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Do cinema dourado: Kirk Douglas

A crónica da atriz Mia Tomé, “Miallennial”, sempre ao sábado, no Vida Extra

Evening Standard / Getty Images

Falava-se de Kirk Douglas como uma das poucas estrelas vivas da Era de ouro do cinema americano. Para mim, o eterno cowboy, para tantos outros o eterno Spartacus.

Estava no fim de um ensaio, sentada na plateia, a aguardar indicações, quando as notas de cena foram antecipadamente substituídas pela noticia da morte de Kirk Douglas. Encostei-me na cadeira, olhei para o encenador que carregava a má notícia no telefone, e tenho a sensação de ter dito um conjunto de palavras impertinentes e infantis, de quem não gosta nada de perder um ídolo. “Não fiques triste, ele já tinha 103 anos!” Ora, e quê? Até podia ter mil. Aliás, certamente que tinha até mais de mil! Com a quantidade de vidas que viveu na tela, ao lado de outros ícones como ele, estou certa que a eternidade lhe foi atribuída. E mais, imortalidade pouco tem a ver com eternidade, porque eterno já ele é. Kirk Douglas pode ter morrido aqui neste planeta, mas assim como as estrelas a sua luz continua por esse Espaço fora.

Foi nomeado por três vezes ao Óscar de melhor ator, mas nunca ganhou. Recebeu então em 1996 um Óscar honorário de carreira.

Um marinheiro que trocou a marinha pela Broadway, que contracenou com as maravilhosas Doris Day ou Lauren Bacall, um marinheiro que se transformou em cowboy pelo menos três vezes, ao lado de John Wayne. E é assim que me quero lembrar dele, nos seus jeitos de western, na sua figura bela e charmosa, com um queixo característico e uma voz sedutora.

Em “There Was Crocked Man”, filme realizado por Joseph L. Mankiewicz de 1970, Douglas foi tudo isso. É muito provavelmente o filme em que gosto mais de o ver, com uma banda sonora abençoada, composta por Charles Stouse: faz com que Douglas na tela, pareça que levite.

No seu centésimo aniversário, em 2016, a Cinemateca Portuguesa dedicou-lhe um ciclo, onde foram projetadas as obras mais marcantes em que trabalhou. De Noirs a Westerns, Kirk Douglas fez de tudo, do teatro ao cinema, do marinheiro ao vilão que sabe lutar.

De facto há formas melhores de terminar um ensaio, mas uma coisa é certa: do senhor Douglas não nos vamos esquecer.