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Qual o impacto do coronavírus no luxo? Está em lockdown

Helena Amaral Neto, professora no ISEG e responsável pelo curso executivo de luxo, tem nova crónica no Vida Extra

Helena Amaral Neto

Helena Amaral Neto

Professora no ISEG

O ano do Rato está a começar da pior forma para os chineses, com o surto do novo coronavírus a afetar tudo e todos. Os impactos são visíveis nas cidades fantasma em quarentena, no encerramento das fronteiras e no cancelamento de transportes. A China está em lockdown, mas os efeitos do vírus na saúde publica e na economia são globais – e afetam alguns setores mais do que outros.

Esta epidemia revela a enorme dependência do setor do luxo no mercado Chinês, não só Chineses a comprar na China como Chineses a comprar em viagem. Segundo os dados da consultora Bain, estamos a falar de um mercado global que atingiu €1.3 triliões de vendas em 2019, com um crescimento de 5%, em que 90% deste crescimento se deve aos Chineses. Só na categoria de “personal luxury goods”, que vai desde moda e acessórios a joalharia e cosmética, os Chineses já representam um terço de todo consumo mundial. E estima-se que dentro de 5 anos, uma em cada duas vendas de produtos de luxo seja feita a Chineses!

Por isso não é de admirar que as principais empresas e investidores do mercado de luxo estejam a acompanhar de perto a evolução do vírus. É inevitável a comparação com o surto do SARS em 2002-03, a última grande epidemia na Asia, que demorou cerca de 6 meses a ser contida e infetou mais de 8,000 pessoas. O impacto do SARS na indústria do luxo foi relativamente limitado, com uma quebra de 17% durante os meses críticos, mas que recuperou rapidamente após o fim da crise.

Passados 17 anos, o cenário na China é totalmente diferente. A presença das marcas de luxo nas grandes cidades Chinesas é hoje preponderante. Porta sim porta sim temos Gucci e Louis Vuitton, Prada e Tiffany´s, além de ser o mercado de luxury e-commerce mais desenvolvido do mundo. Tal tem sido o crescimento do mercado chinês que já representa a maior fatia das vendas de muitas das grandes marcas de luxo. Daí que o impacto da quebra do consumo chinês devido ao coronavírus seja crítico para os maiores grupos de luxo – LVMH, Kering e Richemont – e para marcas como Hermès e Burberry.

Há um impacto duplo deste surto. A epidemia coincide com as férias do Ano Novo Chinês (equivalente ao Natal Ocidental), em que tradicionalmente os Chineses viajam – dentro e fora da China – e aproveitam para fazer compras. Com o encerramento dos centros comerciais e o cancelamento das viagens nesta época alta, o vírus travou a fundo o consumo Chinês – não só na China, mas sobretudo nos destinos de turismo de compras de luxo, em que os efeitos se sentem desde Bond Street à Avenue Montaigne.

2020 vai ser um ano desafiante para o setor do luxo - cada vez mais dependente do mercado Chinês - em que tudo vai depender do tempo para resolver a crise desta epidemia.