de sílica, já que as tecnologias de extracção de poeiras e renovação do ar eram incipientes.

A nova L-200 junto ao malacate do antigo Poço nº1

A nova L-200 junto ao malacate do antigo Poço nº1

D.R.

Um monumento ao trabalho

Com os pulmões minados pela silicose, não admira que a esperança de vida destes mineiros andasse pelos 40 anos. Se Jaime Cortesão chamou aos socalcos vinhateiros do Douro “o mais belo e doloroso monumento ao trabalho do povo português” o mesmo se poderá dizer destas minas.

Onde chegaram a residir 4000 pessoas hoje há a décima parte. E mais para norte, nas antigas minas da Caveira só restam edifícios abandonados como

constatei ao volante da nova Mitsubishi Strakar. Esta, mantendo embora algumas afinidades estéticas com a geração anterior, diferencia-se mais pelo conteúdo que pela forma. Uma dupla operação dos projectistas levou a duas coisas: à redução da cilindrada, da potência e das emissões poluentes do motor, conjugada com um franco melhoramento da suspensão, que se revelou bastante mais eficiente e confortável, tanto em estrada como fora desta.

O novo motor turbodiesel de 2300 cm3 tem menos 30 cavalos que o antigo, ficando-se pelos 150, donde resultam consumos e emissões mais alinhados com os novos tempos, ou seja da ordem dos 8,6 l/100 km. Contudo, esta diminuição de potência não se sente muito ao volante já que o binário se mantém nos 400 Nm, o que garante resposta suave e pronta mesmo a baixa rotação, como, de resto, se espera dum veículo TT. E, justamente para passagens mais complicadas, esta nova versão traz de série a possibilidade de bloquear o diferencial traseiro, coisa que pode significar o reforço de tracção necessário e suficiente para não termos de ir buscar um tractor ou uma escavadora…

Rica comida de pobres

Falando em escavar, uma das peças que ainda se podem apreciar no Lousal é o antigo malacate do Poço nº 1, torre de ferro que suportava os guinchos e cabos que faziam subir e descer os elevadores (aqui chamados jaulas) que transportavam pessoas, material e minério. Um documentário a preto e branco, com locução de Fernando Pessa, exibido no auditório do Centro Ciência Viva dá uma ideia da vida que fervilhava nestas instalações 24 horas por dia. As tradições de quem aqui viveu e trabalhou passam também pelo canto e pela comida. No restaurante Armazém Central é possível tomar contacto com a hábil gastronomia alentejana, feita de receitas de pobres para produzir comida rica. E, se for o caso, ao som do Cante alentejano, agora Património da Humanidade e que, como pude constatar, ressoa mesmo com uma formação reduzida ao mínimo: o alto, o ponto e mais dois cantores.

Em Portugal nova Strakar não vai ser vendida em cabina simples mas apenas em cabina alongada (três lugares) ou dupla (com apenas um lugar traseiro, caso se trate de uma versão comercial, logo mais barata). Existirá com caixa de velocidades manual ou automática (ambas de seis relações) e dois níveis de equipamento. O preço irá dos € 32900 aos € 37000, custando a versão de caixa automática € 40700.