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Vida Extra

We can be heroes, Jojo!

Viver sem medo, ao som das melodias do respeito, onde o diálogo e a tolerância podem ser heróis. A crónica da atriz Mia Tomé, “Miallennial”, sempre ao sábado, no Vida Extra

D.R.

Esta foi uma semana em que várias vezes falámos de democracia, dela e da sua sobrevivência. Afinal para onde caminhamos? Quando me apercebo de algumas ideias em alguns programas eleitorais, de partidos que foram eleitos de forma democrática, a apelarem de certa forma pelo fim da democracia, e com ligações a ideias ou pensamentos ditatoriais, (que a história tão bem conhece), dá para ficar um bocadinho de sobrancelha erguida. Nada é perfeito, é um facto, haverá sempre questões por limar, mas que essas mesmas questões possam ser discutidas e pensadas através do diálogo e da escolha civil. Conhecemos países que atualmente lutam por uma democracia e que a defendem como modelo político, por exemplo o Sudão que vivia num regime autoritário, tem neste momento o objectivo de abrir caminho às eleições democráticas nos próximos anos. Ou a Ásia, que em muitos dos seus países já podemos ver a democracia como um projeto a ser continuado.

O que me incomoda quando vejo esse tipo de comentários ou observações antidemocráticas, que muitas vezes nos chegam disfarçados ou maquilhados com populismo feroz, é que parece que não aprendemos nada com a história: não aprendemos e gostamos desta brincadeira de pisar a linha e experimentar os limites. É aqui que a arte entra, tantas vezes para nos lucidar, a dar-nos toques de alerta, a tentar relembrar-nos o passado e suas terríficas consequências.

A pertinência do cinema é das coisas mais gratificantes deste planeta e. como tal, não posso negar a gratidão que sinto por se fazerem filmes como Jojo Rabbit. Realizado por Taika Waititi, está na corrida para os Óscares com seis nomeações. O filme atira-nos uma boa história do tempo em que existiu o ditador nazi, (aquele que mandava matar judeus e nem capacidade tinha para ter um bigode inteiro). Não, não é um filme inédito relativamente aos seus conteúdos, já outros realizadores (e bem), nos mostraram na tela como o nazismo foi demoníaco e desconcertante para a humanidade, mas em 2020 voltar a pegar nessa temática para se fazer um filme, não pode ser por acaso. É mais um alerta que a arte nos está a dar, mais um grito simpático em forma de filme, que nos pede atenção e foco para o caminho político e social que estamos a construir.

A ficção que vai beber à realidade, e na sua esplendida forma de comunicar com os espetadores, é uma mais valia para nos ajudar a organizar as ideias.

A liberdade é tão preciosa, a liberdade é tudo e o ódio pode conseguir acabar com ela. Viver sem medo, ao som das melodias do respeito, onde o diálogo e a tolerância podem ser heróis.